30 agosto 2006

BEM-VINDAS AS NOVAS USANÇAS


As deliciosas e, ao mesmo tempo, cáusticas, ferinas, mordazes crônicas de Machado de Assis datam da segunda metade do século 19. Se, de fato, uma das formas de se avaliar a importância de uma obra literária é sua capacidade de resistir aos efeitos do tempo, então a crônica que reproduzo abaixo é um dos melhores exemplos do quanto seu humor e sua ironia continuam mais atuais do que nunca.

Por aquela época, talvez até fosse adequado intitulá-la Empregado Público Aposentado, como fez Machado, mas, hoje, não mais. Hoje, este personagem é bem diferente daquele tão cruelmente retratado pelo “bruxo do Cosme Velho”, como o chamava Drummond. Não, hoje ele já não é mais, necessariamente, um retrógrado, como Machado o via. Mas, então, por que a considero atualíssima? Porque continua havendo muita gente, inclusive empregados públicos aposentados, que ainda podem se enxergar na crônica machadiana. Mas, como não concordo em restringir as qualidades reacionárias ao empregado público aposentado, um estigma hoje injusto, sempre que ele for citado substituirei por ELE. Confira e veja se a crônica é ou não atualíssima:
Os egípcios inventaram a múmia para conservarem o cadáver através dos séculos. Assim a matéria não desapareceria na morte (...) ELE não se aniquila de todo na aposentadoria; vai além, sob uma forma curiosa, antediluviana, indefinível (...) Espelho à rebours, só reflete o passado, e por ele chora como uma criança. É a elegia viva do que foi, salgueiro do carrancismo, carpideira dos velhos sistemas (...) Reforma, é uma palavra que não se diz diante d´ELE. Há lá nada mais revoltante do que reformar o que está feito? Abolir o método! Desmoronar a ordem! (...) Tudo quanto tende ao desequilíbrio das velhas usanças é um crime para esse viúvo da secretaria, arqueólogo dos costumes, que não compreende que haja nada além das raias de uma existência oficial. (...) Todos os progressos do país estão ainda debaixo da língua fulminante deste cometa social. Estradas de ferro! É uma loucura do modernismo! Pois não bastavam os meios clássicos de transporte que até aqui punham em comunicação localidades afastadas? Estradas de ferro? Desta sorte todas as instituições que respiram revolução na ordem estabelecida das coisas – podem contar com um contra d´ELE. Este meio mesmo de retratar à pena, como faço atualmente, revoltaria o espírito tradicional da grande múmia do passado. Uma inovação de mau gosto, dirá ELE (...) O leitor conhece decerto a individualidade de que lhe falo, é muito vulgar entre nós, e de qualidades tão especiais que a denunciam entre mil cabeças. Que lhe acha? Quanto a mim é inofensiva como um cordeiro. Deixam-no mirar-se no espelho dos velhos ursos, falar em política, discutir os governos; não faz mal”.

Basta assistir ao programa eleitoral gratuito para encontrar alguns desses personagens mumificados. Carpideiras dos velhos sistemas, arqueólogos dos costumes, têm horror a qualquer alteração nas velhas usanças, tão de acordo com os seus velhos métodos. Para combater o novo e obstruir o moderno, fantasiam as suas velharias com roupagem moralizadora, transfiguram as suas ortodoxias escondendo-as numa linguagem economicista, metamorfoseiam as suas idiossincrasias dando-lhes uma falsa moldura ética.
No fundo, ao fim e ao cabo, esses tristes personagens não passam de lombadas na estrada da história, de calmarias no oceano do tempo, de mata-burros no caminho dos verdadeiros cavaleiros.


Já nem me lembro se li ou se pensei, mas é certo: "Os governantes que se conformaram em manter as coisas como sempre foram... se foram".

23 agosto 2006

VONTADES POLÍTICAS


Seria engraçado, se trágico não fosse, assistir alguns candidatos dizerem, com a maior cara de pau, que, se eleitos, resolveriam tudo com um passe de mágica, pois, afinal, basta ter “vontade política”.
Ouvir esse tipo de bobagem, que os petistas inventaram e outros menos imaginativos copiam, faz-me lembrar como é importante conhecer a História para não ser enganado por ilusionistas e manipuladores.
No dia 27 de agosto de 1928, portanto, há exatos 78 anos, representantes de oito países assinaram em Paris um tratado internacional que condenava a guerra como forma de resolver os problemas entre os Estados. Muito bonito! Eis aí um bom exemplo da tal “vontade política”, e da sua absoluta indigência conceitual e alienação factual. Seus seguidores são adeptos daquela máxima hoje expropriada pelos petistas: “se os fatos não combinam com os nossos planos, revoguem-se os fatos”.
Em setembro de 1939, apenas onze anos depois daquele idílico encontro de nações, começava a Segunda Guerra Mundial, a maior catástrofe já provocada pelo homem. Setenta e duas nações se envolveram no conflito e o número de mortos superou cinqüenta milhões, além de outros vinte e oito milhões de mutilados.

Meros 17 anos depois daquele encontro, tão cheio de “vontades políticas”, num outro 27 de agosto, agora de 1945, o exército americano entrava no Japão, depois que Hiroshima e Nagasaki “convenceram” o imperador Hiroíto a anunciar a rendição do país.
Dizem os economistas que a Primeira Guerra Mundial teve um custo de 208 bilhões de dólares, enquanto a Segunda atingiu a impressionante cifra de 1 trilhão e 500 bilhões de dólares, quantia que, investida no combate à miséria, a teria varrido da face da terra.



Creio, porém, haver duas situações em que se pode dar ouvidos a quem invoque a malfadada “vontade política”. Pegue, por exemplo, a promessa de Juscelino de erguer Brasília e, assim, descentralizar o desenvolvimento do Brasil, tão concentrado no litoral. É um excelente exemplo de “vontade política” factível, concreta, realizável. Basta ver os resultados! Mutatis mutandis, não foi outro o desfecho do compromisso assumido pelo então candidato Luiz Henrique. Em menos de quatro anos, a descentralização já é uma grata realidade que vem mudando a cara do interior catarinense.
Mudanças estruturais têm muito mais chance de vingar do que promessas tópicas, vazias e eleitoreiras, que podem ser o CEU da Dona Marta, o Fome Zero do seu Lula, o CAIC do seu Collor, ou uma tal Escola-Mãe, que ninguém sabe o que é... Mentiras de uns, ilusões cosméticas de outros, a situação do povo continua sempre a mesma.
A outra situação diz respeito à ética, à seriedade, à honestidade no trato com a coisa pública. Eis aí um fator que, este sim, depende, fundamentalmente, da “vontade política” de quem aspira a um cargo eletivo.
Há aqueles que, como denunciou o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, almejam a “formação de uma quadrilha para lavagem de dinheiro, evasão ilegal de divisas, corrupção ativa e passiva e peculato” ou criar uma “organização criminosa para garantir a permanência do Partido no poder com a compra de suporte político de outros partidos e com o financiamento irregular de campanhas”. Isso é “vontade política” na mais pura acepção do termo, mas é uma “vontade política” voltada para o mal, para a perpetuação de um grupo no poder.
Mas há também aqueles que, por pequenos gestos, acabam nos dando a garantia de seu caráter. Veja os exemplos dados pelo jornalista Ricardo Setti (que foi editor-chefe do jornal O Estado de S. Paulo, diretor do Jornal do Brasil, redator-chefe da revista Istoé, editor da revista Veja e ganhador do Prêmio Esso de Reportagem de 1986): “o correto seria Lula licenciar-se da Presidência (...) FHC teve mais compostura, mas deveria ter acompanhado a atitude ética do governador Mário Covas, que no mesmo ano, candidato a novo período no governo de São Paulo, afastou-se durante quase quatro meses para fazer a campanha. Neste ano de 2006, o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique, ex-companheiro de Covas, deu um passo ainda mais radical – infelizmente ignorado pela grande mídia que tanto desanca os políticos, como se todos fossem da mesma laia: no dia 6 de julho passado, renunciou ao mandato e a 179 dias no comando de um Estado importante e rico, passando o posto ao vice para concorrer em condições de igualdade com os demais candidatos”.

Num outro dia 27 de agosto, só que há 2557 anos, nascia o filósofo chinês Confúcio, que, ensinou: "O homem superior medita antes de falar e depois age de acordo com suas palavras".


Aprendeu quem quis.

16 agosto 2006

O PARADOXO DO BRASILEIRO


Há 2500 anos, o filósofo chinês Confúcio já ensinava que "o homem de bem exige tudo de si próprio; o homem medíocre espera tudo dos outros".

Neste momento, em que começa a reta final das eleições, depois dos quatro anos mais infernais da história política brasileira, quando fomos expostos a todos os círculos do inferno, é fundamental que se tenha algum parâmetro a nos guiar, como Virgílio fez com Dante, pelo inferno e purgatório, e Beatriz, pelo céu.
Os mais pessimistas apelam para Fernando Pessoa para decretar que o Brasil, hoje, não passa de um “cadáver adiado que procria”. Outros, mais otimistas, oram com a mesma fé que o clérigo e escritor inglês Charles Caleb Colton: “A adversidade é um trampolim para a maturidade”. Há também os neocínicos, que não vêem nenhum problema, pois tudo isso que se está vendo hoje “é o que sempre se fez, sistematicamente, neste país”.
Durante muito tempo, as cabeças pensantes brasileiras estiveram separadas entre ortodoxos e heterodoxos. Hoje, estão todas unidas em torno do desafio à lógica que é autopsiar o paradoxo brasileiro.

Cada um de nós isoladamente tem o sentimento e a crença sincera de estar muito acima de tudo isso que aí está. O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado final de todos nós juntos é precisamente tudo isso que aí está. Este é o paradoxo do brasileiro. O brasileiro é sempre o outro, não eu”, decifra o economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca.



Apaixonado pelo Brasil, o psicanalista italiano Contardo Calligaris odeia uma das nossas marcas registradas: a malandragem, que, para ele, “é uma conduta moral de uma criança de 9 anos”. A aceitação e convivência generalizadas com essa “pequena” anomalia impedem a construção de uma coletividade regida por leis, baseada na institucionalidade.
O paradoxo brasileiro, bem ao estilo sartreano (“O inferno são os outros”), faz com que joguemos todas as culpas sobre o Congresso, esquecidos da lição do publicista argentino Barraquero, para quem “os homens não prosperam nem são livres quando têm boas leis, senão quando as praticam fielmente, as amam e as respeitam”.
O publicitário norte-americano Calderhead Jackson dizia que “não é a maioria que é silenciosa; o governo é que é surdo”. Por aqui, além de um Governo Federal surdo, temos, também, uma maioria não apenas silenciosa, mas indiferente, apática, anômica.

Roberto Campos, um dos gênios da raça, tão incompreendido em seu tempo (exatamente por estar à frente de seu tempo) já alertava sobre essa postura pusilânime ao ensinar que “nenhuma sociedade pode florescer, ou mesmo funcionar, se o seu povo não se sente responsável por ela".
A ser pessimista, otimista ou cínico, prefiro ser realisticamente esperançoso. A base para isso, mais um paradoxo, é a gravidade da situação a que chegamos.

Veja o que diz o psicólogo norte-americano Lawrence Kohlberg (esq.), respeitado pesquisador da moralidade: “As sociedades são passíveis de evoluir dos estágios inferiores de moralidade para os superiores como resultado da evolução moral dos indivíduos. Esse processo pode ser acelerado pela exposição dos indivíduos a dilemas morais que questionem as bases do raciocínio que sustenta suas convicções e a situações que permitam o exercício constante de assumir a perspectiva do outro”.
Momentos de crise agônica, como a vivida por São Paulo, ou de incerteza paroxística, como a gerada pela desmoralização das instituições, são propícios para saltos, ou de qualidade, ou para abismos. Eles podem suscitar tanto o surgimento de salvadores da pátria, populistas tresloucados aos moldes de Chaves, como induzir a um reordenamento coletivo, em que os atores busquem redefinir sua participação no contexto social, como se as instituições estivessem colocadas em xeque para se ver até que ponto estão dispostas a cumprir integralmente seus papéis. A explicitação de tensões, como diz Kohlberg, pode fazer com que a sociedade, tendo ingerido, como um avestruz, toda sorte de alimentos indigestos, resolva regurgitar aquilo que o estômago rejeita.


Finalizo, beirando um otimismo mais desejoso do que realista, com a sentença de um dos mais lúcidos jornalistas brasileiros, Fernando Pedreira, na edição de 23/03/91 do Estadão: “Embora padrões morais elevados possam conferir a um homem e a seus filhos pouca ou nenhuma vantagem sobre outros membros de sua tribo, ainda assim o avanço da moralidade e o aumento do número de homens moralmente bem-dotados certamente darão a uma tribo imensa vantagem sobre as outras”.

09 agosto 2006

VAYA CON DIOS!


Caso Fidel Castro estivesse lúcido, são ou vivo (sim, vivo, porque o regime é tão fechado que ninguém pode afirmar sequer que ele esteja vivo), hoje Cuba estaria recebendo uma legião de adoradores do ditador. Brasileiros em penca! Venezuelanos em cacho! Intelectuais franceses a rodo! Todos entoando loas às excelsas qualidades do regime comunista cubano e soprando as 80 velinhas do bolo presidencial.


Todos esquecidos de que há em Cuba, hoje, 316 presos políticos, mais de 40 condenados à pena de morte. De que para a Anistia Internacional, 81 são considerados prisioneiros de consciência. De que segundo a associação internacional “Repórteres sem Fronteira”, 27 são jornalistas, detidos desde 2003. De que “El Comandante”, ao longo de cinco décadas, foi responsável por, no mínimo, 15 mil assassinatos, ou, segundo cálculos mais realistas, 140 mil.


Aos mais realistas do que o rei, que podem ter comichão de rebater tal heresia, tenho arquivado um exemplar de Veja de 13/7/1977, onde, em longa entrevista, o ditador afirma, com a maior sem-cerimônia: “Deve haver uns 2.000 ou 3.000 presos políticos. Em certo momento houve em Cuba uns 15.000 presos políticos. Ou mais. Tivemos de prendê-los, e tivemos de submeter alguns a penas severas, longas. Isso é verdade, sim”. Disse mais o grande líder: “Quando triunfou nossa revolução, aqueles que haviam assassinado milhares de nossos compatriotas, e os que haviam torturado dezenas de milhares de cubanos, esses nós julgamos segundo as leis revolucionárias, em tribunais revolucionários. E os maiores criminosos, os responsáveis pelos casos mais graves de torturas e maus-tratos, foram condenados e fuzilados”.


Joseph Goebbels costumava dizer "quando ouço falar em cultura, saco logo o meu revólver". Teorizando sobre o multiculturalismo, o sociólogo e crítico cultural esloveno abre duas outras vertentes para essa questão. A do cínico produtor de cinema em Mépris, de Godard: "quando ouço falar em cultura, tiro logo o talão de cheques”, e a réplica iluminista: “quando ouço a palavra revólver, lanço mão da cultura”.


Portanto, quando se ouve a candidata Heloisa Helena falar que “o socialismo é a maior declaração de amor à humanidade”, deve-se, imediatamente, sacar da mochila um livrinho de história.


Uma boa sugestão é o Livro Negro do Comunismo, publicado na França, em 1997. Seus autores, por paradoxal que possa parecer, são marxistas. O coordenador da equipe é Stéphane Courtois, ex-diretor da revista Communisme, ex-maoísta, hoje anarquista.


Nele se pode aprender que, enquanto o nazismo gerou 25 milhões de mortos, em menos de 50 anos o comunismo foi responsável por 100 milhões de mortos! E isso apesar de os autores minimizarem as cifras. A Comissão sobre Repressão do governo russo, por exemplo, concluiu que os bolchevistas mataram pelo menos 43 milhões de pessoas entre 1917 e 1953, enquanto o livro contabiliza “apenas” 20 milhões. Na Coréia do Norte, a agência católica Zenit informa que o comunismo matou de fome 3,5 milhões, sete vezes mais do que os autores informam. Os números “modestos” do livro são os seguintes: URSS, 20 milhões de mortos; China, 65 milhões; Vietnã, 1 milhão; Coréia do Norte, 2 milhões; Camboja, 2 milhões; Leste-Europeu, 1 milhão; América Latina, 250 mil; África, 1,7 milhão; Afeganistão, 1,5 milhão.

Ou seja, bem ao contrário do que diz a candidata Heloisa, os regimes comunistas foram a maior declaração de guerra à humanidade.
Genocide Memorial - Choeung Ek - Camboja
 Um dos pré-requisitos básicos da cultura é a memória. Não foi por outra razão que o ditador genocida do Camboja, Pol Pot, descreveu assim o seu ideário: "A memória é nossa inimiga. A amnésia, nosso programa”.


Quando vemos nosso país sendo assaltado por PCCs, MSTs, mensaleiros, sanguessugas, quando vemos as pesquisas cantando vitória para o presidente que lidera e abençoa tudo isso, quando chega o momento de, nas urnas, darmos a nossa contribuição à história do nosso país, não podemos nos esquecer de que aqueles facínoras também defendiam uma utopia igualitária e libertária que tudo justificava, acreditando que exterminar milhões não importava, porque daí nasceria um mundo novo, um homem novo.


Vaya con Dios, camarada Fidel Alejandro Castro Ruz!


Se Ele aceitá-lo...

03 agosto 2006

A FORÇA DO CARÁTER


Quem assistiu ao debate realizado pela rádio CBN, entre seis dos oito pleiteantes ao Governo do Estado, percebeu, nitidamente, a enorme dificuldade dos adversários do candidato à reeleição, Luiz Henrique da Silveira, em tentar desqualificar a sua gestão.

Primeiro, porque a maioria preferiu não atacar a Descentralização, como prometia. Claramente, foram advertidos por suas assessorias de que isso seria um furo n´água, tendo em vista a excepcional aceitação que esse novo modo de governar vem merecendo da população catarinense. Um único debatedor arriscou-se a fazer críticas às Regionais, garantindo que, se eleito fosse, as desativaria. Os demais, meio sem jeito, admitiram tratar-se de uma boa idéia, sujeita apenas a adaptações cosméticas que seus gostos e preferências pessoais lhes sugeriam.

Segundo, porque não conseguiram destacar nenhum ponto crítico ou setor mais problemático em que pudessem se apoiar para tentar denegrir o atual governo. As poucas tentativas, além de tímidas, foram facilmente desmontadas pelas respostas do candidato à reeleição. Como que para comprovar a falta de temas relevantes que pudessem desgastar Luiz Henrique, houve quem apelasse para a “denúncia” rasteira de que teriam sido encontrados ratos num hospital da capital. Como se um Governador de Estado fosse um zelador, um faxineiro ou um guarda de quarteirão, encarregado de caçar ratos. Se procurassem melhor, certamente também encontrariam pernilongos ou muriçocas, quem sabe até um vaga-lume ou um louva-Deus...


Valha-me Deus!, quanto oportunismo! Qualquer criança sabe que em casos como esse o que cabe ao governante de 5 milhões de catarinenses é cobrar responsabilidades e punir quem tenha errado. O que foi feito, exemplarmente, pelo governador Pinho Moreira, ao contrário do que anda ocorrendo nesta República da impunidade.


O pouco tempo disponível para as respostas, limitado pelo rígido formato dos debates, dificulta sobremaneira quem tem o que mostrar, dizer, propor ou elucidar. Em função disso, Luiz Henrique não pôde enumerar, muito menos explicar, as vantagens e virtudes da 
Descentralização nem os benefícios que vêm espalhando por toda Santa Catarina.


Não lhe foi possível, por exemplo, contraditar o único e solitário crítico dessa nova forma de administrar, com argumentos e exemplos que demandariam tempo bem mais elástico.


Antigamente, quando tudo era centralizado em Florianópolis, inclusive as licitações e as suas usuais ganhadoras, só a implantação do canteiro de obras no interior do estado acrescia entre 10 a 20% o custo das mesmas. Não sei se alguém do governo já fez essas contas, mas, se fizesse, certamente chegaria a uma economia de várias centenas de milhões de reais.


Outra vantagem, a curto, médio e longo prazos, é a fiscalização in loco, diária e efetiva das obras pelos gerentes e secretários regionais, durante o seu andamento e não meses após o seu término, como ocorria outrora. Com isso, evita-se absurdos como os que freqüentemente se via nas obras estaduais: uma escola, por exemplo, já totalmente construída, mas com materiais bem inferiores ao exigido pelo edital de licitação. No curto prazo, perdiam as crianças, que tinham de estudar em escolas inadequadas e inseguras. No médio e longo prazos, perdia o estado, primeiro, porque lesado em seus cofres, segundo, porque privado de catarinenses bem formados e capacitados.


O ganho sistêmico é outra virtude e outra fonte de economia desse sistema de governo. Como os Conselhos de Desenvolvimento reúnem prefeitos e presidentes de Câmaras de todos os municípios da regional, além de membros destacados da sociedade civil organizada, evitam-se as redundâncias e duplicidades, por um lado, e estimula-se a complementaridade intermunicipal, por outro. Fica muito mais simples, quase automática, a repartição dos benefícios e a definição estratégica das melhores localizações dos investimentos.


Mais do que tudo isso, porém, arrisco-me a dizer que outro fator atuou como poderoso inibidor da libido dos contendores: a força moral do único detentor de mandato executivo em todo o Brasil que teve a coragem, a coerência e o senso ético de renunciar para enfrentar seus adversários em igualdade de condições.


A força de um caráter tem efeito fulminante.

01 agosto 2006

OS LÍDERES CARISMÁTICOS
“Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa”. (Schopenhauer)
Era uma vez um sujeito humilde, que resolveu entrar para o Partido dos Trabalhadores, logo no começo de sua existência. Foi praticamente um dos fundadores do partido. Tamanha era sua influência sobre os demais membros, que logo se tornou o maior líder dentro do partido. Praticamente redigiu o programa que seria defendido pelo partido. Este programa era uma mistura de socialismo com nacionalismo.
O programa defendia a “obrigação do governo de prover aos cidadãos oportunidades adequadas de emprego e vida”. Alertava que “as atividades dos indivíduos não podem se chocar com os interesses da comunidade, devendo ficar limitadas e confinadas ao objetivo do bem geral”. Demandava o “fim do poder dos interesses financeiros”, assim como a “divisão dos lucros pelas grandes empresas”. Também demandava “uma grande expansão dos cuidados aos idosos” e alegava que “o governo deve oferecer uma educação pública muito mais abrangente e subsidiar a educação das crianças com pais pobres”. Defendia que “o governo deve assumir a melhoria da saúde pública protegendo as mães e filhos e proibindo o trabalho infantil”. Pregava uma “reforma agrária para que os pobres tivessem terra para plantar”. Combatia o “espírito materialista” e afirmava ser possível uma recuperação do povo “somente através da colocação do bem comum à frente do bem individual”. O meio defendido para tanto era o centralismo do poder.
O líder era muito carismático e sua retórica populista conquistava milhões de seguidores. Ele contava com um brilhante “marqueteiro”, que muito ajudava na roupagem do “messias restaurador”, enfeitiçando as massas. Foi projetada a imagem de um homem simples e modesto, de personalidade mágica e hipnotizadora, um incansável batalhador pelo bem-estar do seu povo. Seus devaneios megalomaníacos eram constantes. Sua propaganda política incluía constante apelo às emoções, repetindo idéias e conceitos de forma sistemática, usando frases estereotipadas e evitando ao máximo a objetividade. O Estado seria a locomotiva do crescimento econômico, da criação de empregos e do resgate do orgulho nacional. A liberdade individual era algo totalmente sem importância neste contexto.
Seu Partido dos Trabalhadores finalmente chegou ao poder, através da mesma democracia que era vista com desdém por seus membros. Uma “farsa” para tomar o poder. O real objetivo tinha sido conquistado. As táticas de lavagem cerebral tinham surtido efeito. Uma vez no governo, o líder foi concentrando mais e mais poder para o Estado, controlando a mídia, as empresas, tudo. Claro que o resultado foi catastrófico, como não poderia deixar de ser. O povo pagou uma elevada conta pelo sonho do “messias” que iria salvar a pátria.
O líder carismático descrito acima não é quem você está pensando. Ele é, na verdade, Adolf Hitler, líder do Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista da Alemanha, mais conhecido apenas como “nazistas”.
Schopenhauer estava certo no alerta da epígrafe. O diabo costuma se vestir de nobre altruísta. Os chifres aparecem somente depois que a vítima vendeu-lhe sua alma.
Aí já é tarde demais…

26 julho 2006

QUE SAIS-JE?

Quando, em pleno século XXI, assistimos, mais uma vez, à barbárie tomando conta do Oriente Médio, teatro macabro que mais se parece com um continuum de desvario, desinteligência, arrogância, ódio, rancor, somos obrigados a valorizar ainda mais o gênio do ensaísta francês Michel de Montaigne.
Nascido em 1533, publicou uma única, mas imorredoura, obra – Ensaios - quando tinha meros 36 anos. Nela, ele antecipa o que os nossos antropólogos, quatro séculos depois, viriam a chamar de “relativismo cultural”, uma das mais importantes ferramentas na luta contra os preconceitos e as intolerâncias.
Sua capacidade de ousar, inovar e pensar à frente da sua época (avant la lettre, diriam os franceses), é ainda mais notável quando se verifica que a publicação da obra ocorreu justamente no período de maior intolerância em seu país, culminando, três anos depois, no trágico Massacre da Noite de São Bartolomeu, episódio sangrento em que os reis franceses (católicos) reprimiram os protestantes (chamados de huguenotes).
As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, de 1572, e duraram até outubro, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 70.000 e 100.000 protestantes franceses.
Relatos dão conta de que, por um bom tempo, ninguém comia peixe, pois durante meses surgiam cadáveres boiando nos rios. É sabido, também, que o Papa Gregório XIII ficou muito feliz com a notícia do massacre, mandando que os sinos de Roma ressoassem para um dia de graças. Além disso, mandou cunhar uma medalha comemorativa em honra da ocasião e encomendou ao pintor Giorgio Vasari um mural celebrando o massacre.
Pois é nesse cenário de beligerância, cizânia, discórdia e hostilidade que o gênio de Montaigne consegue elaborar uma louvação à tolerância, à generosidade, à transigência, à concórdia.
Num dos ensaios, o 31° do primeiro livro, intitulado Deuses Canibais, o ensaísta revela as impressões colhidas em conversas com um seu serviçal, que vivera muito tempo naquela outra parte do mundo que Villegaignon chamou de França Antártica. “Não existe nada de bárbaro e de selvagem naquele povo (...) cada um chama de barbárie aquilo que não está nos seus costumes; como realmente parece que nós não temos outra pedra de toque da verdade e da razão senão o exemplo e a idéia das opiniões e das usanças dos países em que estamos. Nesse lugar encontram-se sempre a religião perfeita, o regime perfeito, o uso perfeito e refinado de cada coisa”.
Depois de lembrar das crueldades e desumanidades praticadas pela Santa Inquisição, Montaigne conclui: “Nós bem que podemos chamá-los de bárbaros, considerando as regras da razão, mas não com respeito a nós mesmos, que os superamos em toda espécie de barbárie”.
Com a agudização dos conflitos no Líbano e Israel e a aproximação dos embates eleitorais por aqui, vale lembrar a divisa que o sábio, e por isso humilde, Montaigne mandou estampar no seu brasão: "Que sei eu?".

19 julho 2006

INFÂNCIA PERPÉTUA OU CIDADANIA?
Nas páginas amarelas da revista Veja, edição de 28 de junho, o entrevistado foi o conceituado historiador inglês Paul Johnson.

Segundo ele, “só a criatividade pode garantir o progresso. O problema é que o homem tem uma propensão negativa a encontrar razões científicas ou morais para frear a criatividade, seja na economia, na política ou nas artes”.

Para esclarecer a dúvida sobre a possibilidade de a destrutividade anular a criatividade, ele afirma que isso acontece, e muito, e dá como exemplo “o marxismo, cuja contribuição para a humanidade foi totalmente negativa”, mas crê que, com liberdade de informação e de expressão, a tendência é que a criatividade ganhe a guerra. “São duas forças antagônicas, mas necessárias – são a tese e a antítese que vão gerar a síntese. Mas é vital que a criatividade – a tese – supere seu adversário e vença, pois só ela pode garantir o progresso”. Perguntado sobre a razão que leva o homem a ser negativista, disse apenas: “O medo, esse é o maior estimulador do atraso”.
Com a proximidade do horário eleitoral, certamente vamos ser bombardeados com milhares de informações, contra-informações, desinformações. Para conseguir sobreviver com alguma lucidez desse tiroteio, habilmente manipulado por marqueteiros de ambos os lados, é fundamental termos uma tábua de valores para nos guiar nesse bangue-bangue labiríntico.
O psicólogo norte-americano Aaron Beck (esq.) formulou o conceito de “pensamento automático”. De acordo com ele, como o cérebro humano não é capaz de analisar detalhadamente cada situação, cria alguns esquemas prévios e acaba se viciando neles. Às vezes, esse vício é tão forte que o cérebro deixa de levar em consideração os dados reais, criando o que ele definiu como “distorções cognitivas”. É contra isso que devemos nos precaver.


Nem tudo é branco nem tudo é negro. Especialmente nessa área – a política -, quase tudo é sempre cinza.

Por exemplo: a reeleição é boa ou má? Depende! Reeleger quem traiu suas promessas é um absurdo, mas reconduzir ao cargo quem as cumpriu e demonstra ter uma nova e boa plataforma, de continuidade ou de aperfeiçoamento, é prova de inteligência e maturidade cívica.


Outro exemplo: todos os políticos prometem as mesmas coisas, não dá para confiar em nenhum. Calma lá! Enquanto alguns passam a vida fazendo bravatas e prometendo o impossível, e quando chegam lá negam tudo o que pregaram, outros, quando na oposição, preferem ser econômicos nas críticas preferindo defender propostas e alternativas.

É óbvio que o preparo intelectual, a experiência e a honestidade são importantes, talvez até mesmo fundamentais, mas isso são pré-requisitos, condições sine qua non para se levar alguém a sério. Mas, então, como escolher o melhor?


Um dos maiores pensadores das sociedades, o francês Alexis de Tocqueville (esq.), ao comparar a sua conturbada França com a América, pujante e vigorosa, que tão bem estudou, lamenta o destino de seu país: “Acima dessa multidão vejo alçar-se um imenso poder tutelar, que sozinho ocupa-se em assegurar aos súditos o bem-estar e em zelar pela sua sorte. Pareceria com a autoridade paterna se tivesse como objetivo a preparação dos homens à virilidade. Mas, pelo contrário, busca somente mantê-los numa infância perpétua”.

Aí está um excelente critério para decidir entre candidatos que, “aparentemente”, prometem as mesmas coisas.

Qual deles tem medo do novo e, por isso, prefere não arriscar nada, mas apenas manter o passado congelado? Será mesmo que os juros não podem baixar? Nada revolucionário, apenas cortá-los pela metade, e, ainda assim, ficar acima do segundo maior juro do mundo. Será que alguém de boa fé, sem interesses meramente eleitoreiros, pode defender a volta da velha e desmoralizada centralização administrativa, que tantos males já nos causou?

Qual deles me considera tutelável, incapaz de participar e decidir como um cidadão dotado de criatividade e virilidade suficientes para contribuir com o desenvolvimento do meu País, do meu estado? Será que as bolsa-isso, bolsa-aquilo representam um projeto de Nação, ou será que podemos almejar algo além desse horizonte africano para o nosso País? Será que alguém honesto intelectualmente pode defender o fim da participação da sociedade nos conselhos que definem onde e como aplicar os recursos das suas regionais?

"Existem duas maneiras de se passar pela vida sem problemas: acreditar em tudo ou duvidar de tudo; de ambos os modos se evita pensar", diz o lingüista polonês Alfred Korzybski.

Não acredite em tudo nem duvide de tudo. Pense bem antes de votar.

17 julho 2006

HADLEYBURG E O PT, TUDO A VER
O escritor norte-americano Mark Twain, autor das conhecidíssimas aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, tem uma faceta pouco conhecida. Ele foi um dos mais ardorosos e contundentes críticos do imperialismo do seu próprio país, tendo publicado dezenas de panfletos que atacavam as ações ianques nas Filipinas, Panamá, México, Cuba, Nicarágua, República Dominicana. “Eu me recuso a aceitar que a águia crave suas garras em outras terras”, sentenciava. Acusado de traição, retrucava: “Eu gostaria de ensinar o patriotismo nas escolas, e o ensinaria assim: jogaria fora a velha máxima ´Minha Pátria, certa ou errada, minha Pátria´, e em seu lugar diria ´Minha Pátria, quando certa´”.
Twain foi, também, um analista feroz do hipócrita american way of life. Escrita em 1899, “O Homem que Corrompeu Hadleyburg” é considerada uma de suas mais brilhantes histórias. Nela ele aborda o processo de derrocada moral de uma pequena cidade, até então considerada um reduto de excelência de conduta. “Hadleyburg era a cidade mais honesta e honrada de toda a região. Já mantinha esta reputação imaculada havia três gerações (...) As cidades vizinhas tinham inveja dessa honrada supremacia (...) mas, mesmo assim, eram obrigadas a reconhecer que era uma cidade realmente incorruptível”. Assim começa a história da aparentemente pura e imaculada Hadleyburg, que, graças à engenhosidade da trama urdida por Twain, não resiste a parcas 50 páginas antes de revelar-se a mais mentirosa, corrupta e desprezível das cidades. Hadleyburg, no fundo, era uma farsa grotesca.

Assim como já vimos nos filmes "Beleza Americana” e “Dogville”, sob a carapaça virtuosa escondiam-se as mais abjetas pulsões anímicas, sem falar das visíveis - a arrogância a toda prova, a auto-suficiência insolente, a pedanteria desaforada. Quem destampou a caixa de Pandora daquele pequeno burgo foi um estrangeiro que, de passagem por lá, foi ofendido e humilhado por um dos seus ilustres membros. Rancoroso, durante um ano ele arquiteta sua vingança: corromper Hadleyburg!!! Depois de espalhar suas ardilosas armadilhas, as tentações pelo vil metal ganham corpo celeremente no povoado. Enquanto são facilmente derrubadas as máscaras, armaduras e carapuças dos 19 principais cidadãos, das 19 principais famílias, eles continuam recitando, maquinalmente, o mantra que ainda impregna suas mentes: “Não nos deixeis cair em tentação”. Mas, ao fim e ao cabo, vence a natureza humana, impondo-se, implacavelmente, sobre aquela frágil e débil pureza nunca antes testada. Todos se revelam torpes, vis, malignos, ignóbeis, desprezíveis, indignos, imorais, desonestos, aéticos.

Ao reler essa deliciosa história, não pude resistir à imediata correlação com o PT e sua história – vestais imaculadas transfiguradas em lambuzados mensaleiros, santarrões virginais metamorfoseados em quebradores de sigilo, torquemadas e savonarolas convertidos à liturgia profana de Jeany Mary Corner, pregadores flagrados pecadores, presos políticos reduzidos a políticos presos (quem dera!).
Quando Twain fala dos 19 íntegros e impolutos, a reação quase automática é começar a recapitular a débâcle petista para checar se há também semelhança numérica entre as histórias: Benedita, José Dirceu, Waldomiro Diniz, Palocci, Juscelino Dourado, Rogério Buratti, Gushiken, Genoíno, Delúbio, Silvio Pereira, Marcelo Sereno, Henrique Pizzolatto, Jorge Mattoso, Okamoto, João Paulo Cunha, José Mentor, Josias Gomes, Paulo Rocha, Duda Mendonça - dezenove! BINGO! -, mas poderia ser bem mais, se incluíssemos o homem-cueca, os bispos aliados et caterva...
Sucumbindo ao humor corrosivo de Twain, diria que essa súcia parece pautar-se no lema do desabusado Tim Maia: "Não fumo, não bebo, não cheiro; só minto um pouco".
A farsa do PT pode ser bem entendida a partir do que disse o poeta norte-americano Stephen Vincent Benét: "Se a idéia é boa ela sobreviverá à derrota. Se ela for mesmo boa, pode sobreviver até à vitória". Como se sabe, o PT sobreviveu a várias derrotas, mas foi incapaz de resistir à vitória.Diante desse cenário devastador, desintegrador de valores e desarticulador das instituições, talvez só reste apelar para a farmacopéia moral disponível nas estantes dos tempos: Demócrates: “Tudo está perdido quando os maus servem de exemplo e os bons de deboche”. Jean-Paul de Gondi, cardeal de Retz: "Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”. Nathaniel Lee: "Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando". Disraeli: "O momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas!!!".
Mas, talvez, a melhor solução seja aquela sugerida (em tom de blague) pelo publicitário norte-americano Bill Bernbach:
Tenho uma grande idéia: vamos dizer a verdade!”.

13 julho 2006

VENALIDADE NA OPOSIÇÃO

Existem dois Vieirões: o que era governo e o que é oposição.
Quando ele era governo, deixou restos a pagar de R$ 344 milhões. Agora, que está na oposição, virou uma espécie de Parreira, ensinando os outros como esticar o meião.
Quando ele era governo, usou o servidor como massa de manobra, deixando-os dois anos e sete meses sem o salário atrasado pela gestão anterior. Agora, que está na oposição, virou uma espécie de sindicalista radical chic.
Quando ele era governo, entregou a secretaria da Saúde com uma dívida de curto prazo de 58 milhões de reais. Agora, que está na oposição, aderiu gostosamente à turma da bravata.
Quando ele era governo, deixou a Celesc acumular prejuízo de R$ 290 milhões de reais. Agora, que está na oposição, acha que tudo é uma questão de ´vontade política´, o governo só não faz o que não quer fazer, pois é cruel, insensível, ´do mal´.

Quando ele era governo, deixou a Casan sangrar até quase quebrar, não honrando, inclusive, uma prestação vencida com o Banco Mundial, de R$ 13 milhões de reais. Agora, que está na oposição, sai por aí, como um pseudo Catão, brandindo: “Delenda Luiz”.
Quando ele era governo, deixou de honrar precatórios no valor de R$ 95 milhões de reais. Agora, que está na oposição, vive nos jornais e nas tribunas, tal qual um Chapolim decrépito, recitando: "Não contavam com minha astúcia".
Quando ele era governo, deixou a dívida pública fundada explodir, em apenas quatro anos, de R$ 3 bilhões de reais para R$ 8 bilhões de reais, sangrando nosso caixa em R$ 50 milhões de reais todo mês. Agora, que está na oposição, faz o que pode, e o que não pode, para dificultar a vida dos que o sucederam.

Quando ele era governo, teceu uma poderosa rede de relacionamentos, o que lhe garantiu, junto com uma desabrida invasão em searas alheias, a folgada eleição que o levou à Assembléia Legislativa, o que me traz à lembrança a frase do escritor francês La Rochefoucauld: "O renome de grandes homens deve ser sempre medido pelos meios que utilizaram para consegui-lo”. Agora, que está na oposição, transformou-se em ´cavalo´ do Inquisidor-Geral Torquemada, acendendo suas fogueiras da intolerância.
Quando ele era governo, achava que aquele Terceiro Reich duraria mil anos. Agora, que está na oposição, faz-nos recordar de outro escritor francês, Henry Rabusson, que dizia: “Os únicos defeitos verdadeiramente grandes são aqueles de que nos orgulhamos como qualidades”.

Quando ele era governo, rezava pela cartilha de Diderot: “Ignoro o que sejam princípios, a não ser que se tratem de regras que se prescrevem aos outros para nosso proveito”. Agora, que está na oposição, dá razão ao poeta inglês Robert Browning: "O demônio é mais diabólico quando parece respeitável”.
Quando ele era governo, achava que uma boa campanha eleitoral bastaria para engabelar o cidadão.
Enganou-se.


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ORIGEM DA CRÍTICA

Realidade ou ilusão
Existem dois governos em Santa Catarina: o da vida real e o da propaganda. No governo da vida real, a Polícia Militar raciona gasolina, diesel e álcool, e a Polícia Civil, também. No mundo real, nem o Corpo de Bombeiros passa incólume: "Quando temos um problema em algum caminhão (do 1º Batalhão), consultamos as unidades mais próximas para saber se podemos baixar o nosso. Se uma outra unidade estiver sem o veículo, não podemos consertar o nosso", desabafou um sargento.
Um soldado do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), de Florianópolis, declarou ao jornal que são realizadas "algumas rondas pelo continente onde o batalhão está localizado e fica por isso mesmo". Não tem gasolina.
Em Palhoça, os policiais P2 estão sem automóveis há dois meses. E os policiais designados para a segurança da Festa do Divino no município foram caminhando do quartel ao local da festa, percorrendo cinco quilômetros.
A sede da Polícia Ambiental, recém-construída à beira-mar, ao lado da cabeceira da ponte Pedro Ivo Campos, está com graves rachaduras e terá de ser abandonada. O governo real governa muito mal.
Já o governo da propaganda, ah, esse é bom. O contraste é tão gritante que alguém ainda vai exigir gravemente: "Quero o governo da propaganda".
De fato, inflada por dezenas de milhões de reais, a publicidade tenta incutir no imaginário dos catarinenses um governo maravilhoso, como o bordão do horário eleitoral gratuito do PMDB: "Genteee, a educação em Santa Catarina é fantásticaaa!"
Mas, na vida real, pais de alunos protestam contra a defasagem do ensino e reivindicam mais qualidade na educação. Uma mãe de aluno do Instituto Estadual da Educação (IEE), o maior colégio público do Estado, lamentou: "As crianças estão levando os livros para passear, porque o conteúdo simplesmente não avança" (DC, 21/6/2006).
Essa mãe exibiu o caderno de matemática do filho, para mostrar que na 5ª série ainda aprendia a somar, dividir, diminuir e multiplicar.
A publicidade consome boa parte dos recursos públicos. Recursos que faltam para a gasolina da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros, da Polícia Civil, mas faltam também para a saúde, educação, para melhorar o salário dos professores, e por aí vai.
A Secretaria da Agricultura não tem recursos para o programa de troca-troca de sementes e calcário e jamais teve para continuar o programa de reflorestamento com adiantamento de renda. A Fazenda não tem como honrar mais de 1.800 convênios com municípios e entidades da sociedade civil. E a Secretaria da Educação, por sua vez, não tem honrado o repasse das bolsas para estudantes carentes.
Esse governo acha que uma boa campanha publicitária agora, no período eleitoral, bastará para engabelar o cidadão. Está enganado?
Antônio Carlos Vieira, deputado estadual

12 julho 2006

MAUS EXEMPLOS ARRASTAM
O que será que está acontecendo no âmbito da ética, da moral, dos valores e dos costumes, não só no Brasil, que hoje convive com uma das mais graves e abrangentes crises institucionais de sua história, mas no mundo todo, como se, de repente, séculos de cultivo do espírito e aprendizado democrático merecessem um desprezo e um menoscabo generalizados?
O filósofo britânico Bertrand Russell (esq.) dizia que “a humanidade tem uma moral dupla: uma que prega, mas não pratica, outra que pratica, mas não prega”.
E não foi outra coisa que fez a Fifa. Depois de colocar criancinhas desfilando com a bandeira do fairplay e exigir que alguns craques lessem frases contra o racismo, deu o título de melhor jogador da Copa para o chifrudo Zidane, uma afronta, um escárnio, um péssimo exemplo para bilhões de pessoas em todo o mundo.
Houve quem dissesse que talvez a votação já estivesse definida antes daquele acesso de fúria bovina, e que não daria para fazer nova votação. Bobagem! Seria ainda mais educativo dizer que, apesar de ele ter sido o mais votado, seu título fora cassado e entregue ao segundo colocado.
Afinal, como bem disse o ator alemão Klaus Kinski (esq.), “um homem deve ser julgado, sobretudo por seus vícios. As virtudes se pode fingir; os vícios são sempre genuínos".
Aqui no Brasil, minha estranheza fica por conta do comportamento da nossa grande imprensa. Ela adora reclamar, apontar erros, cobrar atitudes e posturas éticas, mas se esquece da prédica do Padre Antônio Vieira: As palavras convencem, o exemplo arrasta”, e da advertência de Montesquieu (abaixo.): "A força do princípio arrasta tudo”.

A sua permanente - e justa - crítica às mazelas da nossa classe política, torna incompreensível o completo desprezo demonstrado pela grande imprensa nacional a um dos raros fatos edificantes da nossa recente agenda política nacional.
Se, de fato, o exemplo arrasta, por que razão a imprensa brasileira não deu a devida divulgação ao gesto do Governador catarinense renunciando aos derradeiros seis meses de seu mandato, para ficar em igualdade de condições com seus adversários? Não precisaria desmanchar-se em elogios, sonho dos assessores de imprensa, mas ao menos registrar o fato, friamente que fosse, deixando ao leitor o exercício intelectual de fazer a comparação com os demais executivos pleiteantes à reeleição.
Como Lula, por exemplo, que, na última terça-feira, cinicamente reclamou que não poderia fazer campanha no horário comercial durante a semana, como seus adversários. Ora, bastaria que renunciasse, abrindo mão do salário, do avião e de todo o aparato que lhe dá sustentação. Mas ele prefere dar o mau exemplo, o da esperteza, o da malandragem, o da Lei de Gerson.
Ao omitir-se diante do gesto do Governador, a grande imprensa nacional dá razão àqueles que a criticam como serva das más notícias, ave de mau agouro, que, quando descobre, despreza a boa notícia, privilegiando, sempre e obsessivamente, o ruim, o errado, o nefasto, tornando-se, assim, co-autora do mal-estar que impregna nossas vidas, e abdicando de sua missão de bem informar e, principalmente, formar.
O Governador Luiz Henrique cortou na própria carne, deu o exemplo, que, por emulação, poderia gerar uma saudável demanda por gestos semelhantes, além de servir, também, para minimizar a perigosa unanimidade condenatória em relação à classe política que grassa, não sem razão, na sociedade. Bem divulgada, poderia servir, também, para relativizar algumas biografias que se pretendem lustrosas, impolutas e virtuosas, ressaltando a questão levantada pelo escritor francês La Rochefoucauld (esq.): "o renome de grandes homens deve ser sempre medido pelos meios que utilizaram para consegui-lo”.
Mas para que isso ocorresse seria necessário que seu gesto tivesse sido minimamente divulgado, o que, infelizmente, não ocorreu.



Pensar é fácil; agir é difícil. Agir de acordo com as próprias idéias é o que há de mais difícil no mundo”, sentenciava o poeta e romancista alemão Goethe (esq.).
Será que algo tão raro e tão difícil não é notícia?
Lamentavelmente, parece que aqui – e alhures - só os maus exemplos arrastam...

11 julho 2006

SALVE, REINALDO!

No momento em que o combativo jornalista Reinaldo Azevedo é atingido pelos tentáculos da malta que infesta a Nação, para dar-lhe meu apoio e mostrar-lhe como continua sendo vital a sua luta, selecionei trechos de dois dos maiores discursos já proferidos na Câmara dos Deputados, num tempo em que lá despontavam luminares da cultura nacional. Com ligeiras adaptações [entre colchetes], ambos os pronunciamentos poderiam ser feitos hoje.



Deputado Afonso Arinos à esquerda de Jânio
AFONSO ARINOS
O discurso abaixo foi um dos mais duros e veementes já proferidos no Parlamento brasileiro. Nele, o líder da oposição fala a Getúlio Vargas, “como presidente e como homem”, para pedir-lhe que renuncie à Presidência da República. Era o dia 9 de agosto de 1954. Quatro dias antes, o jornalista Carlos Lacerda, inimigo de Vargas, fora ferido em um atentado na rua Toneleros, em Copacabana, no Rio de Janeiro, no qual morreu o major da Aeronáutica Rubem Vaz. As investigações, conduzidas por oficiais da FAB, logo revelaram que por detrás do crime estavam elementos da guarda pessoal do presidente. É nesse clima que Arinos sobe à tribuna da Câmara e, de improviso, profere o discurso demolidor. As semanas seguintes seriam dramáticas. Pressionado pelas Forças Armadas a renunciar, Getúlio matou-se com um tiro no peito na manhã de 24 de agosto.



Há uma tradição legendária que declara que, no momento em que a maior justiça se encontrou com a maior injustiça e no dia em que o erro supremo se defrontou com a suprema verdade, nesse dia o juiz, o interessado na justiça, o representante de poder estatal, que era Pôncio Pilatos, em face da perturbadora fúria, em face do transviamento das multidões arrebatadas, esquecendo-se dos deveres morais que incumbiam a sua pessoa e dos misteres políticos que incumbiam a seu cargo, respondeu, a uma advertência, com estas palavras melancólicas: "Mas, o que é a verdade?".
A resposta a esta pergunta tem sido inutilmente procurada pelos pensadores e pelos filósofos. O que é a verdade? Para cada um ela se apresenta para cada além, para cada esperança, para cada paixão, para cada interesse. Para cada além, para cada esperança a verdade se reveste de roupagens enganosas. Ninguém jamais formulou esta pergunta em relação à negação da verdade, ninguém perguntou jamais: "O que é a mentira?".
Ao Sr. Presidente respondo que, se não é possível saber o que é a verdade, é perfeitamente possível saber-se o que não é a mentira.
Ele nos acusa de estarmos proferindo mentiras contra seu Governo. Ele investe contra nós, declarando que da voz do povo sai um clamor de mentiras. E eu pergunto: será mentira [a denúncia do Procurador-Geral da República, indiciando 40 envolvidos no escândalo do Mensalão, classificado de “organização criminosa”, cujo núcleo coordenava o esquema, a partir do Palácio do Planalto]? Serão mentiras os corpos dos assassinados [em Santo André]? Será mentira [a quebra do sigilo do caseiro Francenildo]? Será mentira [a montagem de uma quadrilha para perpetuar-se no poder]? Será mentira [que Paulo Okamotto – o doador universal - seja o provedor oficial da família Lula da Silva]? Serão mentira [os dólares na cueca]? Serão mentira [as alegres festinhas de Jeany Mary Corner]?
Será mentira [o Land Rover do Silvinho]? Será mentira [que José Genoíno ultrapassou, de longe, o limite da irresponsabilidade]? Será mentira [o exílio de familiares de Celso Daniel, por sucessivas ameaças de morte]? Será mentira a pedra que rola pelo despenhadeiro do descrédito? Será mentira o desprestígio das autoridades, que vão de cambulhada, com o fracasso da administração? Será mentira que os rios do descrédito e do opróbrio, será mentira que os rios e ribeiros que descem as colinas de nossa vida pública se encontrem, convergem e vão de roldão para a desagregação e para a desmoralização deste governo falido? Será mentira que o País tenha assistido, de algum tempo a esta parte aos mais graves abalos na sua vida e em sua honra? Será mentira [que o marqueteiro do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, desviou recursos para o PT]? Será mentira [que o Banco Popular, do Ivan Guimarães, gastou mais em publicidade do que em empréstimos populares]? Será mentira o espetáculo vergonhoso da submissão de nossa política internacional aos ditames e caprichos de um ditador platino?
Serão acaso mentiras tantas pequenas misérias e pequenas infâmias? Serão mentirosas, ao lado da corrupção nacional, [a conta Dusseldorf no exterior e o reconhecimento de Duda Mendonça do Caixa 2 na campanha de Lula]? Será mentira tudo isso? Estaremos nós vivendo num meio de realidades ou de sonhos? Ou será ele o grande mentiroso, ou será ele o grande enganado ou será ele o pai supremo de fantasmagoria e da falsidade?
Nós não mentimos, Sr. Presidente. O que nós fazemos é conter a verdade, é reprimi-la dentro dos limites do nosso bom senso e do nosso patriotismo. É não permitir, é aconselhar, é insistir para que essa verdade não exploda na desordem.
A sucessão dos acontecimentos que têm golpeado a sensibilidade nacional atingiu, de fato, a limite insuperável; chegou, efetivamente, às fronteiras e aos lindes do inimaginável.
Se eu tivesse a leviandade do Senhor Presidente da República, ao nos acusar infundadamente de mentirosos; se eu quisesse retrucar com essa leviandade incompatível com a magnitude e com a importância do seu cargo, eu teria muito mais razão do que Sua Excelência, que nos chamou de mentirosos, para responder que, dos fatos chegados ao meu conhecimento, se poderia perfeitamente concluir que as investigações não pararam mais no Palácio, que as investigações transpuseram as portas do mesmo Palácio, que as investigações vão além das salas públicas do Palácio, alcançaram os próprios aposentos da intimidade presidencial.

Eu estou, sob qualquer risco, enfrentando qualquer ameaça, olhando de frente qualquer tentativa de intimidação, qualquer apodo, qualquer injúria, qualquer crime, cumprindo o meu dever de brasileiro, dizendo ao povo do Brasil que existe no Governo deste País uma malta de criminosos e que os negócios da nossa República estão sendo conduzidos ou foram conduzidos até agora sob a guarda de egressos das penitenciárias ou pretendentes às cadeias.
Eu lhe digo: Presidente, houve um momento em que Vossa Excelência encarnou, de fato, as esperanças do povo; houve um momento em que Vossa Excelência, de fato, se irmanou com as aspirações populares. Mas eu digo a Vossa Excelência: preze o Brasil que repousa na sua autoridade; preze a sua autoridade, sob a qual repousa o Brasil. Tenha a coragem de perceber que o seu Governo é, hoje, um estuário de lama; observe que os porões do seu palácio chegaram a ser um valhacouto da sociedade. Alce os olhos para o seu destino e observe as cores da bandeira, e olhe para o céu, a cruz de estrelas, que nos protege, e veja como é possível restaurar-se a autoridade de um governo que se irmana com criminosos, como é possível restabelecer-se a força de um Executivo caindo nos últimos desvãos da desconfiança e da condenação.


CARLOS LACERDA
No dia 7 maio de 1957, ameaçado de cassação, o deputado Carlos Lacerda proferiu um discurso que durou 10 horas e entrou para a história.

[Sou] testemunha de um tempo de subversão de valores, no qual, como na sátira de George Orwell, fala-se em liberdade para matá-la, em democracia para destruí-la, em legalidade, para negá-la em sua própria essência. As palavras adquirem sentido oposto ao seu significado, e os homens afetam sentimentos nobres, para justificar, na perplexidade das idéias, a política dos mais baixos instintos.
Parece que uma estranha circunstância acompanha estes episódios, e que tudo que nos acontece ganha, na boca de presa dos nossos inimigos, nome trocado.
Uma democracia não se faz apenas com chamá-la por este nome, é necessário fundá-la na boa fé e não na astúcia, na honradez e não na fraude, porque o povo merece o melhor, e não o mais vil.
Aponto mais um crime, eis-me criminoso. Denuncio uma traição, chamam-me traidor.
Eis, então esta edição pachola do Procurador da Judéia, que não se lembrava, como no conto de Anatole France (esq.), do inocente que entregara à turba enfurecida dos provocadores, mas guardara a memória do ladrão que libertara, para celebrar o poderio de César, só este capaz de premiar ladrões e crucificar os que tivessem a ousadia de expulsá-lo dos templos da sua traficância.
Tudo, menos decepcionar a ilustre platéia que paga caro o lugar à sombra. O ladrão provecto, o contrabandista emérito, o abalizado agente de negócios escusos, o promissor emissário de novas cavações, o pioneiro infatigável das comissões copiosas, os promotores dos prazeres proibidos, os empresários dos gozos inefáveis, os letrados do insulto pago à linha, os pensionistas dos ócios indevidos. A turba que preliba a hora em que o enfurecimento do touro espicaçado, há de levar pelos ares, e fincar-lhe as guampas, ao temerário que ousou mostrar-lhe, nos passos da capa e das Madalenas, o valor da destreza e da coragem lúcida, sobre a brutalidade da besta que escarpa e urra.
Bem fraca na verdade anda a nação que precisar de remendos para se fingir de inteira, que arranhar a legalidade, para mostrar que o seu sangue ainda não se coagulou. A pobre nação, que ora se alui, ora se dilui, ora parece aprumar-se e logo bambeia.
[Anestesiando o povo, dele] faz instrumento da democracia pervertida, escravo da produção para a tirania.
O interesse do povo, em vez de uma razão, converte-se num pretexto para privar o mesmo povo de atender como bem entenda ao seu interesse. [O povo torna-se] uma massa inorganizada ou arregimentada em grupos rigorosamente controlados - no caso brasileiro, pela fraude, pelas autarquias, pelo monopólio do crédito, pelo empreguismo, [pelas bolsas-miséria], pela máquina educacional perra e guinchante.
Numa palavra, o direito passa a ser regido por interesses de grupo que, constituído o governo, dominam o estado, não pelas regras permanentes da razão e da revelação. Talvez alguns fiquem muito surpreendidos e até indignados se lhes dissermos isto, mas saibam que o Estado brasileiro hoje já se parece muito mais com o estado totalitário do que com uma estrutura democrática.
Vivemos no Brasil uma grande mentira. Quanto mais se fala em democracia, mais se proporciona ao povo demonstrações concretas de desapreço por ele, em sua dignidade, em sua honra, em seus interesses permanentes, em suas aspirações mais nobres. Os semimarxistas que governam o país esqueceram-se de que as forças morais condicionam, quando não determinam, as reações do povo.
Desprezaram o valor da crise moral. Esta vai liquidá-los. O que não seria mal, não existissem maiores sacrifícios à nação perplexa. O povo já percebeu que está sendo governado por "fariseus" da democracia, por "Tartufos" de uma pudicícia que, ao menor descuido, se desmanda.
O diálogo democrático transforma-se num monólogo de duas bocas, na qual uma diz o que quer e outra sequer pode dizer o que pensa. Não há quem possa resistir ao assalto da ignomínia, ao horror de tanta lama, do mar que agora invade a terra enxuta, que conseguíramos ressecar com as próprias mãos.
Estamos diante da ofensiva geral dos inimigos, que o são também do Tesouro Público e da esperança popular. Mas uma força possuo que me faz resistir a tudo isto, Sr. Presidente: é a confiança nos desígnios de Deus.
Quero saber até que ponto uma nação atura que dela escarneçam, a trocar o nome das coisas, dos sentimentos e das instituições. A falsificar os programas e inverter as doutrinas, a praticar a demagogia com linguagem Bíblica.
Ainda há ingênuos ou espertos que me julgam cheio de ódios porque sou veemente. Não Sr. Presidente. Sou veemente porque detesto a hipocrisia e o comodismo. Mas não tenho ódios porque sou livre. Quem odeia transforma-se no escravo do outro que ele odeia. Quem me odeia são os meus escravos de hoje, que não querem ser alforriados, porque têm o poder na mão, mas são escravos da cobiça e do ódio que os convertem em escravos da nossa vontade.
Detesto dizer que inspiro medo a certos homens Sr. Presidente, mas esta é a verdade. Felizmente, não aos homens de bem, apenas aos outros. E são esses outros os que se mexem, os que se movem, os que se danam e redanam, nessa dança de fórmulas, de pretextos, de processos, de perseguições, que me atormentam a inteligência, me castigam o corpo, mas me deixam limpo, lavado, o coração impenitente.
Procura-se a minha custa convencer o povo de que é inútil ter ideal, de que é vã toda esperança. Trata-se de esmagar um que parece forte, para que os mais fracos, os tímidos, os humildes, os sempre vencidos, os que não ousam, os que não insistem, os que não se agarram como eu à veemência, para não se entregarem ao desânimo, os que não forçam a violência do verbo e a perseverança na ação porque receiam ser inútil todo o esforço, afinal se entreguem, se abandonem, se deixem dominar.

(Ulysses na Caverna de Polyphemus, by Jacob Jordaens)
Partiu de Ulysses, aprisionado na gruta do Cíclope de um olho só no meio da testa. Ele viu que o gigante Polifemo devorava os seus companheiros, e se preparava para esmigalhá-lo em suas manoplas junto à boca voraz. Embriagou-o então e furou-lhe o olho único, o olho vigilante. Mas como tivera Ulysses o cuidado de dizer ao monstro que seu nome era ninguém, não acudiram os outros monstros ao apelo do Colosso quando, doido de ódio e de rancor, o gigante gritava que ninguém lhe havia furado o olho poderoso.
O governo é hoje, com seu monstruoso aparelho de propaganda, de deformação da verdade e de opressão econômica e política, o Cíclope que ousei desafiar nesta Odisséia. Ceguei-o de ódio, e ele procura esmagar-me com suas manoplas, ajudado por certas mãozinhas, habituadas a outro tipo de serviço. Mas ninguém acode ao monstro ferido só porque ele grita que ninguém lhe vazou o olho pérfido.
Perdendo ou ganhando, nós venceremos, porque os que defendemos a liberdade e a sobrevivência do Direito, somos ninguém. Nós somos a força desprezada. Nós somos os que constroem, com sacrifício e com risco, as vitórias definitivas, as únicas que Polifemo não conhecerá. Nós somos ninguém, porque somos o povo brasileiro.