31 outubro 2011

TEXTO LIDO NO CASAMENTO DA MINHA FILHA


Certa manhã, quando Krishhnamurti ia começar a falar aos seus discípulos, um passarinho pousou ao seu lado e começou a cantar, com toda a alma.







Depois se calou e foi-se embora, a voar. Diante disso, o sábio indiano simplesmente disse: “Está terminado o sermão de hoje”.






Como há muito tempo está claríssimo que vocês dois foram feitos um para o outro, cheguei a pensar em fazer como Krishhnamurti e encerrar esse discurso antes mesmo de começar.

Desisti da ideia porque conheço bem a minha filhota e sei que ela não me perdoaria por esse sub-misticismo de araque...

Portanto, aqui vai a minha bula infalível para que vocês não atrapalhem o que o destino lhes reservou.

SORRIAM! Sorriam muito, sorriam sempre! Um sorriso é a distância mais curta entre duas pessoas.

E acreditem: o mundo é um espelho - se sorrirem para ele, ele sorrirá para vocês.

O sinal mais evidente da sabedoria é um constante bom humor.

O riso é o som mais civilizado do universo.


Além do mais, a felicidade é um bem que se multiplica ao ser dividido.

Nunca se levem demasiadamente a sério. Isso é cômico.

Sejam sempre gentis. Nunca é cedo para uma gentileza, porque nunca se sabe quando poderá ser tarde demais.


Evitem zangar-se. Para cada minuto que nos zangamos, perdemos 60 segundos de felicidade.

Não acreditem que o ciúme é sinal de amor. Na verdade, ele tem as suas raízes no egoísmo, na vaidade e no amor próprio.





CUIDADO COM AS PALAVRAS: elas têm a leveza do vento e a força da tempestade.

Nunca se esqueçam de que as palavras pertencem metade a quem fala e metade a quem ouve.

Portanto, cuidado com as palavras... Não permitam que a língua ultrapasse o pensamento, pois não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis.


Saibam pesar e sopesar cada instante. O bom senso é também o senso do momento. Há momentos em que silenciar é mentir, assim como há momentos em que falar é estupidez.


E muito, muuuito cuidado com a ironia. Ela pode ser perigosa, pois nem sempre a compreendemos.







Dizem que Deus está nos detalhes, portanto, CUIDADO COM OS DETALHES.


Quando consideramos as conseqüências das pequenas coisas – uma palavra amarga, um olhar de desdém, um esquecimento fortuito – chegamos à conclusão de que não existem detalhes.




Não sofram por causa de plantões e serões. Para se estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro. O amor tem os braços suficientemente longos para que possamos nos abraçar através do espaço.


Mas não se deixem escravizar pelo trabalho. Além da nobre arte de conseguir fazer as coisas, existe a nobre arte de deixar as coisas por fazer. A sabedoria da vida consiste na eliminação de tudo que não é essencial.



Por isso, aprendam a esquecer... A vida seria impossível se retivéssemos tudo na memória: o importante é escolher o que devemos esquecer. E esquecer!

Mas nunca se esqueçam: o amor é como um jardim japonês. Aparenta grande simplicidade, escondendo enorme complexidade. Saibam cultivar cuidadosamente o seu amor, pois as pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem.




Não esperem que nada lhes caia no colo. Acreditem: a vida lhes dará poucos presentes. Se vocês querem uma vida plena, deem-se as mãos e construam-na, juntos!!!

Ocupem-se permanentemente, pois a felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.





A vida, quanto mais vazia, mais pesa.



Quando necessário, repreendam em particular; sempre que possível, elogiem em público.


VIAJEM, viajem muito! Mas não dependam de novas paisagens para se maravilharem, pois o verdadeiro deslumbramento não depende de novas paisagens, mas de novos olhos.


E quando viajarem, preocupem-se menos em filmar e fotografar e mais em fruir os momentos, pois a verdadeira viagem se faz na memória.

Não temam a velhice! A maturidade nos permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura.


Afinal, viver é como subir uma montanha. Mesmo que no fim não se esteja tão forte fisicamente, a paisagem é bem melhor.






Por isso, não se assustem com as primeiras rugas ou com os primeiros cabelos brancos: os vinte anos são mais belos aos quarenta que aos vinte. E assim por diante... Todas as idades dão seus frutos. É preciso apenas saber colhê-los.



Importante MESMO, é que no fim vocês tenham mais rugas na testa que no coração.

BEIJEM, beijem muito, pois a melhor confissão de amor não vale um beijo.


Não se imaginem muito sabidos, pois o que ignoramos é e será sempre muito maior do que tudo quanto sabemos. Quando acharem que estão ficando sábios, desconfiem, pois quando a gente pensa que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

Sejam sempre exigentes, isso é bom. Mas não esqueçam: os medíocres são exigentes com os outros; os grandes são exigentes consigo mesmos.





Quando surgirem problemas, e eles surgirão, eu garanto, lembrem-se que aquilo que a lagarta sente como fim do mundo, para nós é uma linda borboleta.






E lembrem-se: nada é tão sombrio. Uma sombra escura só existe se uma luz muito poderosa estiver brilhando atrás dela.


Nestas horas, pensem que o mais importante não é a situação em que estamos, mas a direção para a qual nos movemos.

E quando errarem, admitam e desculpem-se rápido, pois os erros mais curtos são os melhores.


Assim, ao fim e ao cabo, as recordações não serão feitas de remorsos.


TENHAM FILHOS! Vocês não imaginam como isso vai iluminar as suas vidas. Cada criança, ao nascer, é uma mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança nos homens.


Ousem, não tenham medo de errar. Se fecharem a porta a todos os erros, a verdade ficará do lado de fora.




Prometam que vocês ouvirão um ao outro, durante toda a vida, como se fosse a primeira vez. Não faz mal que isso nunca venha a acontecer, e não acontecerá, eu garanto, mas o mais importante é que essa intenção nunca deixe de existir.






CUIDEM DA SAÚDE! Mas não deem muita bola para o que dizem os especialistas das revistas. Não há nada melhor para a saúde que um amor correspondido.


Não se deixem levar pelas aparências. Só se vê com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

Procurem sempre o conteúdo interior. Afinal, o que toca o barco para frente não é a vela estufada, mas o vento que não se vê.


E quando lhes disserem que tudo é relativo, que o moderno é melhor do que o velho, não levem ao pé da letra, pois há, sim, valores que são eternos. Cultivem-nos e transmitam-nos aos seus filhos.

Acreditem: dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única.

Também não dêem muito crédito àqueles que bendizem as novidades e maldizem o hábito. Na rotina é que se encontram os maiores prazeres.


Quando suas opiniões não baterem, não dêem muita importância. Mais importante que a comunhão das opiniões é a comunhão dos espíritos.

Há quem diga que o amor consiste em olhar juntos para a mesma direção... Pode até ser, mas cuidado, MUITO CUIDADO, com a individualidade um do outro.

E aqui, peço licença aos meus afilhados Mi & Pat para reproduzir parte do texto que li no casamento deles.


Nada é mais importante num casamento do que o RESPEITO.

Nada parecido com obediência, medo ou submissão. Essa é a deformação do Respeito, é o temor reverencial, em que um dos pólos se subjuga, anula-se frente ao seu oposto.

Nada a ver, também, com a admiração basbaque, aquela que o Padre Antônio Vieira dizia ser “... filha da ignorância, fruto das coisas que se ignora”.

Portanto, o Respeito tem tudo a ver com a consideração, com a estima, com o afeto que passamos a ter por algo ou alguém após exame detido, análise refletida, ponderação decantada pelo tempo, ou seja, por algo ou alguém que se conhece, que não se ignora.


Admiramos com o coração, mas respeitamos com a razão, e ambos, admiração e respeito, devem ser cultivados, cuidados, regados.

Respeitar, então, seria admirar aquilo que conhecemos, valorizando atos e ações, aceitando erros e defeitos, compreendendo falhas e deslizes, pois tudo isso faria parte daquele conjunto que passamos a admirar, considerar, estimar.


Respeitar é também não forçar a alma do outro sem o seu consentimento. Nem para mudá-la a fórceps, nem para mantê-la congelada in vitro. Respeitar é deixar livre o caminho para o crescimento pessoal, sem que o despeito se rebele contra a ascensão do outro.



Respeitar é sentir prazer com o êxito do outro, regozijar-se com a realização do outro.

Respeitar é preservar a intimidade e zelar pela imagem do parceiro.


Respeitar é dar atenção, preservando a individualidade. É dar carinho, preservando a independência. É dar amor, preservando o espaço.


Respeitar é admirar mesmo as imperfeições do outro, é compreender e aceitar até mesmo o que há de precário no outro.



Mas chega de sermão...




DOEM-SE! ENTREGUEM-SE! AMEM-SE! E façam tudo isso intensamente, pois o verdadeiro amor nunca se desgasta.

Quanto mais se dá mais se tem.




Mas doem-se sem esperar nada em troca, de preferência sem que o outro nem mesmo perceba, pois um benefício jogado na cara é sempre uma ofensa.


SONHEM! Sonhem muito!!! Pois se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais.  

E quando acordarem, não chorem porque já terminou, sorriam porque aconteceu.




Sigam esta bula e daqui a 50 anos vocês poderão dizer um ao outro o que eu penso todos os dias sobre a minha parceira: “Te amo por quem tu és, mas ainda mais por quem sou quando estou contigo”.

28 outubro 2011

PARA AQUELES QUE INSISTEM EM DEMONIZAR A VEJA COMO MÍDIA GOLPISTA ANTI-PT, SEGUEM AS CAPAS QUE DERRUBARAM COLLOR, O HOJE AMIGÃO DE LULA, ASSIM COMO SARNEY, RENAN, JADER, JUCÁ ET CATERVA...

02 outubro 2011

Os sentimentais

JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE S. PAULO - ILUSTRADA
27 DE SETEMBRO DE 2011

Grande mistério: por que motivo os livros de Theodore Dalrymple não foram ainda publicados no Brasil? Fato: Dalrymple não é leitura fácil para gostos politicamente corretos. Mas qualquer obra do dr. Dalrymple merece o tempo e o dinheiro. Dalrymple não engana.
Aliás, o seu mais recente livro é uma anatomia dos enganos. Dos sentimentais enganos que começam na esfera privada e rapidamente transbordam, como um líquido viscoso e corrosivo, para a arena pública. Título: "Spoilt Rotten: The Toxic Cult of Sentimentality" (London: Gibson Square, 260 págs.) -algo como "podre e estragado: o culto tóxico do sentimentalismo".
Nem mais. Em finais do século 18, a Europa produziu uma nova sensibilidade "romântica", tendo Rousseau como patrono e o sentimento como deus. Se os homens nascem bons, como explicar a miséria e a infelicidade da espécie?
Não, obviamente, com a natureza imperfeita dela -a velha explicação das teologias tradicionais. Se imperfeição existe, ela se deve a uma sociedade política que aprisiona o "bom selvagem" e impede a expressão pura e purificante do seu "Eu".
Hoje, o "bom selvagem" anda solto. E, com ele, um "Eu" orgulhoso da sua própria ignorância -e orgulhoso porque crente na genuinidade da sua própria genuinidade.
Eis a essência do sentimentalismo: a expressão da emoção sem a presença do julgamento. Sentir basta -porque os sentimentos nunca enganam. Ou, como diria Rousseau, podemos errar, mas, se o erro for sincero, ele não foi propriamente um erro.
Na esfera privada, essa forma de "pensamento" (que é, na verdade, o recuo do pensamento) até pode proporcionar momentos divertidos.
Dalrymple conta um: o dia em que conheceu uma estudante de "Genocide Studies" (sim, isso existe) que dissertou apaixonadamente sobre o genocídio de Ruanda porque vira o filme "Hotel Ruanda". De fato: estudar para que quando basta uma "identificação" (sentimental) com as vítimas de um cataclismo qualquer?
Quando li essa passagem, ri alto. Mas ri com nostalgia. Conheço vários desses "especialistas" que falam sobre as desgraças do mundo porque viram um filme de Hollywood sobre o assunto. ("O aquecimento global existe, juro. Você não viu o filme de Al Gore?")
O sentimentalismo substitui a razão pela emoção. E, se isso diverte na esfera privada, se torna opressivo na arena pública.
Dalrymple analisa dois casos que ilustram o perigo.
O primeiro vem de Portugal, com o desaparecimento de uma criança inglesa no Algarve. Madeleine McCann era o nome, mas a mídia internacional (e sentimental) preferiu rebatizá-la como "Maddie".
Nada sabemos de definitivo sobre o caso: como desapareceu, quem a fez desaparecer, onde estará a criança -viva ou morta.
Mas a opinião pública, confrontada com dois pais que não choravam em público, rapidamente encontrou neles os culpados. A ausência de sentimentalismo não poderia ser explicada por noções clássicas de decoro ou resiliência. A ausência de sentimentalismo era uma revelação de monstruosidade moral.
E, se assim foi em Portugal, assim foi na Inglaterra, com a morte da princesa Diana. Um momento sentimental (e irracional) que levou milhares de ingleses aos portões do Palácio de Buckingham, empunhando cartazes contra a monarquia.
"Mostrem-nos que também sentem!", lia-se num deles, resumo perfeito da demência sentimental: nós queremos que os nossos governantes partilhem as nossas emoções públicas -e em público. Uma espécie de terapia coletiva a que Tony Blair deu o seu contributo, coroando Diana Spencer com o apropriado título de "Princesa do Povo".
O problema dessa terapia é que os líderes deixam de ser líderes e passam a obedecer aos caprichos sentimentais das massas.
Para citar apenas um caso entre mil, são esses caprichos, alimentados também por cantores pop subletrados, que explicam o grande desastre da ajuda humanitária à África. Não que os africanos pobres e famintos não precisem de ajuda.
Mas essa ajuda não pode acabar nas contas bancárias dos governantes africanos que são os primeiros responsáveis pela miséria do seu povo.
O culto do sentimento, escreve Dalrymple, não destrói apenas a capacidade de pensar. Destrói a simples ideia de que é preciso pensar.
Não conheço melhor receita para a barbárie.

13 setembro 2011

Pesquisando sobre o Bolsa Escola, descobri uma preciosidade.


DISCURSO DO SENADOR CRISTOVAM BUARQUE 5/10/2010

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT-DF) – Antes de passar a palavra ao Senador Heráclito Fortes, eu fico muito feliz com o seu aparte e quero dizer – pedindo licença ao Senador Heráclito Fortes para que S. Exª espere um pouquinho – que, quando alguém fica insistindo muito na paternidade de um filho é porque desconfia da fidelidade da esposa e eu não fico por aí, insistindo na paternidade do Bolsa Escola mas como o senhor levantou, eu quero lembrar que a idéia ficou bem clara, em 1987, no Centro de Estudos Multidisciplinares da UNB, - no Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo – foi que essa idéia surgiu. Não importa se fui eu que a lancei. Ela surgiu ali. Depois, eu escrevi um texto que debati pelo Brasil inteiro, a partir de 1989 ou 1990 e que, depois, virou um livro que se chama A Revolução nas Prioridades, em que são 100 medidas para mudar o Brasil. A segunda eu, ainda, a chamava de Renda Mínima Vinculada à Educação. A primeira era Um Programa de Creches para o Brasil Inteiro e a terceira era Poupança Escola, ainda sem o nome de poupança. A terceira era o Poupança Escola, ainda sem o nome de poupança.

Em 94, quando fui candidato a governador, aí, num primeiro momento, um assessor me perguntou se a gente não podia apresentar esse projeto para o Distrito Federal. A minha primeira reação foi contrária, porque disse: se trouxermos um programa desses para um estado apenas todo mundo virá para cá. Mas aí eu pensei, e colocamos, sim, no nosso projeto, a exigência de cinco anos, pelo menos, de moradia aqui para receber o direito. A outra coisa que precisava, além da exigência de cinco anos, era criar um nome bonito, porque com o nome de Renda Mínima vinculado à educação ninguém consegue passar a ideia para a população. É bom para livro, é ruim para campanha eleitoral. E aí a gente queria não apenas criar o Programa, mas ganhar votos também, é claro. Foi aí que preparei a ideia e levei para os marqueteiros. Criei a idéia do Bolsa Escola por falta de outro nome. Não sei por que o nome foi esse, era uma Bolsa vinculada à escola. Eles aceitaram. Em 94, comecei a divulgar isso. O meu primeiro gesto de governo foi criar o Bolsa Escola. Logo depois, o Poupança Escola. E aí é que veio o grande erro. Essas duas coisas deviam ter um nome só, o Bolsa Escola deveria ser as duas coisas, a renda mensal com a exigência da frequência às aulas, e o depósito em caderneta de poupança contra a aprovação da criança. Devia ser uma coisa só. Criamos como duas separadas, mas elas funcionaram aqui. O Presidente Fernando Henrique Cardoso, quatro anos depois – e quero dizer que lutei muito nesses quatro anos do Governo, eu aqui e o Presidente Fernando Henrique lá, para que ele criasse...

Lembro de, quando fui visitá-lo na transição, no escritório dele no Lago Sul, ter levado o meu livro de presente para ele, sugerindo: Presidente, por que o Senhor não cria esse Programa? Aliás, quero fazer aqui um registro. Fui do governo paralelo, criado pelo Presidente Lula em 90. Eu levei essa ideia para a reunião do governo paralelo, que foi recusada. O governo paralelo recusou essa ideia. Lembro bem que o Dr. Barelli, que era assessor econômico, disse que não fazia sentido. E o documento que depois publicamos, que é assinado pelo Presidente Lula...

O Sr. Heráclito Fortes (DEM – PI) – V. Exª pode repetir o nome do assessor?

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT – DF) – Barelli, que foi do Dieese. Foi ele que disse que não fazia sentido. Foi eliminado. Tanto que no pequeno documento, assinado...

O Sr. Heráclito Fortes (DEM – PI) – Onde anda ele? V. Exª está aqui, no Senado da República.

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDB – DF) – Não sei. O pequeno documento, assinado pelo então Luiz Inácio Lula da Silva, não presidente, e por mim, numa co-autoria, um documento com propostas para a educação, lançado em 90. Não entrou o Bolsa Escola. O Lula perdeu aí a chance da paternidade, porque não entrou, entraram outras medidas para a educação. E o PT não foi favorável ao Bolsa Escola aqui no Distrito Federal. Sofri muito para convencê-lo disso, especialmente ao Sindicato dos Professores. Isso era chamado de política compensatória, era o nome que se dava. Lembro que eu dizia: por que pagar uma criança para estudar é política compensatória, mas pagar em dólares para alguém já formado ir estudar na Europa não é política compensatória, é investimento? Esse era o debate. Mas diziam: mas é melhor colocar esse dinheiro para pagar melhor os professores. Aí mostrei que se aquele dinheiro fosse distribuído aos professores o aumento seria de 1,5%, não ia adiantar nada, mas era um salário mínimo inteiro o que a gente pagava aqui, o que não proponho para o Brasil todo.

Aqui sim, porque o número é menor, porque é possível, porque custa mais viver aqui do que em pequenas cidades do interior. Então, essa é a idéia, assim que surgiu. O Presidente Fernando Henrique no começo recusou. Eu tenho as cartas guardadas em que eu mandei para ele e para o meu amigo, Paulo Renato Souza, que esnobou a idéia no primeiro momento e insiste que começou em Campinas. Se fosse assim, o Governo Fernando Henrique Cardoso teria começado em 95, se fosse uma coisa lá de Campinas. Agora, Campinas começou a executar praticamente no mesmo momento em que nós aqui. Por quê? Porque o prefeito tinha sido eleito dois anos antes que eu, Grama.

O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM – PI) – Grama.

O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT – DF) – Grama. Ele tinha sido eleito dois anos antes. Eu fui a Campinas ajudar a implantar. Fui lá, conversei com ele, debati com ele e ele implantou, na verdade, quase no mesmo momento mas dois anos depois, no terceiro ano do governo dele e não era exatamente o Bolsa Escola, estava mais perto do Bolsa Família. Primeiro, porque a gestão era na Secretaria de Assistência Social, não na Secretaria de Educação; segundo, porque a vinculação à educação não era suficientemente rígida. O Presidente Fernando Henrique Cardoso, então, demorou muito, mas no fim colocou. E, quando colocou – a isso é preciso fazer justiça – ele teve uma generosidade raríssima em um político, ele manteve o nome de um programa que vinha do governo de um partido a que ele fazia oposição. E nas reuniões de criação do programa dentro do Governo Fernando Henrique muitos sugeriram que mudasse o nome. E foi ele – eu soube depois – foi ele, o próprio Fernando Henrique que disse: “Não, esse nome está aí, vamos manter esse nome”. Essa é uma generosidade muito rara na política. O que mais a gente faz em política é mudar o nome daquilo que o governador, o presidente ou o prefeito de antes fez.
O Presidente Fernando Henrique Cardoso manteve o nome. Se não fosse isso, o nome Bolsa Escola tinha desaparecido, porque, vamos falar com franqueza, o nome Bolsa Escola só se espalhou porque virou um programa nacional.

10 setembro 2011

"9/11 - THE NAUDET BROTHERS DOCUMENTARY"


Quem ainda não assistiu ao documentário "9/11 - The Naudet Brothers Documentary" não deixe de ver, é terrivelmente fantástico. O filme traz imagens feitas antes, durante e depois da tragédia. Vale dizer que o filme tem 1 hora e 44 minutos.

SINOPSE

O material foi registrado por acaso pelos irmãos franceses Jules e Gedeon Naudet, que, ainda em julho, começaram a registrar a rotina de um típico bombeiro norte-americano, acompanhando o dia de treinamento de um novato “virando homem”. Depois de acompanhar durante vários meses a vida do jovem futuro bombeiro, Tony Benetatos, sem que nada de importante acontecesse, por ironia do destino na manhã de 11 de setembro de 2001 eles estavam no lugar certo e na hora certa, sendo os únicos a registrar o início da tragédia, quando o primeiro avião atingiu uma das torres.

O destino, além de colocar os dois documentaristas em meio à loucura, também os separou. Jules tinha ido fazer a cobertura de um singelo vazamento de gás nas ruas, enquanto Gedeon ficava no posto dos bombeiros captando imagens do novato Tony Benetatos. Por golpe desse mesmo destino, o jovem cinegrafista Jules Naudet, menos experiente com a câmera que seu irmão, Gedeon, conseguiu captar a única imagem do primeiro avião colidindo com o World Trade Center, registrando um evento que entraria para a história, daqueles que, em séculos, é possível presenciar uma única vez.

Por instinto ou mero acaso, ao ouvir um forte rugido no céu Jules virou sua câmera com o foco no avião no exato momento de registrar a única imagem existente da primeira aeronave colidindo com o World Trade Center.

Dentro de uma das torres ou fora delas, as imagens dos dois irmãos se buscam o tempo todo. Em seus melhores momentos, as imagens do documentário são caóticas e confusas como a própria vida. Ninguém, nem o aprendiz de cinegrafista nem os bombeiros veteranos, sabe muito bem o que está acontecendo ou o que fazer. O medo está no olhar de todos. Pelas imagens, não se entende nem se tenta explicar nada.

O que há de mais importante e dramático neste documentário não são as palavras nem as imagens. Não há como esquecer a horrível trilha sonora - um barulho ensurdecedor ao fundo que insistia em alertar que corpos caiam como uma chuva macabra. O som da morte. Mas o documentário não traz nenhuma imagem grotesca ou chocante. Em “9/11”, o medo e a correria não podem ser confundidos com a falta de profissionalismo. Os cineastas evitaram mostrar cenas fortes, como pessoas queimadas ou corpos caindo de cima do prédio. O som das quedas sobre o saguão é ainda mais assustador que qualquer imagem sensacionalista. As imagens são preenchidas pela nossa própria imaginação.

O feito mais impressionante de “9/11” é colocar o espectador dentro do WTC no momento em que a primeira torre desaba. Jules estava junto da equipe de bombeiros no saguão de um dos prédios. Vários homens já haviam subido para iniciar o resgate. De repente, o som ao fundo cresce. Desta vez não são mais os corpos que caem, mas o mundo inteiro que está desabando. A primeira torre começa a ruir, a poeira escurece tudo e a pequena luz da câmera do jovem Jules é que indica o único caminho para a fuga. Não se vê nada. A câmera de Gideon registra sua fuga desse inferno e testemunha, sempre "ligada", sua própria luta pela vida.

Na seqüência, começa a correria para encontrar uma saída – o que se vê é apenas poeira e mais poeira, a se perder de vista. Pelas ruas, Jules continua a captar imagens impressionantes.

Ao desligarem suas câmeras para o triste/alegre reencontro (não sabiam o paradeiro do outro), um terceiro cinegrafista registra o momento de lágrimas entre os franceses.


9/11 (The Naudet Brothers Documentary)

05 novembro 2010

Assino embaixo, com um único adendo: no penúltimo parágrafo o autor poderia ter ido além e concluído: "Mas Fernando Henrique fez, tanto que nem Lula, com seus estratosféricos 80% de aprovação, ousou mudar os paradigmas da revolução de FHC".

Gestão Lula, sucesso ou desastre?

Passada a eleição, acho que é hora de um balanço dos oito anos de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República. Façamo-lo pelo método cebola, que é o de analisar por camadas.

Numa primeira leitura, a administração foi um sucesso. Provam-no os mais de 80% de popularidade obtidos pelo mandatário e, principalmente, o fato de ter conseguido fazer seu sucessor, mesmo sendo ele Dilma Rousseff. Nada pessoal contra a presidente eleita --a quem desejo sucesso--, mas, convenhamos, ela não foi a candidata dos sonhos dos marqueteiros: não é exatamente uma miss simpatia nem excele na arte de Cícero.

Voltando a Lula, os brasileiros ainda não ficamos todos malucos. Sua gestão é bem avaliada porque tem resultados bastante positivos a exibir, especialmente no campo econômico. Para além do fato de o Brasil ter passado sem grandes solavancos pela crise mundial, a pior desde 1929, foi sob Lula que amplos contingentes da população entraram no maravilhoso mundo do consumo, seja, na fatia mais pobre, através de programas como o bolsa-família e o aumento real do salário mínimo, seja, nos setores médios, por meio da ampliação do crédito e de ferramentas indiretas como o Prouni. Não chega a ser um ovo de colombo. A pergunta que cabe aqui é: por que ninguém fez isso antes? Sob essa chave, é mais do que justo que Lula e seus aliados gozem dos dividendos eleitorais proporcionados por essas políticas.

Numa segunda camada, porém, acho que dá para afirmar que o PT não é o único --e nem mesmo o principal-- artífice da bonança econômica. O Brasil vai agora relativamente bem porque se formaram alguns consensos importantes em relação, principalmente, a qual modelo seguir. Desde então, paramos de inventar bruxarias e tentar reinventar a roda. Firmes em direção a um norte, e com uma mãozinha da China que compra quase tudo o que somos capazes de extrair da terra, os resultados apareceram.

Para sermos honestos, é preciso dizer que esse consenso se formou apesar do PT, que, enquanto estava na oposição, fez o possível para sabotá-lo. A cada oportunidade que tinham, Lula e seus seguidores denunciavam o ajuste fiscal, as privatizações e a própria economia de mercado, a que tachavam de neoliberalismo. Foi só na iminência de chegar ao poder que o partido finalmente aderiu ao consenso, cujas sementes haviam sido lançadas na gestão Fernando Collor de Mello e que ganhou corpo sob o governo de Fernando Henrique Cardoso. Numa das mais reveladoras declarações de sua carreira, o já presidente Lula admitiu que, enquanto oposição, o que partido fazia eram "bravatas".

Resquícios desse discurso "bravatista" apareceram agora na campanha, quando Dilma tentou apresentar José Serra como o homem que privatizaria a Petrobras. Se quisermos há elementos dessa retórica na própria administração, em especial nas relações externas, que ainda tentam pintar os EUA como a encarnação do mal e ensaia desastradas aproximações sentimentais com regimes que se afirmem de esquerda ou se oponham ao "império".

Aqui, o analista generoso afirmará que o PT, depois de muito tempo, finalmente aprendeu o beabá dos fundamentos econômicos e mudou para melhor. O crítico mais impiedoso dirá que são um bando de oportunistas que dançam conforme a maré e tomam para si glórias alheias. De minha parte, fico no meio do caminho entre essas duas posições mais caricaturais.

A terceira camada é mais difícil de descascar. São os gomos da ética. No espaço de menos de dois anos, entre o início da administração, em 2003, e a eclosão do escândalo do mensalão, em 2005, o PT passou de partido principista, que não admitiu nem mesmo participar do "espúrio" colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves e pôs fim ao ciclo autoritário, a legenda pragmática radical, que se alia sem hesitar aos Sarneys, Collors e Renans deste país.

E aqui, que me perdoem os intelectuais do PT, não dá para pretender que o partido esteja promovendo algum tipo de revolução silenciosa. Muito pelo contrário, qualquer transformação minimamente progressista do Brasil passaria por contrariar ativamente os interesses dessa oligarquia. Não fazê-lo é, na minha leitura, o atestado de óbito ideológico do PT.

Não estou evidentemente dizendo que teria sido fácil livrar o país de suas centenárias estruturas de perpetuação do atraso. É até arguível que seria impossível fazê-lo. O que afirmo, e lamento, é que, quando chegou ao Planalto e teve a oportunidade de pelo menos tentar modernizar o Brasil, o PT preferiu o caminho mais confortável de compor com os inimigos de ontem para com eles partilhar as prebendas de hoje --e amanhã.

Muito mais do que uma mudança estrutural, o governo Lula representou uma mera troca de guarda entre os inquilinos do poder. Enquanto os deuses da economia sorriem para o país, é relativamente fácil administrar a casa. Mas, quando a situação se inverter, em algum momento dos próximos anos, os limites das atuais políticas ficarão claros. As alianças de hoje darão sinais de instabilidade e, no pleito seguinte, quase certamente experimentaremos uma alternância no poder. É o ritmo da democracia.

Nesse meio tempo, é claro, estamos melhorando, embora não na velocidade desejável. Um setor tão fundamental como a educação ainda se ressente de uma revolução qualitativa. Mas melhorar é a ordem natural das coisas. Exceto em casos de guerra ou de crises catastróficas, a humanidade caminha sempre para a frente. Muito mais raros --e preciosos-- são aqueles líderes que introduzem ou dão substância a mudanças de paradigma, seja na economia, na política ou nos costumes. E isso Lula não fez.

Um juízo mais conclusivo da administração depende evidentemente das expectativas iniciais do eleitor. Para quem não esperava nada ou temia o caos, Lula foi uma grata surpresa. Já para quem apostava no PT da ética e dos princípios republicanos, a gestão revelou-se desastrosa. Façam suas escolhas.

Hélio Schwartsman

21 outubro 2010

(réplica ao artigo de Amin)
DIÁRIO CATARINENSE - 21 de outubro de 2010

A VERDADE DA ELEIÇÃO

A célebre frase do diplomata francês Talleyrand - "Eles não aprenderam nada nem esqueceram nada" - cabe como uma luva para definir o sempre ressentido Esperidião Amin.

Talleyrand referia-se aos nobres franceses que voltavam do exílio. Tendo perdido suas propriedades, status e poder, retornavam à França ansiosos por recuperar o que haviam perdido, certos de que tudo voltaria a ser como antes. Não percebiam que a Revolução havia mudado a sociedade francesa para sempre e que aquelas mudanças não tinham mais volta. A nobreza nunca mais recuperaria o poder que tivera no ‘Antigo Regime’, pois o povo havia conquistado espaços políticos dos quais não mais abriria mão.

Apesar de dizer que seu artigo publicado ontem neste espaço não seria choro de derrotado, não foi outra coisa que fez o ex-governador. Segundo ele, “em Santa Catarina, a escolha ocorreu em primeiro turno, sem a efetiva comparação entre mudar e continuar. A sociedade catarinense colherá os frutos da sua decisão”. Disse mais o lamuriento perdedor (que perdedor não é, pois, afinal, ganhou dos catarinenses um mandato de deputado, que parece desprezar): “o segundo turno de uma eleição favorece a comparação mais apurada de ideias, personalidades, credibilidade e circunstâncias, entre outros fatores”, e lamentou a “a falta de confronto mais amplo”, que teria deixado sem esclarecimento questões relativas à segurança pública, saúde, educação, sustentabilidade, agricultura, descentralização.

Data máxima vênia, penso, democraticamente, que seu choro é fruto de uma lógica estranha.

O primeiro turno teve 47 dias de propaganda eleitoral e o segundo apenas 15. O eleitor só pede um pouco mais de tempo para pensar quando não tem segurança em relação ao que viu e ouviu durante os primeiros 45 dias. É o caso da eleição presidencial, pois ainda há muitas incógnitas e dúvidas no ar. Não foi o caso em Santa Catarina.

Amin, que parece considerar a si e aos seus como donatários de uma capitania, insiste em não aprender nada e não esquecer nada.

ÁLVARO JUNQUEIRA – CONSULTOR-GERAL DO GABINETE DO GOVERNADOR

(artigo de Amin)
DIÁRIO CATARINENSE - 20 de outubro de 2010

Eleições 2010

O segundo turno de uma eleição favorece a comparação mais apurada de ideias, personalidades, credibilidade e circunstâncias, entre outros fatores. Para presidente da República, o Brasil ganha com o confronto, apesar das distorções sobre ética e religião que se observam. Em Santa Catarina, a escolha ocorreu em primeiro turno, sem a efetiva comparação entre mudar e continuar. Abstraído o mérito do grupo vencedor, o resultado sinaliza, democraticamente, continuidade.
Os vizinhos estados do Paraná e do Rio Grande do Sul também tiveram decisão em primeiro turno, vencendo a oposição. A alternância ensejará aprimoramentos e correções. A sociedade catarinense colherá os frutos da sua decisão. Penso, democraticamente, que o resultado será sofrível, por erros conceituais e decisórios que a falta de confronto mais amplo deixou sem esclarecimento.
Na segurança pública, o candidato da situação invectivou contra a partidarização da Aprasc, sem criticar a partidarização da própria cúpula gestora. Na saúde, propagou a construção de um hospital (ou ala?) público, mas defendeu o modelo de hospitais filantrópicos. Na educação, que compromissos foram assumidos face à realidade e desafios postos? Sustentabilidade? Afinal, valem os premiados com troféus motosserra ou a voz da candidata Marina?
Agricultura, políticas públicas para crianças, jovens e idosos são indagações. Os cargos comissionados espalhados por 36 secretarias regionais, já chamadas de “cabides de empregos”, equivalem à descentralização? Se o governo federal adotasse essa equação, criaria 900 ministérios regionais! A isso não chamaríamos, também, de “aparelhamento” do governo?
Longe de ser choro de derrotado, esta reflexão estimula a pensar propostas para a reforma política que todos sabemos ser necessária. Quanto ao choro, prefiro o conselho do beduíno: “Não chores por ter perdido o sol, pois as lágrimas não te deixarão ver as estrelas!”

ESPERIDIÃO AMIN - EX-GOVERNADOR DE SC, DEPUTADO FEDERAL ELEITO (PP)

23 setembro 2010

MAQUIADORES DO CRIME
Olavo de Carvalho - 20/9/2010


A única reação eficaz à espiral do silêncio é quebrá-la - e não se pode fazer isso sem quebrar, junto com ela, a imagem de respeitabilidade dos que a fabricaram.

Lenin dizia que, quando você tirou do adversário a vontade de lutar, já venceu a briga. Mas, nas modernas condições de "guerra assimétrica", controlar a opinião pública tornou-se mais decisivo do que alcançar vitórias no campo militar. A regra leninista converte-se portanto, automaticamente, na técnica da "espiral do silêncio": agora trata-se de extinguir, na alma do inimigo, não só sua disposição guerreira, mas até sua vontade de argumentar em defesa própria, seu mero impulso de dizer umas tímidas palavrinhas contra o agressor.

O modo de alcançar esse objetivo é trabalhoso e caro, mas simples em essência: trata-se de atacar a honra do infeliz desde tantos lados, por tantos meios de comunicação diversos e com tamanha variedade de alegações contraditórias, com frequência propositadamente absurdas e farsescas, de tal modo que ele, sentindo a inviabilidade de um debate limpo, acabe preferindo recolher-se ao silêncio. Nesse momento ele se torna politicamente defunto. O mal venceu mais uma batalha.

A técnica foi experimentada pela primeira vez no século 18. Foi tão pesada a carga de invencionices, chacotas, lendas urbanas e arremedos de pesquisa histórico-filológica que se jogou sobre a Igreja Católica, que os padres e teólogos acabaram achando que não valia a pena defender uma instituição venerável contra alegações tão baixas e maliciosas. Resultado: perderam a briga.

O contraste entre a virulência, a baixeza, a ubiquidade da propaganda anticatólica e a míngua, a timidez dos discursos de defesa ou contra-ataque, marcou a imagem da época, até hoje, com a fisionomia triunfante dos iluministas e revolucionários. Pior ainda: recobriu-os com a aura de uma superioridade intelectual que, no fim das contas, não possuíam de maneira alguma. A Igreja continuou ensinando, curando as almas, amparando os pobres, socorrendo os doentes, produzindo santos e mártires, mas foi como se nada disso tivesse acontecido.

Para vocês fazerem uma idéia do poder entorpecente da "espiral do silêncio", basta notar que, durante aquele período, uma só organização católica, a Companhia de Jesus, fez mais contribuições à ciência do que todos os seus detratores materialistas somados, mas foram estes que entraram para a História - e lá estão até hoje - como paladinos da razão científica em luta contra o obscurantismo. (Se esta minha afirmação lhe parece estranha e - como se diz no Brasil - "polêmica", é porque você continua acreditando em professores semianalfabetos e jornalistas semialfabetizados. Em vez disso, deveria tirar a dúvida lendo John W. O'Malley, org. The Jesuits: Cultures, Sciences, and The Arts, 1540-1773, 2 vols., University of Toronto Press, 1999, e Mordecai Feingold, org., Jesuit Science and the Republic of Letters, MIT Press, 2003).

Foi só quase um século depois desses acontecimentos que Alexis de Tocqueville descobriu por que a Igreja perdera uma guerra que tinha tudo para vencer. Deve-se a ele a primeira formulação da teoria da "espiral do silêncio", que, em extensa pesquisa sobre o comportamento da opinião pública na Alemanha, Elizabeth Noëlle-Neumann veio a confirmar integralmente em The Spiral of Silence: Public Opinion, Our Social Skin (2ª. ed., The University of Chicago Press, 1993).

Calar-se ante o atacante desonesto é uma atitude tão suicida quanto tentar rebater suas acusações em termos "elevados", conferindo-lhe uma dignidade que ele não tem. As duas coisas jogam você direto na voragem da "espiral do silêncio". A Igreja do século 18 cometeu esses dois erros, como a Igreja de hoje os está cometendo de novo.

A sujidade, a vileza mesma de certos ataques são planejadas para constranger a vítima, instilando nela a repulsa de se envolver em discussões que lhe soam degradantes e forçando-a assim, seja ao silêncio, seja a uma ostentação de fria polidez superior, que não tem como não parecer mera camuflagem improvisada de uma dor insuportável e, portanto, uma confissão de derrota. Você não pode parar um assalto recusando-se a encostar um dedo na pessoa do assaltante ou demonstrando-lhe, educadamente, que o Código Penal proíbe o que ele está fazendo.

As lições de Tocqueville e Noëlle-Newman não são úteis só para a Igreja Católica. Junto com ela, as comunidades mais difamadas do universo são os americanos e os judeus. Os primeiros preferem antes pagar por crimes que não cometeram do que incorrer numa falta de educação contra seus mais perversos detratores. Os segundos sabem se defender um pouco melhor, mas se sentem inibidos quando os atacantes são oriundos das suas próprias fileiras - o que acontece com frequência alarmante.

Nenhuma entidade no mundo tem tantos inimigos internos quanto a Igreja Católica, os EUA e a nação judaica. É que viveram na "espiral do silêncio" por tanto tempo que já não sabem como sair dela - e até a fomentam por iniciativa própria, antecipando-se aos inimigos.

A única reação eficaz à espiral do silêncio é quebrá-la - e não se pode fazer isso sem quebrar, junto com ela, a imagem de respeitabilidade dos que a fabricaram. Mas como desmascarar uma falsa respeitabilidade respeitosamente? Como denunciar a malícia, a trapaça, a mentira, o crime, sem ultrapassar as fronteiras do mero "debate de idéias"?

Quem comete crimes não são ideias: são pessoas. Nada favorece mais o império do mal do que o medo de partir para o "ataque pessoal" quando este é absolutamente necessário. Aristóteles ensinava que não se pode debater com quem não reconhece - ou não segue - as regras da busca da verdade.

Os que querem manter um "diálogo elevado" com criminosos tornam-se maquiadores do crime. São esses os primeiros que, na impossibilidade de um debate honesto, e temendo cair no pecado do "ataque pessoal", se recolhem ao que imaginam ser um silêncio honrado, entregando o terreno ao inimigo. A técnica da "espiral do silêncio" consiste em induzi-los a fazer precisamente isso.

02 julho 2010

09 maio 2010

Depois de tanto trabalho para repaginar e reprogramar a Dilma, que bicho será que vai dar?



















01 abril 2010

Na seqüência, uma série de vídeos do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, promovido pelo Instituto Millenium no dia 1º de março de 2010.
Abertura: Roberto Civita / Min. Hélio Costa

1º Painel = Cenários, Tendências e Práticas na América Latina
ADRIÁN VENTURA (colunista do jornal La Nación - Argentina)
CARLOS VERA (âncora da TV Ecuavisa - Equador)
MARCEL GRANIER (proprietário da RCTV - Venezuela)
Mediador: Marcelo Rech

2º Painel = Ameaças à Democracia no Brasil
DEMÉTRIO MAGNOLI
DENIS ROSENFIELD
AMAURY DE SOUZA
Mediador: Tonico Ferreira

3º Painel = Restrições à Liberdade de Expressão
ARNALDO JABOR
CARLOS ALBERTO DI FRANCO
SIDNEI BASILE
Mediador: Luis Erlanger

4º Painel = Liberdade de Expressão e Estado Democrático de Direito
MARCELO MADUREIRA
ROBERTO ROMANO
Mediador: William Waack

Painel Especial de Encerramento: Democracia & Liberdade de Expressão
ANTÔNIO PALLOCCI
MIRO TEIXEIRA
OTÁVIO FRIAS FILHO
Mediador: Carlos Alberto Sardenberg


PALESTRA DE ABERTURA: ROBERTO CIVITA




MARCEL GRANIER 1


MARCEL GRANIER 2






MARCEL GRANIER 3




CARLOS VERA 1


CARLOS VERA 2


CARLOS VERA 3







CARLOS VERA 4


ADRIÁN VENTURA 1


ADRIÁN VENTURA 2






ADRIÁN VENTURA 3




DENIS ROSENFIELD 1


DENIS ROSENFIELD 2


DENIS ROSENFIELD 3


DENIS ROSENFIELD 4


DENIS ROSENFIELD 5


ARNALDO JABOR 1






ARNALDO JABOR 2




ARNALDO JABOR 3


DEMÉTRIO MAGNOLI 1






DEMÉTRIO MAGNOLI 2




DEMÉTRIO MAGNOLI 3






DEMÉTRIO MAGNOLI 4




DEMÉTRIO MAGNOLI 5


DEMÉTRIO MAGNOLI 6


AMAURY DE SOUZA 1






AMAURY DE SOUZA 2




AMAURY DE SOUZA 3


ANTONIO PALOCCI 1






ANTONIO PALOCCI 2




ANTONIO PALOCCI 3


MARCELO MADUREIRA 1




MARCELO MADUREIRA 2




ROBERTO ROMANO 1






ROBERTO ROMANO 2




CARLOS ALBERTO DI FRANCO 1


CARLOS ALBERTO DI FRANCO 2


CARLOS ALBERTO DI FRANCO 3


MIRO TEIXEIRA 1






MIRO TEIXEIRA 2




MIRO TEIXEIRA 3


SIDNEI BASILE 1




SIDNEI BASILE 2


SIDNEI BASILE 3


OTÁVIO FRIAS FILHO 1


OTÁVIO FRIAS FILHO 2


HÉLIO COSTA 1


HÉLIO COSTA 2