28 setembro 2006

GOBIERNO DE MIERDA

Num dos últimos comícios do então presidente Salvador Allende, antes do fatídico 11 de setembro chileno, um trabalhador empunhava uma faixa em defesa do velho socialista: "ÉS UM GOBIERNO DE MIERDA, PERO ÉS MI GOBIERNO".
Mutatis mutandis, na última segunda-feira, durante o programa “Roda Viva”, o ex-ministro Paulo Brossard fez referência a Euclides da Cunha para descrever o cenário atual: “PARECE QUE NÃO FOI O GOVERNO QUE SUBIU, PARECE QUE FOI O POVO QUE DESCEU".
De fato, “nunca na história deste país” assistimos a uma tão completa degenerescência dos costumes republicanos, a um tão sistemático desrespeito aos valores democráticos, a uma tão absoluta descrença nos princípios éticos.
Cego diante da destruição das instituições e insensível aos odores da mierda, o povo parece apequenar-se, encolher-se, mimetizar-se com a matéria escatológica. Indiferente em relação ao futuro e complacente em relação ao presente, o povo amesquinha-se, rebaixa-se, deprecia-se, avilta-se.
Ah, se todos os desenganados tivessem a mesma coragem demonstrada pelo deputado Fernando Gabeira quando, no discurso em que anunciou sua desfiliação do PT, afirmou não acreditar que o sonho acabara, mas, simplesmente, que “suas esperanças negadas, transformadas numa medíocre ruína burocrática” lhe indicavam haver apenas “sonhado o sonho errado”. Lúcido e preparado, ao contrário da súcia de alpinistas sociais que invadiu Brasília, Gabeira reconhece que, muitas vezes, ou quase sempre, a complexidade do movimento histórico costuma zombar das nossas estratégias.
Imersos numa crise política sem fim, que mais parece um dominó mefistofélico (no erudito) ou um balaio de caranguejos (no popular), estamos assistindo a uma verdadeira conspiração da mediocridade, atraindo a tudo e a todos para o núcleo do ciclone anarco-sindicalista.
É chegado o momento de dar nomes aos bois, de chamar pelo nome aquilo que, por meneios e ademanes pusilânimes ou mera afetação politicamente correta, não ousávamos demarcar. Ladrão não é companheiro, roubar não é errar, chantagistas não são trapalhões, violadores de sigilo não são meninos atabalhoados, caixa 2 não é dinheiro não-contabilizado, justiça não é golpismo.

Chega de tibieza!
Chega de concessões!
Chega de contemporizações!
Chega de panos quentes!

Ao contrário do que propunham os petistas golpistas em relação ao presidente Fernando Henrique, a palavra de ordem dos democratas hoje é: FORA LULA! PELO VOTO!
Não é aceitável que cidadãos que prezem seu país, sua família, seus filhos compactuem com atores, cineastas ou músicos que fazem a apologia da frouxidão moral, da elasticidade dos valores, do desfibramento ético.
Não é possível que tudo o que ocorreu nos últimos dois anos seja esquecido ou, pior, varrido para debaixo do tapete. Não é possível continuarmos vivendo no faz-de-conta tão bem descrito pelo ministro Marco Aurélio, do STF.
Não é concebível que nos submetamos a carismas, a metáforas, a cantilenas, ao marketing, muito menos a ameaças chavistas de “sair para o pau” ou de mobilizar os “movimentos sociais”, que, hoje sabemos, não passam de fontes arrecadadoras para projetos de perpetuação no poder.
O escritor Samuel Beckett dizia que “não se passa um dia sem que algo seja acrescido ao nosso saber, desde que suportemos as dores”. E é Gabeira, quem mais uma vez, dá a receita: “Alguns ainda defendem [o PT] porque não conseguiram negociar com sua própria dor. Não podem suportá-la de frente. Mas terão de fazê-lo algum dia, porque, por mais ingênuos que sejam, já perceberam que (...) a grande esperança eleitoral da esquerda latino-americana (...) acabou na delegacia. Só os que se arriscarem a ir até o fundo dessa abjeção, compreendê-la em todos os seus detalhes mórbidos, terá chances de submergir para continuar o processo histórico (...) Por isso proponho agora um curto e eficaz trabalho de luto”.
Ou, então, que aceitem de uma vez o destino da pobre Camboja, dilacerada pelo sanguinário protocomunista Pol Pot, que tinha como lema: "A memória é nossa inimiga. A amnésia, o nosso programa”.

20 setembro 2006

GRAMSCI E O OVO DA SERPENTE


Os catarinenses, felizmente, já decidiram pela continuidade da descentralização, que vem espalhando o desenvolvimento de forma equânime por toda Santa Catarina. Por isso, não vou ocupar-me da nossa refrega estadual, concentrando meu foco no pleito nacional.

Pregado na cruz, Jesus disse: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem!”. Mas o mesmo Jesus saiu no braço contra os vendilhões do templo. Recordo essas duas passagens para ressaltar a nossa responsabilidade diante do quadro de descalabro moral e ético que assola o país, com mensaleiros, sanguessugas, chantagistas, sucedendo-se um após o outro em ritmo alucinante, tornando real a blague “de hora em hora, tudo piora”.
Pode-se perdoar os alienados, que não têm acesso às informações necessárias à formação do seu tirocínio. Pode-se perdoar o miserável, que enxerga na esmola estatal o máximo que lhe cabe neste latifúndio. Pode-se perdoar até mesmo o ingênuo, que não consegue decifrar as armadilhas do populismo ou se desvencilhar das artimanhas do gramscismo, vírus que se instalou de forma lenta, gradual e segura nos nossos corações e mentes. Mas não se pode perdoar a leniência, a displicência, a passividade diante de tudo o que estamos assistindo.
Para quem não sabe do que se trata, é de fundamental importância informar-se sobre esse tal gramscismo, pois grande parte do que ocorre hoje em nosso país é fruto da eclosão desse “ovo da serpente”. Tentarei fazer uma síntese, com a ajuda do historiador Carlos Azambuja.
O italiano Antonio Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, foi o primeiro teórico marxista a compreender que a revolução na Europa Ocidental deveria se desviar do rumo seguido pelos bolcheviques russos, propondo uma alternativa ao “Que Fazer?” leninista.


Para Lênin, a revolução comunista deveria começar pela tomada do Estado e, então, transformar a sociedade. Gramsci inverteu esses termos: a revolução deveria começar pela transformação da sociedade, tomando da classe dominante a direção da “sociedade civil” (rede de instituições educativas, religiosas e culturais que disseminam modos de pensar) e, só então, atacar o poder do Estado. Sem a prévia “revolução do espírito”, qualquer vitória comunista seria efêmera.
Segundo Gramsci, o objetivo era conquistar, um após outro, todos os instrumentos de difusão ideológica (escolas, universidades, editoras, meios de comunicação social, sindicatos), já que os principais confrontos ocorrem na esfera cultural e não nas fábricas, nas ruas ou nos quartéis.
Para Gramsci, a batalha deveria ser travada no plano das idéias religiosas, filosóficas, científicas, artísticas etc. Por essa razão, a caminhada para o socialismo não passaria pelos proletários de Marx e Lênin ou pelos camponeses de Mao, mas, sim, pelos intelectuais, pela classe média, pelos estudantes, pela cultura, pela educação e pelo efeito multiplicador dos meios de comunicação social, buscando mudar a mentalidade, desvinculando-a do sistema de valores tradicionais, para implantar os valores ateus e materialistas.
É de suma importância para o triunfo da revolução mundial uma reforma intelectual e moral para lograr uma mudança de mentalidade nas sociedades ocidentais que foram constituídas por convicções, critérios, normas, crenças, pautas baseados na concepção cristã da vida.
As novas concepções se difundem utilizando sofismas, dando novas interpretações a fatos históricos, chegando a parafrasear o Evangelho em alguns casos, distorcendo “ensinamentos” de determinadas passagens bíblicas, tal como a expulsão dos mercadores do Templo, utilizando-os como argumentos para justificar a violência e moldar a imagem do “Cristo guerrilheiro”.
Ao proclamar o diálogo e aceitar o debate, o gramscismo seduz e atrai a contribuição de todos aqueles que, por simpatizar com a ideologia marxista - por esnobismo, conveniência ou negligência -, se somam, voluntária ou involuntariamente, à sua estratégia.
Graças à inoculação desse vírus gramsciano na sociedade brasileira, hoje é comum a louvação do invasor de terras e a demonização de quem ousa defendê-las com armas na mão. È corriqueira a defesa dos direitos de marginais e a condenação das ações policiais. É trivial a confusão entre interesses de Estado e interesses partidários, tudo perdoado porque os fins justificariam os meios.
No próximo domingo, os brasileiros darão um passo crucial para a definição do país que queremos para os próximos 50 anos. Isso porque a reeleição de Lula significará, sem qualquer sombra de dúvida, um salto rumo ao abismo, a um chavismo que gerará um grave quadro de instabilidade das instituições.

14 setembro 2006


OS MERDOSOS *

Para tentar entender um pouco do que anda ocorrendo com a noção de ética “nestepaiz” (como diria o noço guia), fui buscar luzes num livro editado em 1999 - “A Esquerda no Umbral do Século XXI – Tornando Possível o Impossível” - da cientista política chilena Marta Harnecker, atualmente debruçada sobre a revolução bolivariana de Hugo Chávez.
Bem no finalzinho da sua obra, tentando reduzir a sensação de inaplicabilidade de todo o palavrório precedente, ela saca da sua cartucheira moral a seguinte pérola: “Por último, não existe apenas o terreno do legal e de seu oposto, o ilegal; há todo um campo que poderíamos chamar de a-legal, quer dizer, aquilo que não entra nem no terreno do legal nem do ilegal” (...) “A esquerda latino-americana pode ir acumulando forças e ir gerando a transformação cultural do povo de modo que este assuma cada vez mais seu destino em suas mãos, criando dessa maneira uma das bases fundamentais da nova sociedade que pretendemos construir: uma sociedade caracterizada pelo povo assumindo o papel principal em todos os níveis”.
Com a ajuda preciosa desse texto, fica mais fácil entendermos a lenta, gradual e constante putrefação da ética em nosso país. Burgueses ignorantes, desconhecíamos a existência dessa nova categoria inventada pela esquerda latino-americana: o vasto campo do a-legal. Não é uma maravilha? Poder roubar, prevaricar, surrupiar, desviar, mensalar, vampirar, sanguessugar e, ainda assim, flutuar num vácuo distante tanto do legal quanto do ilegal?
Muito legal!!!
E quem é que, antes de todos nós, percebeu isso? Claro, a nossa vanguarda intelectual.
Wagner Tiso, músico: "Não estou preocupado com a ética do PT. Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país. Estou me lixando para a ética”.
Paulo Betti, ator: “Não se faz política sem por a mão na merda”.
Luiz Carlos Barreto, cineasta: "A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência. Se o fim é nobre, os fins justificam os meios".
José de Abreu, ator: "Eu acho difícil fazer política sem colocar a mão na merda, mas acho que tem que tentar ter mãos beatas". Tudo isso dito na casa do ministro Gilberto Gil, depois de declararem apoio ao presidente Lula.
Passados alguns dias, depois de uma enxurrada de críticas à pouca vergonha desse escatológico jantar, os aparatchiks da academia vieram em socorro de seus companheiros. Luis Fernando Veríssimo chegou muito perto da lógica torta da Marta chilena ao dizer que “os eleitores declarados do Lula estão sabendo distinguir o moralismo de ocasião do moralismo legítimo”.
Mas a mais desabrida e desavergonhada foi a feminista Rose Marie Muraro. Para ela, Lula é, sim, um ladrão, mas merece nosso perdão porque, segundo ela, estaria dividindo o butim com os pobres, (e, por conseqüência, seriam todos seus cúmplices na divisão da rapina, digo eu). Diz, também, que o coitadinho "se viu obrigado a jogar o jogo da classe dominante para continuar no poder", sem se dar conta de que a recíproca é verdadeira, ou seja, será que os outros ladrões só o eram por terem sido obrigados a isso também? Quércia, Maluf, Collor e Newtão (todos aliados!) agradecem penhorados a defesa tardia.
Muraro diz ainda que a Zelite "fabricaram a noção de moralidade para que os dominados continuassem pobres, sem competir com eles (ricos)", sem se dar conta de que elas, as antigas vestais petistas, hoje assumidíssimas Messalinas, foram sempre os maiores arautos dessa tal moralidade inventada pela Zelite.
É de uma indigência de dar dó o pensamento dessa “vanguarda” intelectual, hoje disputando o papel de quem mete mais a mão na merda...
Intelectual por intelectual, fecho com o Jabor: “Esses bravos criadores de arte estão trazendo à luz do dia, num ato falho espetacular, a verdadeira ideologia que orienta o PT. Prestaram um serviço à verdade”.

*MERDOSO = que não tem capacidade; imbecil, parvo.

06 setembro 2006

CUIDA DO MAIS IMPORTANTE


Em tempos de campanha eleitoral, em que o ex-ministro da Pesca diz saber resolver todos os problemas de Santa Catarina mas é surpreendido por pescadores fechando portos (Itajaí e Rio Grande do Sul) em protesto contra o descaso do Governo Federal em relação às suas demandas.

Em tempos em que o ex-governador Amin reclama de traição, abandonado por partidos e lideranças que já o acompanharam em outras jornadas, mas não se pergunta o que terá ele feito para ser assim renegado por ex-companheiros.
Nesses tempos de análise e reflexão por parte do eleitorado, reproduzo uma historinha que dá uma boa pista daquilo que, muitas vezes, determina o sucesso de uns e o insucesso de outros.

Certa vez, um jovem recebeu do rei a tarefa de levar uma mensagem e alguns diamantes a outro rei de uma terra distante. Para isso, recebeu o melhor cavalo do reino para levá-lo na jornada.
- Cuida do mais importante e cumprirás a missão!, disse o soberano ao despedir-se.
O jovem escondeu a mensagem na bainha da calça, colocou as pedras numa bolsa de couro amarrada à cintura, sob as vestes, e, logo cedo, sumiu no horizonte, sem cogitar a hipótese de falhar. Queria que todo o reino soubesse que era um nobre e valente rapaz, pronto para desposar a princesa.
Para cumprir rapidamente a tarefa, abandonava a estrada, pegava atalhos que sacrificavam sua montaria, exigindo-a ao máximo. Quando parava em uma estalagem, deixava o cavalo ao relento, não lhe aliviava da sela nem da carga e não se preocupava em dar-lhe de beber ou providenciar alguma ração.
- Assim, meu jovem, acabará perdendo o animal – disse-lhe alguém.
- Não me importo - respondeu ele. Tenho dinheiro. Se este morrer, compro outro. Nenhuma falta fará.
Com o passar dos dias e sob tamanho esforço, o pobre animal, não suportando os maus tratos, caiu morto na estrada. O jovem o amaldiçoou e seguiu o caminho a pé.
Passadas algumas horas, se deu conta da falta que lhe fazia o animal, pois nessa parte do país havia poucas fazendas, muito distantes umas das outras. Exausto e sedento, já havia deixado pelo caminho toda a tralha, exceto as pedras, fiel à recomendação do rei: "Cuida do mais importante!".
Seu passo tornava-se curto e lento. As paradas eram freqüentes e longas. Como sabia que poderia cair a qualquer momento e temendo ser assaltado, escondeu as pedras no salto de sua bota. Mais tarde, caiu exausto no pó da estrada, onde ficou desacordado. Para sua sorte, uma caravana de mercadores que seguia viagem para o seu reino, encontrou-o e cuidou dele.
Ao recobrar os sentidos, encontrou-se de volta em sua cidade. Imediatamente foi encontrar o rei para contar o que havia acontecido. Com a maior desfaçatez, colocou toda a culpa do insucesso nas costas do cavalo "fraco e doente" que recebera.
- "Porém, majestade, conforme sua recomendação de cuidar do mais importante, aqui estão as pedras que me confiaste. Não perdi uma sequer!".
O rei as recebeu com tristeza e se despediu friamente. Abatido, o jovem deixou o palácio arrasado. Em casa, ao tirar a roupa, encontrou na bainha da calça a mensagem do rei, que dizia: "Ao meu irmão, rei da terra do Norte! O jovem que te envio é candidato a casar-se com minha filha. Esta jornada é uma prova. Dei a ele alguns diamantes e o melhor cavalo do reino. Recomendei que cuidasse do mais Importante. Faze-me, portanto, um grande favor. Verifica o estado do cavalo. Se estiver forte e viçoso, saberei que o jovem aprecia a fidelidade e a força de quem o auxilia na jornada. Se, porém, perder o animal e apenas guardar as pedras, não será um bom marido, nem rei, pois terá olhos apenas para o tesouro do reino e não dará importância à rainha e nem àqueles que o servem".
Há, nessa historinha singela, um sem número de lições a serem decifradas e compreendidas por ganhadores e perdedores das próximas eleições.

30 agosto 2006

BEM-VINDAS AS NOVAS USANÇAS


As deliciosas e, ao mesmo tempo, cáusticas, ferinas, mordazes crônicas de Machado de Assis datam da segunda metade do século 19. Se, de fato, uma das formas de se avaliar a importância de uma obra literária é sua capacidade de resistir aos efeitos do tempo, então a crônica que reproduzo abaixo é um dos melhores exemplos do quanto seu humor e sua ironia continuam mais atuais do que nunca.

Por aquela época, talvez até fosse adequado intitulá-la Empregado Público Aposentado, como fez Machado, mas, hoje, não mais. Hoje, este personagem é bem diferente daquele tão cruelmente retratado pelo “bruxo do Cosme Velho”, como o chamava Drummond. Não, hoje ele já não é mais, necessariamente, um retrógrado, como Machado o via. Mas, então, por que a considero atualíssima? Porque continua havendo muita gente, inclusive empregados públicos aposentados, que ainda podem se enxergar na crônica machadiana. Mas, como não concordo em restringir as qualidades reacionárias ao empregado público aposentado, um estigma hoje injusto, sempre que ele for citado substituirei por ELE. Confira e veja se a crônica é ou não atualíssima:
Os egípcios inventaram a múmia para conservarem o cadáver através dos séculos. Assim a matéria não desapareceria na morte (...) ELE não se aniquila de todo na aposentadoria; vai além, sob uma forma curiosa, antediluviana, indefinível (...) Espelho à rebours, só reflete o passado, e por ele chora como uma criança. É a elegia viva do que foi, salgueiro do carrancismo, carpideira dos velhos sistemas (...) Reforma, é uma palavra que não se diz diante d´ELE. Há lá nada mais revoltante do que reformar o que está feito? Abolir o método! Desmoronar a ordem! (...) Tudo quanto tende ao desequilíbrio das velhas usanças é um crime para esse viúvo da secretaria, arqueólogo dos costumes, que não compreende que haja nada além das raias de uma existência oficial. (...) Todos os progressos do país estão ainda debaixo da língua fulminante deste cometa social. Estradas de ferro! É uma loucura do modernismo! Pois não bastavam os meios clássicos de transporte que até aqui punham em comunicação localidades afastadas? Estradas de ferro? Desta sorte todas as instituições que respiram revolução na ordem estabelecida das coisas – podem contar com um contra d´ELE. Este meio mesmo de retratar à pena, como faço atualmente, revoltaria o espírito tradicional da grande múmia do passado. Uma inovação de mau gosto, dirá ELE (...) O leitor conhece decerto a individualidade de que lhe falo, é muito vulgar entre nós, e de qualidades tão especiais que a denunciam entre mil cabeças. Que lhe acha? Quanto a mim é inofensiva como um cordeiro. Deixam-no mirar-se no espelho dos velhos ursos, falar em política, discutir os governos; não faz mal”.

Basta assistir ao programa eleitoral gratuito para encontrar alguns desses personagens mumificados. Carpideiras dos velhos sistemas, arqueólogos dos costumes, têm horror a qualquer alteração nas velhas usanças, tão de acordo com os seus velhos métodos. Para combater o novo e obstruir o moderno, fantasiam as suas velharias com roupagem moralizadora, transfiguram as suas ortodoxias escondendo-as numa linguagem economicista, metamorfoseiam as suas idiossincrasias dando-lhes uma falsa moldura ética.
No fundo, ao fim e ao cabo, esses tristes personagens não passam de lombadas na estrada da história, de calmarias no oceano do tempo, de mata-burros no caminho dos verdadeiros cavaleiros.


Já nem me lembro se li ou se pensei, mas é certo: "Os governantes que se conformaram em manter as coisas como sempre foram... se foram".

23 agosto 2006

VONTADES POLÍTICAS


Seria engraçado, se trágico não fosse, assistir alguns candidatos dizerem, com a maior cara de pau, que, se eleitos, resolveriam tudo com um passe de mágica, pois, afinal, basta ter “vontade política”.
Ouvir esse tipo de bobagem, que os petistas inventaram e outros menos imaginativos copiam, faz-me lembrar como é importante conhecer a História para não ser enganado por ilusionistas e manipuladores.
No dia 27 de agosto de 1928, portanto, há exatos 78 anos, representantes de oito países assinaram em Paris um tratado internacional que condenava a guerra como forma de resolver os problemas entre os Estados. Muito bonito! Eis aí um bom exemplo da tal “vontade política”, e da sua absoluta indigência conceitual e alienação factual. Seus seguidores são adeptos daquela máxima hoje expropriada pelos petistas: “se os fatos não combinam com os nossos planos, revoguem-se os fatos”.
Em setembro de 1939, apenas onze anos depois daquele idílico encontro de nações, começava a Segunda Guerra Mundial, a maior catástrofe já provocada pelo homem. Setenta e duas nações se envolveram no conflito e o número de mortos superou cinqüenta milhões, além de outros vinte e oito milhões de mutilados.

Meros 17 anos depois daquele encontro, tão cheio de “vontades políticas”, num outro 27 de agosto, agora de 1945, o exército americano entrava no Japão, depois que Hiroshima e Nagasaki “convenceram” o imperador Hiroíto a anunciar a rendição do país.
Dizem os economistas que a Primeira Guerra Mundial teve um custo de 208 bilhões de dólares, enquanto a Segunda atingiu a impressionante cifra de 1 trilhão e 500 bilhões de dólares, quantia que, investida no combate à miséria, a teria varrido da face da terra.



Creio, porém, haver duas situações em que se pode dar ouvidos a quem invoque a malfadada “vontade política”. Pegue, por exemplo, a promessa de Juscelino de erguer Brasília e, assim, descentralizar o desenvolvimento do Brasil, tão concentrado no litoral. É um excelente exemplo de “vontade política” factível, concreta, realizável. Basta ver os resultados! Mutatis mutandis, não foi outro o desfecho do compromisso assumido pelo então candidato Luiz Henrique. Em menos de quatro anos, a descentralização já é uma grata realidade que vem mudando a cara do interior catarinense.
Mudanças estruturais têm muito mais chance de vingar do que promessas tópicas, vazias e eleitoreiras, que podem ser o CEU da Dona Marta, o Fome Zero do seu Lula, o CAIC do seu Collor, ou uma tal Escola-Mãe, que ninguém sabe o que é... Mentiras de uns, ilusões cosméticas de outros, a situação do povo continua sempre a mesma.
A outra situação diz respeito à ética, à seriedade, à honestidade no trato com a coisa pública. Eis aí um fator que, este sim, depende, fundamentalmente, da “vontade política” de quem aspira a um cargo eletivo.
Há aqueles que, como denunciou o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, almejam a “formação de uma quadrilha para lavagem de dinheiro, evasão ilegal de divisas, corrupção ativa e passiva e peculato” ou criar uma “organização criminosa para garantir a permanência do Partido no poder com a compra de suporte político de outros partidos e com o financiamento irregular de campanhas”. Isso é “vontade política” na mais pura acepção do termo, mas é uma “vontade política” voltada para o mal, para a perpetuação de um grupo no poder.
Mas há também aqueles que, por pequenos gestos, acabam nos dando a garantia de seu caráter. Veja os exemplos dados pelo jornalista Ricardo Setti (que foi editor-chefe do jornal O Estado de S. Paulo, diretor do Jornal do Brasil, redator-chefe da revista Istoé, editor da revista Veja e ganhador do Prêmio Esso de Reportagem de 1986): “o correto seria Lula licenciar-se da Presidência (...) FHC teve mais compostura, mas deveria ter acompanhado a atitude ética do governador Mário Covas, que no mesmo ano, candidato a novo período no governo de São Paulo, afastou-se durante quase quatro meses para fazer a campanha. Neste ano de 2006, o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique, ex-companheiro de Covas, deu um passo ainda mais radical – infelizmente ignorado pela grande mídia que tanto desanca os políticos, como se todos fossem da mesma laia: no dia 6 de julho passado, renunciou ao mandato e a 179 dias no comando de um Estado importante e rico, passando o posto ao vice para concorrer em condições de igualdade com os demais candidatos”.

Num outro dia 27 de agosto, só que há 2557 anos, nascia o filósofo chinês Confúcio, que, ensinou: "O homem superior medita antes de falar e depois age de acordo com suas palavras".


Aprendeu quem quis.

16 agosto 2006

O PARADOXO DO BRASILEIRO


Há 2500 anos, o filósofo chinês Confúcio já ensinava que "o homem de bem exige tudo de si próprio; o homem medíocre espera tudo dos outros".

Neste momento, em que começa a reta final das eleições, depois dos quatro anos mais infernais da história política brasileira, quando fomos expostos a todos os círculos do inferno, é fundamental que se tenha algum parâmetro a nos guiar, como Virgílio fez com Dante, pelo inferno e purgatório, e Beatriz, pelo céu.
Os mais pessimistas apelam para Fernando Pessoa para decretar que o Brasil, hoje, não passa de um “cadáver adiado que procria”. Outros, mais otimistas, oram com a mesma fé que o clérigo e escritor inglês Charles Caleb Colton: “A adversidade é um trampolim para a maturidade”. Há também os neocínicos, que não vêem nenhum problema, pois tudo isso que se está vendo hoje “é o que sempre se fez, sistematicamente, neste país”.
Durante muito tempo, as cabeças pensantes brasileiras estiveram separadas entre ortodoxos e heterodoxos. Hoje, estão todas unidas em torno do desafio à lógica que é autopsiar o paradoxo brasileiro.

Cada um de nós isoladamente tem o sentimento e a crença sincera de estar muito acima de tudo isso que aí está. O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado final de todos nós juntos é precisamente tudo isso que aí está. Este é o paradoxo do brasileiro. O brasileiro é sempre o outro, não eu”, decifra o economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca.



Apaixonado pelo Brasil, o psicanalista italiano Contardo Calligaris odeia uma das nossas marcas registradas: a malandragem, que, para ele, “é uma conduta moral de uma criança de 9 anos”. A aceitação e convivência generalizadas com essa “pequena” anomalia impedem a construção de uma coletividade regida por leis, baseada na institucionalidade.
O paradoxo brasileiro, bem ao estilo sartreano (“O inferno são os outros”), faz com que joguemos todas as culpas sobre o Congresso, esquecidos da lição do publicista argentino Barraquero, para quem “os homens não prosperam nem são livres quando têm boas leis, senão quando as praticam fielmente, as amam e as respeitam”.
O publicitário norte-americano Calderhead Jackson dizia que “não é a maioria que é silenciosa; o governo é que é surdo”. Por aqui, além de um Governo Federal surdo, temos, também, uma maioria não apenas silenciosa, mas indiferente, apática, anômica.

Roberto Campos, um dos gênios da raça, tão incompreendido em seu tempo (exatamente por estar à frente de seu tempo) já alertava sobre essa postura pusilânime ao ensinar que “nenhuma sociedade pode florescer, ou mesmo funcionar, se o seu povo não se sente responsável por ela".
A ser pessimista, otimista ou cínico, prefiro ser realisticamente esperançoso. A base para isso, mais um paradoxo, é a gravidade da situação a que chegamos.

Veja o que diz o psicólogo norte-americano Lawrence Kohlberg (esq.), respeitado pesquisador da moralidade: “As sociedades são passíveis de evoluir dos estágios inferiores de moralidade para os superiores como resultado da evolução moral dos indivíduos. Esse processo pode ser acelerado pela exposição dos indivíduos a dilemas morais que questionem as bases do raciocínio que sustenta suas convicções e a situações que permitam o exercício constante de assumir a perspectiva do outro”.
Momentos de crise agônica, como a vivida por São Paulo, ou de incerteza paroxística, como a gerada pela desmoralização das instituições, são propícios para saltos, ou de qualidade, ou para abismos. Eles podem suscitar tanto o surgimento de salvadores da pátria, populistas tresloucados aos moldes de Chaves, como induzir a um reordenamento coletivo, em que os atores busquem redefinir sua participação no contexto social, como se as instituições estivessem colocadas em xeque para se ver até que ponto estão dispostas a cumprir integralmente seus papéis. A explicitação de tensões, como diz Kohlberg, pode fazer com que a sociedade, tendo ingerido, como um avestruz, toda sorte de alimentos indigestos, resolva regurgitar aquilo que o estômago rejeita.


Finalizo, beirando um otimismo mais desejoso do que realista, com a sentença de um dos mais lúcidos jornalistas brasileiros, Fernando Pedreira, na edição de 23/03/91 do Estadão: “Embora padrões morais elevados possam conferir a um homem e a seus filhos pouca ou nenhuma vantagem sobre outros membros de sua tribo, ainda assim o avanço da moralidade e o aumento do número de homens moralmente bem-dotados certamente darão a uma tribo imensa vantagem sobre as outras”.

09 agosto 2006

VAYA CON DIOS!


Caso Fidel Castro estivesse lúcido, são ou vivo (sim, vivo, porque o regime é tão fechado que ninguém pode afirmar sequer que ele esteja vivo), hoje Cuba estaria recebendo uma legião de adoradores do ditador. Brasileiros em penca! Venezuelanos em cacho! Intelectuais franceses a rodo! Todos entoando loas às excelsas qualidades do regime comunista cubano e soprando as 80 velinhas do bolo presidencial.


Todos esquecidos de que há em Cuba, hoje, 316 presos políticos, mais de 40 condenados à pena de morte. De que para a Anistia Internacional, 81 são considerados prisioneiros de consciência. De que segundo a associação internacional “Repórteres sem Fronteira”, 27 são jornalistas, detidos desde 2003. De que “El Comandante”, ao longo de cinco décadas, foi responsável por, no mínimo, 15 mil assassinatos, ou, segundo cálculos mais realistas, 140 mil.


Aos mais realistas do que o rei, que podem ter comichão de rebater tal heresia, tenho arquivado um exemplar de Veja de 13/7/1977, onde, em longa entrevista, o ditador afirma, com a maior sem-cerimônia: “Deve haver uns 2.000 ou 3.000 presos políticos. Em certo momento houve em Cuba uns 15.000 presos políticos. Ou mais. Tivemos de prendê-los, e tivemos de submeter alguns a penas severas, longas. Isso é verdade, sim”. Disse mais o grande líder: “Quando triunfou nossa revolução, aqueles que haviam assassinado milhares de nossos compatriotas, e os que haviam torturado dezenas de milhares de cubanos, esses nós julgamos segundo as leis revolucionárias, em tribunais revolucionários. E os maiores criminosos, os responsáveis pelos casos mais graves de torturas e maus-tratos, foram condenados e fuzilados”.


Joseph Goebbels costumava dizer "quando ouço falar em cultura, saco logo o meu revólver". Teorizando sobre o multiculturalismo, o sociólogo e crítico cultural esloveno abre duas outras vertentes para essa questão. A do cínico produtor de cinema em Mépris, de Godard: "quando ouço falar em cultura, tiro logo o talão de cheques”, e a réplica iluminista: “quando ouço a palavra revólver, lanço mão da cultura”.


Portanto, quando se ouve a candidata Heloisa Helena falar que “o socialismo é a maior declaração de amor à humanidade”, deve-se, imediatamente, sacar da mochila um livrinho de história.


Uma boa sugestão é o Livro Negro do Comunismo, publicado na França, em 1997. Seus autores, por paradoxal que possa parecer, são marxistas. O coordenador da equipe é Stéphane Courtois, ex-diretor da revista Communisme, ex-maoísta, hoje anarquista.


Nele se pode aprender que, enquanto o nazismo gerou 25 milhões de mortos, em menos de 50 anos o comunismo foi responsável por 100 milhões de mortos! E isso apesar de os autores minimizarem as cifras. A Comissão sobre Repressão do governo russo, por exemplo, concluiu que os bolchevistas mataram pelo menos 43 milhões de pessoas entre 1917 e 1953, enquanto o livro contabiliza “apenas” 20 milhões. Na Coréia do Norte, a agência católica Zenit informa que o comunismo matou de fome 3,5 milhões, sete vezes mais do que os autores informam. Os números “modestos” do livro são os seguintes: URSS, 20 milhões de mortos; China, 65 milhões; Vietnã, 1 milhão; Coréia do Norte, 2 milhões; Camboja, 2 milhões; Leste-Europeu, 1 milhão; América Latina, 250 mil; África, 1,7 milhão; Afeganistão, 1,5 milhão.

Ou seja, bem ao contrário do que diz a candidata Heloisa, os regimes comunistas foram a maior declaração de guerra à humanidade.
Genocide Memorial - Choeung Ek - Camboja
 Um dos pré-requisitos básicos da cultura é a memória. Não foi por outra razão que o ditador genocida do Camboja, Pol Pot, descreveu assim o seu ideário: "A memória é nossa inimiga. A amnésia, nosso programa”.


Quando vemos nosso país sendo assaltado por PCCs, MSTs, mensaleiros, sanguessugas, quando vemos as pesquisas cantando vitória para o presidente que lidera e abençoa tudo isso, quando chega o momento de, nas urnas, darmos a nossa contribuição à história do nosso país, não podemos nos esquecer de que aqueles facínoras também defendiam uma utopia igualitária e libertária que tudo justificava, acreditando que exterminar milhões não importava, porque daí nasceria um mundo novo, um homem novo.


Vaya con Dios, camarada Fidel Alejandro Castro Ruz!


Se Ele aceitá-lo...

03 agosto 2006

A FORÇA DO CARÁTER


Quem assistiu ao debate realizado pela rádio CBN, entre seis dos oito pleiteantes ao Governo do Estado, percebeu, nitidamente, a enorme dificuldade dos adversários do candidato à reeleição, Luiz Henrique da Silveira, em tentar desqualificar a sua gestão.

Primeiro, porque a maioria preferiu não atacar a Descentralização, como prometia. Claramente, foram advertidos por suas assessorias de que isso seria um furo n´água, tendo em vista a excepcional aceitação que esse novo modo de governar vem merecendo da população catarinense. Um único debatedor arriscou-se a fazer críticas às Regionais, garantindo que, se eleito fosse, as desativaria. Os demais, meio sem jeito, admitiram tratar-se de uma boa idéia, sujeita apenas a adaptações cosméticas que seus gostos e preferências pessoais lhes sugeriam.

Segundo, porque não conseguiram destacar nenhum ponto crítico ou setor mais problemático em que pudessem se apoiar para tentar denegrir o atual governo. As poucas tentativas, além de tímidas, foram facilmente desmontadas pelas respostas do candidato à reeleição. Como que para comprovar a falta de temas relevantes que pudessem desgastar Luiz Henrique, houve quem apelasse para a “denúncia” rasteira de que teriam sido encontrados ratos num hospital da capital. Como se um Governador de Estado fosse um zelador, um faxineiro ou um guarda de quarteirão, encarregado de caçar ratos. Se procurassem melhor, certamente também encontrariam pernilongos ou muriçocas, quem sabe até um vaga-lume ou um louva-Deus...


Valha-me Deus!, quanto oportunismo! Qualquer criança sabe que em casos como esse o que cabe ao governante de 5 milhões de catarinenses é cobrar responsabilidades e punir quem tenha errado. O que foi feito, exemplarmente, pelo governador Pinho Moreira, ao contrário do que anda ocorrendo nesta República da impunidade.


O pouco tempo disponível para as respostas, limitado pelo rígido formato dos debates, dificulta sobremaneira quem tem o que mostrar, dizer, propor ou elucidar. Em função disso, Luiz Henrique não pôde enumerar, muito menos explicar, as vantagens e virtudes da 
Descentralização nem os benefícios que vêm espalhando por toda Santa Catarina.


Não lhe foi possível, por exemplo, contraditar o único e solitário crítico dessa nova forma de administrar, com argumentos e exemplos que demandariam tempo bem mais elástico.


Antigamente, quando tudo era centralizado em Florianópolis, inclusive as licitações e as suas usuais ganhadoras, só a implantação do canteiro de obras no interior do estado acrescia entre 10 a 20% o custo das mesmas. Não sei se alguém do governo já fez essas contas, mas, se fizesse, certamente chegaria a uma economia de várias centenas de milhões de reais.


Outra vantagem, a curto, médio e longo prazos, é a fiscalização in loco, diária e efetiva das obras pelos gerentes e secretários regionais, durante o seu andamento e não meses após o seu término, como ocorria outrora. Com isso, evita-se absurdos como os que freqüentemente se via nas obras estaduais: uma escola, por exemplo, já totalmente construída, mas com materiais bem inferiores ao exigido pelo edital de licitação. No curto prazo, perdiam as crianças, que tinham de estudar em escolas inadequadas e inseguras. No médio e longo prazos, perdia o estado, primeiro, porque lesado em seus cofres, segundo, porque privado de catarinenses bem formados e capacitados.


O ganho sistêmico é outra virtude e outra fonte de economia desse sistema de governo. Como os Conselhos de Desenvolvimento reúnem prefeitos e presidentes de Câmaras de todos os municípios da regional, além de membros destacados da sociedade civil organizada, evitam-se as redundâncias e duplicidades, por um lado, e estimula-se a complementaridade intermunicipal, por outro. Fica muito mais simples, quase automática, a repartição dos benefícios e a definição estratégica das melhores localizações dos investimentos.


Mais do que tudo isso, porém, arrisco-me a dizer que outro fator atuou como poderoso inibidor da libido dos contendores: a força moral do único detentor de mandato executivo em todo o Brasil que teve a coragem, a coerência e o senso ético de renunciar para enfrentar seus adversários em igualdade de condições.


A força de um caráter tem efeito fulminante.

01 agosto 2006

OS LÍDERES CARISMÁTICOS
“Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa”. (Schopenhauer)
Era uma vez um sujeito humilde, que resolveu entrar para o Partido dos Trabalhadores, logo no começo de sua existência. Foi praticamente um dos fundadores do partido. Tamanha era sua influência sobre os demais membros, que logo se tornou o maior líder dentro do partido. Praticamente redigiu o programa que seria defendido pelo partido. Este programa era uma mistura de socialismo com nacionalismo.
O programa defendia a “obrigação do governo de prover aos cidadãos oportunidades adequadas de emprego e vida”. Alertava que “as atividades dos indivíduos não podem se chocar com os interesses da comunidade, devendo ficar limitadas e confinadas ao objetivo do bem geral”. Demandava o “fim do poder dos interesses financeiros”, assim como a “divisão dos lucros pelas grandes empresas”. Também demandava “uma grande expansão dos cuidados aos idosos” e alegava que “o governo deve oferecer uma educação pública muito mais abrangente e subsidiar a educação das crianças com pais pobres”. Defendia que “o governo deve assumir a melhoria da saúde pública protegendo as mães e filhos e proibindo o trabalho infantil”. Pregava uma “reforma agrária para que os pobres tivessem terra para plantar”. Combatia o “espírito materialista” e afirmava ser possível uma recuperação do povo “somente através da colocação do bem comum à frente do bem individual”. O meio defendido para tanto era o centralismo do poder.
O líder era muito carismático e sua retórica populista conquistava milhões de seguidores. Ele contava com um brilhante “marqueteiro”, que muito ajudava na roupagem do “messias restaurador”, enfeitiçando as massas. Foi projetada a imagem de um homem simples e modesto, de personalidade mágica e hipnotizadora, um incansável batalhador pelo bem-estar do seu povo. Seus devaneios megalomaníacos eram constantes. Sua propaganda política incluía constante apelo às emoções, repetindo idéias e conceitos de forma sistemática, usando frases estereotipadas e evitando ao máximo a objetividade. O Estado seria a locomotiva do crescimento econômico, da criação de empregos e do resgate do orgulho nacional. A liberdade individual era algo totalmente sem importância neste contexto.
Seu Partido dos Trabalhadores finalmente chegou ao poder, através da mesma democracia que era vista com desdém por seus membros. Uma “farsa” para tomar o poder. O real objetivo tinha sido conquistado. As táticas de lavagem cerebral tinham surtido efeito. Uma vez no governo, o líder foi concentrando mais e mais poder para o Estado, controlando a mídia, as empresas, tudo. Claro que o resultado foi catastrófico, como não poderia deixar de ser. O povo pagou uma elevada conta pelo sonho do “messias” que iria salvar a pátria.
O líder carismático descrito acima não é quem você está pensando. Ele é, na verdade, Adolf Hitler, líder do Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista da Alemanha, mais conhecido apenas como “nazistas”.
Schopenhauer estava certo no alerta da epígrafe. O diabo costuma se vestir de nobre altruísta. Os chifres aparecem somente depois que a vítima vendeu-lhe sua alma.
Aí já é tarde demais…

26 julho 2006

QUE SAIS-JE?

Quando, em pleno século XXI, assistimos, mais uma vez, à barbárie tomando conta do Oriente Médio, teatro macabro que mais se parece com um continuum de desvario, desinteligência, arrogância, ódio, rancor, somos obrigados a valorizar ainda mais o gênio do ensaísta francês Michel de Montaigne.
Nascido em 1533, publicou uma única, mas imorredoura, obra – Ensaios - quando tinha meros 36 anos. Nela, ele antecipa o que os nossos antropólogos, quatro séculos depois, viriam a chamar de “relativismo cultural”, uma das mais importantes ferramentas na luta contra os preconceitos e as intolerâncias.
Sua capacidade de ousar, inovar e pensar à frente da sua época (avant la lettre, diriam os franceses), é ainda mais notável quando se verifica que a publicação da obra ocorreu justamente no período de maior intolerância em seu país, culminando, três anos depois, no trágico Massacre da Noite de São Bartolomeu, episódio sangrento em que os reis franceses (católicos) reprimiram os protestantes (chamados de huguenotes).
As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, de 1572, e duraram até outubro, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 70.000 e 100.000 protestantes franceses.
Relatos dão conta de que, por um bom tempo, ninguém comia peixe, pois durante meses surgiam cadáveres boiando nos rios. É sabido, também, que o Papa Gregório XIII ficou muito feliz com a notícia do massacre, mandando que os sinos de Roma ressoassem para um dia de graças. Além disso, mandou cunhar uma medalha comemorativa em honra da ocasião e encomendou ao pintor Giorgio Vasari um mural celebrando o massacre.
Pois é nesse cenário de beligerância, cizânia, discórdia e hostilidade que o gênio de Montaigne consegue elaborar uma louvação à tolerância, à generosidade, à transigência, à concórdia.
Num dos ensaios, o 31° do primeiro livro, intitulado Deuses Canibais, o ensaísta revela as impressões colhidas em conversas com um seu serviçal, que vivera muito tempo naquela outra parte do mundo que Villegaignon chamou de França Antártica. “Não existe nada de bárbaro e de selvagem naquele povo (...) cada um chama de barbárie aquilo que não está nos seus costumes; como realmente parece que nós não temos outra pedra de toque da verdade e da razão senão o exemplo e a idéia das opiniões e das usanças dos países em que estamos. Nesse lugar encontram-se sempre a religião perfeita, o regime perfeito, o uso perfeito e refinado de cada coisa”.
Depois de lembrar das crueldades e desumanidades praticadas pela Santa Inquisição, Montaigne conclui: “Nós bem que podemos chamá-los de bárbaros, considerando as regras da razão, mas não com respeito a nós mesmos, que os superamos em toda espécie de barbárie”.
Com a agudização dos conflitos no Líbano e Israel e a aproximação dos embates eleitorais por aqui, vale lembrar a divisa que o sábio, e por isso humilde, Montaigne mandou estampar no seu brasão: "Que sei eu?".

19 julho 2006

INFÂNCIA PERPÉTUA OU CIDADANIA?
Nas páginas amarelas da revista Veja, edição de 28 de junho, o entrevistado foi o conceituado historiador inglês Paul Johnson.

Segundo ele, “só a criatividade pode garantir o progresso. O problema é que o homem tem uma propensão negativa a encontrar razões científicas ou morais para frear a criatividade, seja na economia, na política ou nas artes”.

Para esclarecer a dúvida sobre a possibilidade de a destrutividade anular a criatividade, ele afirma que isso acontece, e muito, e dá como exemplo “o marxismo, cuja contribuição para a humanidade foi totalmente negativa”, mas crê que, com liberdade de informação e de expressão, a tendência é que a criatividade ganhe a guerra. “São duas forças antagônicas, mas necessárias – são a tese e a antítese que vão gerar a síntese. Mas é vital que a criatividade – a tese – supere seu adversário e vença, pois só ela pode garantir o progresso”. Perguntado sobre a razão que leva o homem a ser negativista, disse apenas: “O medo, esse é o maior estimulador do atraso”.
Com a proximidade do horário eleitoral, certamente vamos ser bombardeados com milhares de informações, contra-informações, desinformações. Para conseguir sobreviver com alguma lucidez desse tiroteio, habilmente manipulado por marqueteiros de ambos os lados, é fundamental termos uma tábua de valores para nos guiar nesse bangue-bangue labiríntico.
O psicólogo norte-americano Aaron Beck (esq.) formulou o conceito de “pensamento automático”. De acordo com ele, como o cérebro humano não é capaz de analisar detalhadamente cada situação, cria alguns esquemas prévios e acaba se viciando neles. Às vezes, esse vício é tão forte que o cérebro deixa de levar em consideração os dados reais, criando o que ele definiu como “distorções cognitivas”. É contra isso que devemos nos precaver.


Nem tudo é branco nem tudo é negro. Especialmente nessa área – a política -, quase tudo é sempre cinza.

Por exemplo: a reeleição é boa ou má? Depende! Reeleger quem traiu suas promessas é um absurdo, mas reconduzir ao cargo quem as cumpriu e demonstra ter uma nova e boa plataforma, de continuidade ou de aperfeiçoamento, é prova de inteligência e maturidade cívica.


Outro exemplo: todos os políticos prometem as mesmas coisas, não dá para confiar em nenhum. Calma lá! Enquanto alguns passam a vida fazendo bravatas e prometendo o impossível, e quando chegam lá negam tudo o que pregaram, outros, quando na oposição, preferem ser econômicos nas críticas preferindo defender propostas e alternativas.

É óbvio que o preparo intelectual, a experiência e a honestidade são importantes, talvez até mesmo fundamentais, mas isso são pré-requisitos, condições sine qua non para se levar alguém a sério. Mas, então, como escolher o melhor?


Um dos maiores pensadores das sociedades, o francês Alexis de Tocqueville (esq.), ao comparar a sua conturbada França com a América, pujante e vigorosa, que tão bem estudou, lamenta o destino de seu país: “Acima dessa multidão vejo alçar-se um imenso poder tutelar, que sozinho ocupa-se em assegurar aos súditos o bem-estar e em zelar pela sua sorte. Pareceria com a autoridade paterna se tivesse como objetivo a preparação dos homens à virilidade. Mas, pelo contrário, busca somente mantê-los numa infância perpétua”.

Aí está um excelente critério para decidir entre candidatos que, “aparentemente”, prometem as mesmas coisas.

Qual deles tem medo do novo e, por isso, prefere não arriscar nada, mas apenas manter o passado congelado? Será mesmo que os juros não podem baixar? Nada revolucionário, apenas cortá-los pela metade, e, ainda assim, ficar acima do segundo maior juro do mundo. Será que alguém de boa fé, sem interesses meramente eleitoreiros, pode defender a volta da velha e desmoralizada centralização administrativa, que tantos males já nos causou?

Qual deles me considera tutelável, incapaz de participar e decidir como um cidadão dotado de criatividade e virilidade suficientes para contribuir com o desenvolvimento do meu País, do meu estado? Será que as bolsa-isso, bolsa-aquilo representam um projeto de Nação, ou será que podemos almejar algo além desse horizonte africano para o nosso País? Será que alguém honesto intelectualmente pode defender o fim da participação da sociedade nos conselhos que definem onde e como aplicar os recursos das suas regionais?

"Existem duas maneiras de se passar pela vida sem problemas: acreditar em tudo ou duvidar de tudo; de ambos os modos se evita pensar", diz o lingüista polonês Alfred Korzybski.

Não acredite em tudo nem duvide de tudo. Pense bem antes de votar.

17 julho 2006

HADLEYBURG E O PT, TUDO A VER
O escritor norte-americano Mark Twain, autor das conhecidíssimas aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, tem uma faceta pouco conhecida. Ele foi um dos mais ardorosos e contundentes críticos do imperialismo do seu próprio país, tendo publicado dezenas de panfletos que atacavam as ações ianques nas Filipinas, Panamá, México, Cuba, Nicarágua, República Dominicana. “Eu me recuso a aceitar que a águia crave suas garras em outras terras”, sentenciava. Acusado de traição, retrucava: “Eu gostaria de ensinar o patriotismo nas escolas, e o ensinaria assim: jogaria fora a velha máxima ´Minha Pátria, certa ou errada, minha Pátria´, e em seu lugar diria ´Minha Pátria, quando certa´”.
Twain foi, também, um analista feroz do hipócrita american way of life. Escrita em 1899, “O Homem que Corrompeu Hadleyburg” é considerada uma de suas mais brilhantes histórias. Nela ele aborda o processo de derrocada moral de uma pequena cidade, até então considerada um reduto de excelência de conduta. “Hadleyburg era a cidade mais honesta e honrada de toda a região. Já mantinha esta reputação imaculada havia três gerações (...) As cidades vizinhas tinham inveja dessa honrada supremacia (...) mas, mesmo assim, eram obrigadas a reconhecer que era uma cidade realmente incorruptível”. Assim começa a história da aparentemente pura e imaculada Hadleyburg, que, graças à engenhosidade da trama urdida por Twain, não resiste a parcas 50 páginas antes de revelar-se a mais mentirosa, corrupta e desprezível das cidades. Hadleyburg, no fundo, era uma farsa grotesca.

Assim como já vimos nos filmes "Beleza Americana” e “Dogville”, sob a carapaça virtuosa escondiam-se as mais abjetas pulsões anímicas, sem falar das visíveis - a arrogância a toda prova, a auto-suficiência insolente, a pedanteria desaforada. Quem destampou a caixa de Pandora daquele pequeno burgo foi um estrangeiro que, de passagem por lá, foi ofendido e humilhado por um dos seus ilustres membros. Rancoroso, durante um ano ele arquiteta sua vingança: corromper Hadleyburg!!! Depois de espalhar suas ardilosas armadilhas, as tentações pelo vil metal ganham corpo celeremente no povoado. Enquanto são facilmente derrubadas as máscaras, armaduras e carapuças dos 19 principais cidadãos, das 19 principais famílias, eles continuam recitando, maquinalmente, o mantra que ainda impregna suas mentes: “Não nos deixeis cair em tentação”. Mas, ao fim e ao cabo, vence a natureza humana, impondo-se, implacavelmente, sobre aquela frágil e débil pureza nunca antes testada. Todos se revelam torpes, vis, malignos, ignóbeis, desprezíveis, indignos, imorais, desonestos, aéticos.

Ao reler essa deliciosa história, não pude resistir à imediata correlação com o PT e sua história – vestais imaculadas transfiguradas em lambuzados mensaleiros, santarrões virginais metamorfoseados em quebradores de sigilo, torquemadas e savonarolas convertidos à liturgia profana de Jeany Mary Corner, pregadores flagrados pecadores, presos políticos reduzidos a políticos presos (quem dera!).
Quando Twain fala dos 19 íntegros e impolutos, a reação quase automática é começar a recapitular a débâcle petista para checar se há também semelhança numérica entre as histórias: Benedita, José Dirceu, Waldomiro Diniz, Palocci, Juscelino Dourado, Rogério Buratti, Gushiken, Genoíno, Delúbio, Silvio Pereira, Marcelo Sereno, Henrique Pizzolatto, Jorge Mattoso, Okamoto, João Paulo Cunha, José Mentor, Josias Gomes, Paulo Rocha, Duda Mendonça - dezenove! BINGO! -, mas poderia ser bem mais, se incluíssemos o homem-cueca, os bispos aliados et caterva...
Sucumbindo ao humor corrosivo de Twain, diria que essa súcia parece pautar-se no lema do desabusado Tim Maia: "Não fumo, não bebo, não cheiro; só minto um pouco".
A farsa do PT pode ser bem entendida a partir do que disse o poeta norte-americano Stephen Vincent Benét: "Se a idéia é boa ela sobreviverá à derrota. Se ela for mesmo boa, pode sobreviver até à vitória". Como se sabe, o PT sobreviveu a várias derrotas, mas foi incapaz de resistir à vitória.Diante desse cenário devastador, desintegrador de valores e desarticulador das instituições, talvez só reste apelar para a farmacopéia moral disponível nas estantes dos tempos: Demócrates: “Tudo está perdido quando os maus servem de exemplo e os bons de deboche”. Jean-Paul de Gondi, cardeal de Retz: "Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”. Nathaniel Lee: "Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando". Disraeli: "O momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas!!!".
Mas, talvez, a melhor solução seja aquela sugerida (em tom de blague) pelo publicitário norte-americano Bill Bernbach:
Tenho uma grande idéia: vamos dizer a verdade!”.