23 janeiro 2007

SIM, DESCENTRALIZAR NÃO É SÓ FAZER OBRAS!

RÉPLICA
O artigo “Descentralização não é só fazer obras”, do jornalista e professor Laudelino José Sarda, está correto na concepção, mas equivocado na avaliação que apresenta. O conceito de que o governo não pode ser só um executor de obras, mas deve ser promotor de uma revolução, é perfeito. O texto que pretende nutrir-se do conceito, porém, contraria o princípio básico do jornalismo de checar as informações. Seu pecado foi ter escrito sobre descentralização sem descentralizar seu olhar. Um texto de gabinete, escrito a partir de Florianópolis, pode até ser conceitualmente válido, mas colide frontalmente com a realidade. Dizer, por exemplo, que nossas escolas têm desempenho equivalente às dos anos 70 é desconhecer que, hoje, todas elas estão informatizadas e com acesso à internet.
Se o nobre jornalista se desse ao trabalho de circular pelos nossos interiores perceberia que há uma profunda e silenciosa revolução em marcha.
É revolucionário o princípio básico das SDRs de estabelecer um inédito processo de discussão comunitária, desde a diagnose dos problemas até a definição das soluções, valorizando o conhecimento local (tradicional ou técnico), as especificidades, valores e características próprias, de modo a fortalecer a massa crítica local.
É revolucionário o papel das SDRs quando buscam, para além dos convênios e alocações de recursos, o planejamento, a articulação e a indução, levando cada região a agir de forma sinérgica, seja na eleição de prioridades, seja na definição das soluções mais adequadas e criativas.
É revolucionária a elaboração de 30 Planos de Desenvolvimento Regional, feitos com metodologia e orientação técnica do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Vale dizer que Santa Catarina é o único estado brasileiro que conta com um escritório desta entidade, graças à empolgação com o que consideram “uma verdadeira revolução na gestão administrativa governamental”, digna de ser acompanhada e, depois, difundida pelo resto do país.
É revolucionária a participação de milhares de pessoas, dos mais diversos setores da sociedade, organizados em Comitês Temáticos (de cultura, turismo, educação, saúde, agricultura, pesca, planejamento) que elaboraram 30 diagnósticos que espelham 30 realidades diferentes e 30 projetos com propostas específicas, validadas pelo universo de participantes que as elaboraram e aprovadas pelos respectivos Conselhos de Desenvolvimento Regional.
É revolucionário um método que tem por base a formação de agentes locais do desenvolvimento, a valorização da cultura, das vocações e das características locais, numa construção de baixo para cima que exigiu milhares de reuniões, que identificaram milhares de líderes e os capacitou para a tarefa de serem condutores desse processo.
Diferente da visão distante e, por isso, distorcida, que o jornalista apresenta, a realidade é que muitas obras (mais adequadas, rápidas e baratas) já foram entregues, mudando radicalmente a vida dos que delas se beneficiaram, outras estão por ser concluídas, mas a auto-estima, o sentido de pertencimento, a consciência e o orgulho pela participação no processo, isso já foi alcançado!
O equívoco central da avaliação do professor Sarda está na frase “o homem do campo está em desalento, o jovem em devaneio com a esperança de migrar para outro Estado”.
Errado! A evolução do emprego revela que 2/3 dos novos postos de trabalho surgiram no interior. A evolução do eleitorado revela que as cidades que estavam perdendo gente para o litoral voltaram a se recuperar. Se o professor Sardá rodasse mais pelos nossos interiores conheceria, por exemplo, a família do agricultor Amadeu Artismo, de São Joaquim, cujos três filhos retornaram do litoral para o campo e, hoje, estão empolgados com a atividade agrícola. Ou o caso do agricultor João Alves do Prado, cuja esposa, diabética, diariamente tinha de andar alguns quilômetros para tomar a sua injeção de insulina, acondicionada na geladeira mais próxima antes de receber luz em sua propriedade. Tudo isso é fruto dos acessos asfaltados aos municípios, da amplitude do Programa Luz no Campo (no qual o Estado entra com 87% dos recursos), da descentralização da Saúde, do Microbacias, enfim, dos investimentos por toda Santa Catarina. E, com certeza, da participação comunitária nos Conselhos de Desenvolvimento.
A revolução da descentralização começa por mudar radicalmente a cultura política, os fluxos e influxos de poder. E isso já é uma realidade. O estado – tanto o geográfico quanto o institucional –é, hoje, uma ebulição de regiões alforriadas que pensam e decidem por si.
Quem só conhece o estado a partir de Florianópolis, fica com a impressão equivocada de que tudo não passa de marketing. Só quem se embrenha pelos interiores conhece a realidade.
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OBJETO DA RÉPLICA
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Descentralizar não é só fazer obras
A argumentação política do governador Luiz Henrique em defesa da descentralização administrativa está correta, até porque os modelos de gestão pública praticados ao longo dos últimos 60 anos - excetos os de Hercílio Luz, Celso Ramos e Colombo Salles - foram responsáveis pela desintegração que impede Santa Catarina de ter uma identidade cultural. Somos um Estado pequeno - 1% do território brasileiro - e, no entanto, identificados apenas por eventos e pela beleza natural. Alemães, italianos, açorianos e polacos estão espalhados por todo o País, motivo pelo qual não podem ser a nossa diferença. Poderiam, sim, somar a uma diferença que não existe. Somos um arquipélago de etnias.
Mas o plano de descentralização é diferente da argumentação política e, por isso, equivocado. O que prevaleceu nos últimos quatro anos foi uma quantidade de projetos regionais colocados na peneira financeira do governo. Faltou um plano de mudanças profundas e viáveis para revolucionar o processo de produção econômica e as bases da educação, da saúde e da cultura.
As campanhas publicitárias que exibem nossas belezas naturais e que tentam nos induzir a um narcisismo coletivo são bem produzidas, mas insuficientes diante de uma realidade em que não há perspectivas de mudanças. O homem do campo está em desalento, o jovem em devaneio com a esperança de migrar para outro Estado, enfim, somos uma roda-vida na ansiedade de quebrar as rotinas. E o governo só realimentou essas rotinas com obras e mais obras. Falta uma revolução para produzir diferenças que façam o povo sentir-se catarina, feliz, otimista e perseverante. Chega de marketing! Adianta uma organização social exibir beleza se seus integrantes não sentem com firmeza e orgulho a sua identidade?
A construção de estradas, escolas e centros de saúde deveria decorrer de exigências naturais de um planejamento estratégico. O governo não pode ser só um executor de obras. Cabe-lhe responder pela organização e futuro do Estado. É imprescindível, por exemplo, a revitalização da economia, readequando-a às exigências do terceiro milênio. O modelo industrial está falido e as marcas fortes, com algumas exceções, já não pertencem mais a catarinenses. Tampouco adianta falar em era do conhecimento se as escolas têm desempenho equivalente ao dos anos 70. O governo não pode abrir mão de uma revolução educacional integrada.
Luiz Henrique precisa decidir se continua com a descentralização político-partidária e ser mais um na galeria dos governadores ou se enriquece a sua carreira política como o autor de uma revolução para mostrar que a gestão pública só carece de inovação e determinação.
Laudelino José Sardá,jornalista e professor/sarda@unisul.br

11 janeiro 2007

BOM COMEÇO


Lembro-me, como se fosse hoje, de uma conversa que mantive com meu colega de governo Montoro (1983-86), o secretário de Justiça José Carlos Dias. Perguntei-lhe por que razão não se vendia (por metro quadrado, valorizadíssimo) a imensa área (430 mil m2) da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru. Completei meu raciocínio argumentando que, com o dinheiro apurado, seria possível comprar (por alqueire) dezenas de áreas rurais para a construção de penitenciárias agrícolas. Não me recordo qual foi a resposta, mas estou certo de que não foi satisfatória. Tivesse sido ouvido, teria sido evitada a tragédia dos 111 presos chacinados em um de seus tenebrosos pavilhões.


Também me lembro de haver discutido várias vezes com autoridades de Joinville sobre a equivocada localização do 62° BI, em área nobilíssima da cidade. Minha lógica continuava a mesma: por que não sugerir ao Governo Federal que o imóvel fosse vendido a incorporadores (por metro quadrado, valorizadíssimo) e, com os recursos auferidos, compradas (por alqueire) áreas rurais para onde poderiam ser transferidas as instalações? Mais uma vez, as respostas que obtive foram insatisfatórias. O detalhe grotesco fica por conta do risco envolvido nas corridas diárias realizadas pelos soldados, que são obrigados a fazê-lo em ruas e avenidas supermovimentadas, em meio a transeuntes, carros e ônibus, e, pior, incomodando moradores, em suas casas, e profissionais, em seus escritórios, com seus gritos-de-guerra entoados a plenos pulmões.

Recém-chegado a Florianópolis, voltei a me surpreender, desta feita com a localização das majestosas instalações da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada, em plena Rua Bocaiúva, mais uma vez em área valorizadíssima, se imaginarmos sua utilização para empreendimentos imobiliários, e mais valiosa ainda se transformada em jardim botânico, conforme antiga proposta do vereador André Freysleben, o que garantiria uma maravilhosa área verde e um importante pulmão bem no coração da Capital. Como todas as minhas tentativas, a do vereador também morreu na praia, no caso, literalmente.

Infelizmente, aquilo que, para nós, pobres mortais, ulula ensurdecedoramente de tão óbvio, parece não sensibilizar os donos do poder, nem os move nem os comove.

Daí porque fiquei tão agradavelmente surpreso com as decisões tomadas por dois governadores recém-eleitos, José Serra, de São Paulo, e o nosso Luiz Henrique.

Disposto a ampliar a capacidade de investimento do Estado, Serra lançou um grande "Programa de Desimobilização" que pretende desalienar 329 imóveis e edificações do patrimônio paulista, gerando, com isso, mais de R$ 300 milhões de receita que serão investidos em obras.

A iniciativa do governador Luiz Henrique tem o mesmo sentido, a ampliação da capacidade de investimento do Estado, mas traz um importante componente a mais. A venda de delegacias, presídios e penitenciárias localizadas em áreas centrais e valorizadas, como a Penitenciária Estadual de Florianópolis e delegacias como as de Tubarão, Balneário Camboriú e Itajaí, além de terem o potencial de gerar divisas para novos investimentos no setor, ainda trará, como benefício paralelo, a retirada dessas áreas de risco social dos espaços centrais das cidades.

Começam bem aqueles que se dispõem a despatrimonializar o Estado, transformando em recursos aplicáveis aquilo que permanece “deitado em berço esplêndido” , sem produzir nada de bom para a comunidade.

04 janeiro 2007

NENHUM HOMEM É UMA ILHA


Em seu livro “Criatividade e Grupos Criativos”, o sociólogo italiano Domenico De Masi faz um interessante relato do desenvolvimento do cérebro humano.


Segundo ele, “para que suas funções atingissem o volume, a complexidade e a sofisticada perfeição que o tomaram superior a todos os outros cérebros de todas as outras espécies animais, foram necessárias dezenas de milhões de anos, durante os quais a massa encefálica e a caixa craniana cresceram de modo constante, não uniformemente acelerado e tão lentamente de maneira a ser perceptível somente a intervalos de milhares de milênios. No estágio atual desse longo processo, ainda em curso, a distinção e a relação entre o cérebro e a mente nos parece ser somente um pouco mais claro do que eram para Descartes”.

De Masi prossegue seu relato descrevendo o cérebro como “um órgão bastante tangível, pesando entre 1.200 e 1.800 gramas, composto por milhares de bilhões de células, das quais cem bilhões são neurônios, estruturados de modo diverso com todos os seus dendritos e axônios, os seus neurotransmissores, as suas sinapses e os seus impulsos nervosos que viajam a uma velocidade de 100 metros por segundo, com a sua plasticidade e a sua variedade estrutural, funcional e molecular, composto por células que se comunicam entre si, que se organizam em rede e modificam gradualmente as próprias conexões, com base na experiência”.


A mente, por outro lado, seria aquela “entidade impalpável, feita de consciência de si, imaginação, memória, emoção, estados de ânimo, impulsos, inclinações, desejos, aprendizado, inteligência e criatividade. A mente, enfim, que deveria ser o fruto do cérebro, mas que a muitos parece ser irredutível ao funcionamento de um órgão, por mais complexo que ele seja”.


O cérebro humano teria crescido “quantitativamente até quando cada indivíduo podia contar só consigo mesmo para investigar e descobrir todos os métodos necessários à sua sobrevivência e para memorizar todas as experiências adquiridas. Depois que o Homo Sapiens aprendeu a usar os seus semelhantes, as máquinas, a escritura, a arte, a ciência e as técnicas a fim de delegar a outras pessoas e a outras coisas uma parte crescente das suas funções cerebrais, o encéfalo teria cessado de crescer quantitativamente, talvez porque já não tivesse mais essa necessidade”.


A conclusão de De Masi é interessante: “Hoje nosso cérebro é composto também pelo cérebro dos nossos colaboradores e dos nossos amigos, é constituído pelos nossos livros e pelos livros deles, pelo nosso computador e pelos deles, é formado pelo nosso relógio, pelo nosso celular, pela nossa secretária eletrônica, pelos nossos discos e pela internet, à qual nos conectamos. Em positivo e em negativo, tudo aquilo que criamos não é criado somente por nós, mas também por todas essas pessoas e por essas próteses cerebrais. Da mesma forma, os livros que escrevemos não são de nossa exclusiva autoria, mas são produzidos e ´editados´ por nós. Talvez obra alguma possa ser inteiramente atribuída a quem a assina, nem mesmo aqueles últimos e incríveis quartetos de Beethoven, compostos quando ele já era surdo há vários anos, ou ainda os “Ensaios” precursores de Michel de Montaigne, escritos quando ele já estava há muitos anos recluso no seu castelo solitário”.


Ou seja, para De Masi a criatividade individual, em pleno século 21, não passaria de uma abstração ou um delírio de onipotência. Mais do que nunca, faz todo sentido a frase do poeta inglês John Donne que, lá no seu século 17, dizia, lindamente, que “nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo”.


Certamente foi pensando nessas idéias do seu amigo De Masi que, na cerimônia de posse do novo secretariado, o Governador Luiz Henrique fez questão de sintetizá-las e reafirmá-las com as seguintes palavras: “Cada setor do Governo é como uma peça da engrenagem. Para que o engenho todo ande rápido, é preciso que cada componente funcione com exatidão. Fujam do individualismo. Ao invés de enxergarem a sua árvore, procurem, sempre, enxergar toda a floresta. O governador e o vice são apenas os maestros da orquestra. De nada nos adiantará o esforço e a luta se não houver harmonia no conjunto. Quero um governo moderno e eficiente, sem papelório, sem carimbório, sem ´burrocracia´”.


Assim seja.
DE ULYSSES PARA LUIZ HENRIQUE


- Como vai, meu velho amigo?
Quanta saudade!

- Quem me trouxe novidades aí da sua bela Santa Catarina foi o Jacó Anderle. Disse que você se elegeu governador e está descentralizando a administração e desconcentrando o poder, sua eterna e corretíssima obsessão. Parabéns! Estamos todos muito orgulhosos - eu, Mora, Covas, Montoro, Serjão, Archer, Severo, enfim, todos os seus amigos mais apressados para se aposentar aqui neste outro Paraíso.


- Mas ele também estava angustiado com o país e explicou suas razões. E eu que pensei que já tinha visto tudo na política...


- Deputados alugados? Vampiros e sanguessugas? Ministros denunciados como chefe e membro de quadrilha? Ministro quebrando sigilo de um humilde caseiro? Três presidentes do PT acusados de crimes? Ameaças à liberdade de imprensa, de novo? Valha-me Deus!


- Para acalmar o Jacó, saquei do meu baú trechos de uma palestra que proferi aí em Florianópolis, no dia 18 de junho de 1976, encerrando o primeiro simpósio organizado pelo Instituto Pedroso Horta, cujo tema era "O Homem e a Liberdade". Veja se não são pertinentes:

"O poder não é perigoso. Perigoso é seu exercício por homens imperfeitos, egoístas, vítimas de apoteose mental ou do culto à personalidade".
"Não se precavendo, submete-se ao regime da permissividade, em que ao Príncipe tudo é possível e à vida e às necessidades dos cidadãos só resta a angustiosa e inerte espera de outorgas paternalistas e munificentes".
"Judge Black captou a substância dos duzentos anos de vigência da Democracia nos Estados Unidos, sem golpe nem ditadores: ´É esse direito, o direito de errar, que nos mantém fortes como Nação´".
"A força da democracia é a institucionalização de sua fraqueza humana, a humildade com que confessa a fatalidade do erro e inventa dispositivos para evitá-los, diminuí-los, denunciá-los e corrigi-los".
"Há homens que vivem contentes, mesmo que vivam sem decoro. Há outros que sofrem como em agonia quando vêem que há homens que a seu redor vivem sem decoro. Quando há muitos homens sem decoro, há sempre outros que têm em si o decoro de muitos homens".


- Portanto, caro amigo, não se impressione com as árvores, fixe-se na floresta, como sempre fez. Dentro da democracia, tudo se resolve, ao contrário da ditadura, onde pululam e ficam impunes os Calígulas sanguinários, os Torquemadas da Inquisição e da intolerância, os enxudiosos Faruks da corrupção.


- Antes de vir para cá, o Serjão deixou um bilhete para o Fernando aconselhando-o que não se apequenasse. Não preciso lhe dar esse conselho, Luiz, pois sempre admirei sua estatura moral e sua inflexibilidade com a questão ética. 


- Mas, diante das notícias que chegam por aqui (as mais recentes quem trouxe foi o Ramez Tebet), vou arriscar um conselho. Louvo sua fidelidade ao nosso velho MDB, que, apesar de tudo, decidiu apoiar o governo Lula. Não sei se foi a melhor opção, mas, como estou longe da lida e da faina diária, não me atrevo a vituperar contra a decisão tomada. Ainda assim, pelos indícios e sintomas que me foram relatados, creio que mereça ser dada atenção máxima a qualquer ameaça à liberdade de imprensa, pois, sem ela, tudo o mais cai por terra. Esse é o único limite que não pode ser ultrapassado.


- Um grande abraço do seu sempre amigo, Ulysses.


- E não se apresse em vir nos encontrar... Você ainda tem muito a fazer pelo seu Estado e pelo Brasil.

20 dezembro 2006

QUE TIPO DE ANO TIVEMOS?


Chegam a ser enfadonhos os constantes e repetidos alertas sobre a importância da Educação para o desenvolvimento, a redução das desigualdades, a inclusão dos deserdados, enfim, para que alcancemos o que grande parte dos outros países emergentes já está conseguindo, graças a uma opção clara pela Educação. Porém, como dizia o escritor francês André Gide: “Todas as coisas já foram ditas, mas, como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar”.




No seu livro “Degraus”, da primeira década do século passado, o poeta e escritor alemão Christian Morgenstern dava um sábio conselho: “O melhor método de educação para uma criança é arranjar-lhe uma boa mãe”. Decorridos cem anos, no início deste século uma pesquisa internacional revelou que crianças nascidas em famílias com grau universitário, que cultivam o hábito da leitura e ajudam os filhos nas tarefas escolares tinham suas chances de sucesso multiplicadas.

Também já se transformou num truísmo a constatação de que não há melhor e mais eficaz método de controle de natalidade do que a Educação. O simples fato de a mulher ser mais bem informada dos seus direitos, métodos disponíveis, conseqüências advindas da maternidade, dificuldades financeiras resultantes de suas gestações a torna mais cautelosa nas suas decisões. Também a elevação das suas exigências em relação ao futuro da prole funciona como um poderoso freio, assim como o desencantamento do mundo, propiciado pelas luzes da racionalidade, espanta o velho espectro do fatalismo: “É Deus quem quer!”.
Há poucos dias, os telejornais noticiaram o resultado de uma pesquisa que, mais uma vez, comprova a crueldade representada pela ignorância. Pouquíssimos pobres compram remédios genéricos, largamente utilizados pela classe média. A razão? Desinformação, desconhecimento, deseducação! Um exemplo de política social estrutural, que deveria beneficiar os mais pobres, sem transformá-los em escravos dependentes, mas dando-lhe um Direito contínuo e não sujeito a explorações politiqueiras, acabou servindo à classe média, que sabe decodificar os sinais, que conhece os códigos embutidos nessa operação.

Até por ter tudo a ver com o tema acima abordado, não posso deixar de comentar, também, o absurdo atentado praticado pelos nossos parlamentares, que pretendiam se autoconceder um aumento de 90% em seus vencimentos.
Felizmente, alguns poucos e dignos deputados reagiram e fizeram com que o STF considerasse inconstitucional aquela aberração, verdadeiro acinte contra os cidadãos trabalhadores e pagadores de impostos.
No entanto, uma grave questão permanece solta no ar: de que vale o empenho e a luta por fazer das nossas escolas verdadeiras usinas de cidadãos honrados e conscientes se o exemplo que lhes vem do alto é, geralmente, moralmente pervertido, eticamente corrompido?

Sobre isso, o músico, filósofo, teólogo, médico e missionário alemão Albert Schweitzer, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1952 e um dos precursores da Bioética, era cirúrgico, preciso, certeiro: “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única”.


Há poucos dias, Lula recebeu o título de “Homem do Ano” da revista Istoé, aquela mesma que alugou suas páginas para que os “aloprados” petistas plantassem uma denúncia falsa com o objetivo de melar a eleição paulista. No caso, cabe como uma luva a boutade: “Ele foi eleito o Homem do Ano. Para você ver que tipo de ano tivemos!”.

A conclusão pessimista é de que “a mais árdua tarefa das crianças hoje em dia é aprender boas maneiras sem ver nenhuma”, frase atribuída a Fred Astaire, que se, de fato, for seu autor, agrega mais uma à sua coleção de virtudes.

A conclusão otimista é de que a sociedade, que às vezes parece adormecida, enfeitiçada, entorpecida, como se viu na reeleição de Lula e de tantos mensaleiros, vez por outra resolve dar um basta! ao excesso de canalhices que nos infelicita.
Adeus, 2006! Já vais tarde!
Bem-vindo, 2007!

13 dezembro 2006

GIPSÓFILAS & JABACULÊS


Todos os anos, em meados de abril, milhares de pessoas invadem os bosques franceses em busca daquela delicada flor branquinha, com que se costuma rechear ramalhetes, chamada gipsófila. É tradição naquele país presentear-se os amigos com ramos dessa flor no feriado de 1º de maio, Dia do Trabalho.

Inteligentemente, o Partido Comunista Francês se aproveitava desse costume para mobilizar seus militantes em torno da colheita, cuja renda revertia integralmente para os seus cofres. Segundo informações do próprio PCF, em 2004 a colheita teria produzido um milhão de pequenos vasos, que teriam gerado uma receita de Є$ 1,5 milhão de euros (R$ 5,4 milhões de reais).

Tudo muito bonito e poético, não fosse a revista francesa "Capital" resolver ouvir um especialista no cultivo de gipsófila que garantiu ser impossível colher tantas flores em tempo tão exíguo. Diante dessa informação, e depois de minuciosa investigação, reportagem de capa da edição de fevereiro de 2004 concluía que a gipsófila era, simplesmente, a mais poética das formas de se lavar dinheiro sujo.

Tipicamente francês, eu diria. Afinal, foi um conterrâneo, o moralista La Rochefoucauld, quem cunhou a famosa expressão "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude".

Por aqui, também já houve um tempo em que o assovio da poesia e o véu da hipocrisia ocultavam os vícios, simulando a virtude. Era o tempo dos broches, das camisetas, dos bonés que, como a inocente gipsófila, funcionavam como lavanderia dos recursos amealhados em prefeituras companheiras.

Hoje, porém, os escrúpulos foram mandados às favas, optando-se pelo cinismo debochado, pelo escracho escancarado, pela esculhambação desabrida. Não há mais preocupação sequer com as aparências, apenas com os resultados.

A eleição presidencial deste ano teve uma escandalosa quantidade de vícios que macularam o processo eleitoral, distribuindo benesses claramente programadas e agendadas com esse objetivo.

Ou terá sido coincidência que, depois de três anos de reajustes pífios, a elevação do salário mínimo este ano tenha sido de 16,7% para uma inflação de cerca de 5%?

Ou terá sido coincidência a antecipação para setembro do pagamento de metade do 13º salário dos aposentados e pensionistas do INSS?

Ou terá sido coincidência a concessão de reajustes a mais de 110 mil servidores públicos, a um custo de R$ 5,2 bilhões, inclusive atropelando critérios como o da equivalência salarial com o setor privado?

Ou terá sido coincidência a ampliação do Bolsa-Família, cujo número de beneficiárias passou de 8,3 milhões para 11,1 milhões só neste ano?

Pelo andar da carruagem, parece que todos esses malfeitos, além das doações ilegais, serão perdoados pelos nossos tribunais, impondo-nos mais 4 longos anos de desgoverno. Mas que fique bem claro que o que se praticou nessa campanha foi o velho “é dando que se recebe”, o carcomido jabaculê, vulgo jabá, fantasiados de "tudo pelo social".

Voltando aos franceses, era neles que pensava o guru petista Carlito Maia quando dizia "quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita". Felizmente, seis meses antes do início da era Lula ele preferiu juntar-se aos seus velhos amigos Henfil e Betinho. Privou-se do desconforto de ver confirmadas as suas imprecações contra a esquerda francesa justamente pelas mãos dos seus fiéis companheiros, a quem doara a criação do slogan “oPTei”.

Se vivo fosse, certamente desoptaria, por coerência e aversão à hipocrisia.















07 dezembro 2006

SÓ SEI QUE NADA SEI


Às vésperas do século XXI, pipocaram no mundo inteiro listas de todos os tipos e gêneros, elegendo os maiores e melhores do século XX em todas as áreas. Os resultados, em geral, mereciam boa aceitação quando se tratava de questões técnicas, tecnológicas ou científicas e muita contestação quando se referiam a obras de arte. Compreensível, afinal, uma é, de fato, mais objetiva, outra, sem dúvida, mais subjetiva.


Lembro-me de ter lido, com enorme surpresa, a relação das obras-primas da literatura alemã do século XX. Para meu espanto, na opinião dos 33 autores, 33 críticos e 33 germanistas mais importantes daquele país o melhor romance alemão do século que findava era "O Homem sem Qualidades", de um austríaco (?) chamado Robert Musil.

Senti-me profundamente ignorante, pois jamais havia sequer ouvido falar nesse senhor Musil, quanto mais lido alguma obra sua. Quanto ao fato de ter sido eleito o mais importante autor alemão do século XX, bem, aí já era uma quase desmoralização de alguém que se julgava culto (leitor de Goethe, Kafka e Thomas Mann) e bem informado (ávido leitor de jornais e revistas desde os 14 anos).


Humilhante!


Evidentemente, Goethe não era concorrente, por ser do século 19. E se fosse, teria de ser hors concours. Mas e os meus velhos conhecidos e preferidos Thomas Mann e Kafka?


O pior de tudo é que Musil não só aparecia em primeiro lugar, mas com larga vantagem sobre o segundo colocado, "O Processo", de Kafka. O terceiro da lista era "A Montanha Mágica", de Thomas Mann, que, por sinal, emplacou mais dois entre os dez - "Os Budenbrook", sétimo colocado, e "Doutor Fausto", em décimo lugar.


Vez por outra, esse tipo de tapa na cara é extremamente bem-vindo, pois nos faz ver como somos pequenos diante da vastidão da obra humana e da infinitude da obra divina. Traz-nos à lembrança o princípio socrático da sabedoria – “Só sei que nada sei” -, que nos leva à humilde atitude de tentar superar o saber enganoso, baseado em idéias pré-concebidas.


Ao terminar o livro, com seis anos de atraso, justificado pela preguiça de enfrentar suas 1273 páginas, entendi os motivos que levaram muitos críticos a considerar este austríaco um dos mais importantes escritores da primeira metade do século XX, comparável a Proust e Joyce. Seu talento psicológico para decifrar a alma humana e as dificuldades no enfrentamento com a vertigem do vazio da era moderna, é incomparável.


Para Musil, as qualidades cristalizaram-se sem autoridade para tanto. Cada um se apega a uma personagem particular – professor, operário, empresário - e seu universo de signos e significantes, fechando-se a tudo o que a vida tem de dissonante, criativo e espontâneo.


Contra isso se contrapõe o homem sem qualidades, que, desembaraçando-se de todas as convenções, posturas sociais, conteúdos intelectuais e morais, máscaras de identidade, sentimentos e emoções difundidos em seu entorno, sexualidade canalizada nos diques do socialmente aceito, volta ao grau zero da disponibilidade e constrói sua vida se opondo a todo automatismo e a todo lugar-comum da inteligência, da vida afetiva e do comportamento.


O homem sem qualidades de Musil reivindica a própria disponibilidade, sem prévias adesões compulsórias a supostas causas, sagradas ou não, a determinadas normas de conduta, ditadas como eternas e pensadas para reger a sucessão de gerações, supostamente idênticas umas às outras.


O homem sem qualidades representaria não uma forma de egoísmo ou um modo de virar as costas para a realidade, mas uma saudável desconfiança quanto ao consabido, ao irrefletido, ao imposto pela esmagadora inércia do mundo.


O homem sem qualidades é o protótipo do homem moderno, um homem de possibilidades, caracterizado pela abertura com relação a todos os atos possíveis da experiência e da interpretação de mundo.


O homem sem qualidades é um homem infinitamente possível, sempre outro, aberto a qualquer evolução em potencial.


O homem sem qualidades contribui com as reflexões sobre a crise e o estatuto do sujeito, bem com estimula a desconfiança sobre todas as ideologias que exaltam, sem maior precisão, seus discutíveis méritos.


Nesses tempos em que a burrice ideológica e as tentações totalitárias transformam a América Latina num arquipélago do atraso, ler esta obra-prima é um bálsamo para almas aflitas e um excelente exercício de desintoxicação mental.


Recomendo.

30 novembro 2006

POBRE SAUSSURRE!
(enviado como comentário ao blog do Reinaldo Azevedo no dia 30/11/2006)

Caríssimo Reinaldo,
Parece que estamos começando a ficar competitivos na "guerra de valores" que você tanto propugna. E pode ficar gabola e convencido, pois, certamente, você tem muito a ver com isso.
Digo isso sob os eflúvios nauseabundos do texto de Bernardo Kucinski, que gorjeia como um xexéu lá no arraiá dos "minhocartas". O texto pretende desfazer a idéia defendida pelo autor, em artigo anterior, de que a Radiobrás deveria se contrapor à narrativa de má qualidade da grande imprensa criando uma narrativa própria, mais ao gosto da sua grei. No entanto, ele se enreda ainda mais na teia confusa de suas idéias, pois parece não ter a mesma competência que os "profissionais" petistas da mentira têm para encobrir suas reais intenções.

Ele inicia o texto revelando ter se recusado a dar entrevistas solicitadas por dois jornais. Para um deles, disse ter respondido "meio brincando e meio a sério, que só dava entrevistas para estudantes de jornalismo, porque os profissionais tinham se tornado maliciosos demais para o meu gosto; deixaram de ser confiáveis".

Interessante... Malícia pode significar muita coisa ruim e condenável, mas também abriga a derivação, por extensão de sentido, agudeza de espírito, astúcia, vivacidade, estas, sim, qualidades muito pouco apreciadas pelos adoradores do "working class hero" tupiniquim.


Mais interessante...Jornalista e professor da Universidade de São Paulo, ele acredita que jornalistas devem ser confiáveis!?!?! O que é isso, companheiro? Quer dizer que para você jornalista bom é aquele que repete seu discurso sem desvendar o que nele há de ilusionismo, de logro, de release? Não, professor, jornalista deve ser confiável para o leitor, não para seus entrevistados, a quem, sempre que possível, deve esforçar-se por deixar nuzinhos em pelo, para que nós, os leitores, possamos enxergá-lo sem a farda, sem o brilho das medalhas, sem o verniz ofuscante da fama.


Querem entender melhor quem é e o que pensa o professor Kucinski? Vejam só o que o Google me deu de bandeja: em entrevista para o USP Online, ele afirma: "é preciso que haja uma ética dominante a seguir, mas em um mundo onde reina a multiplicidade, não existe mais uma só ética". O entrevistador revela sua perplexidade com tal afirmação e questiona: "De que forma a ´multiplicidade´ ameaça a existência da ética?". Aí Bernardo abre a guarda de vez, deixando cair a máscara: "A verdade de um indivíduo não é a de outro, e isso ameaça o senso comum e a construção da ética. Defendo que haja para o jornalismo um código de ética. Precisamos ter um código de conduta".


Não é incrível?!?! Ele quer um mundo em que não haja multiplicidade, mas univocidade, nos meios de comunicação. Deve ser aquele tal "outro mundo possível", onde a verdade de um indivíduo será sempre a mesma que a de outro. E ele ainda tem a pachorra de chamar isso de "senso comum", sem se dar conta de que está se indispondo com todo o pretenso ideário libertário do socialismo, propondo um "Consenso de Kucinski", um universo paralelo onde imperaria a idéia única, a verdade única, o pensamento único fundamentalista dos talebãs petistas, não deixando espaço para qualquer tipo de reflexão ou questionamento.

Veja só, Reinaldo, como Kucinski revela estar sentindo os seus golpes certeiros contra a glossolália petista: "Quando nós dizemos que queremos democratizar a comunicação no Brasil, eles entendem que queremos controlar a comunicação no Brasil; quando dizemos que os jornalistas nos devem uma auto-reflexão sobre o comportamento da imprensa, eles entendem que estamos pedindo que parem de criticar o governo. Quando dizemos que a imprensa está distorcendo determinada história, eles distorcem o que nós dissemos. E assim vai. Tudo o que a esquerda e, em especial, os petistas dizem, é entendido como o seu contrário". BINGO!!!

Percebeu como "elas estão descontroladas!!!" com a descoberta dos seus estratagemas tão bem urdidos e, até há pouco, despercebidos, por que bem camuflados?

Ele chega a dizer que "não existe mais uma língua comum entre nós" ou "trata-se da perda da capacidade de se comunicar. É como se vivêssemos numa babel", ou, ainda, "não mais compartilhamos a mesma matriz lingüística: cada um codifica e decodifica a seu modo".

Pois é, depois de anos de empulhação e construção de uma "verdade" farsesca e ardilosa, agora que a parolice dos emires, dos minhocartas e das marxilenas começa a ser decifrada e desencantada, ele se revolta e clama por uma volta àqueles tempos felizes em que tudo o que provinha das suas mentes, carregado de simbolismos e apelo popular, merecia da mídia um selo de qualidade inquestionável, pois sempre souberam manejar muito bem, com astúcia e sagacidade, conceitos como ética, utopia, ideal, interesse público, inclusão e outros quetais.

Querendo evidenciar sua erudição, ele lança mão de Saussure (só faltou o Chomsky, com Y), para quem "as idéias são nebulosas se não são enunciadas através de uma língua". Mas não respeita ou desconhece as idéias do lingüista suíço quando conclui que "é o que parece estar acontecendo conosco. As palavras já não demarcam de modo unívoco, porque para uns significam uma coisa e para outros o seu contrário".

VigeSanta!, Saussure deve estar se revirando no túmulo. Sua teoria delimita claramente a separação entre langue (língua) e parole (discurso). Para ele, a língua é um sistema de valores que se opõe uns aos outros e que está depositado como produto social na mente de cada falante de uma comunidade, possui homogeneidade e por isto é o objeto da linguística propriamente dita.


Diferente do discurso, que é um ato individual e está sujeito a fatores externos, muitos desses não linguísticos e, portanto, não passíveis de análise. Ou seja, o professor, como todo bom ilusionista, faz malabarismos com a mão direita (quando fala da língua) enquanto esconde a verdade com a esquerda (quando omite estar tratando de discurso).

Como você diz sempre: nisso não há loucura, mas método.





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No mesmo dia, não sei se sugestionado pelo meu comentário, o Reinaldo publicou este artigo arrasador contra o Kucinski. 

24 novembro 2006

HORRORISMO


Recentemente, o escritor inglês Martin Amis escreveu longo texto para o jornal The Observer, intitulado “A Era do Horrorismo”, aonde fez profunda, lúcida e desapaixonada análise do terrorismo islâmico, que, segundo ele, inaugura uma “Era da Normalidade Desaparecida”.
Conforme avançava na leitura do texto, envolvido que estava nas nossas questões políticas, partidárias e eleitorais, não pude deixar de encontrar inúmeras conexões e similitudes com a nossa realidade. A seguir, alternarei trechos selecionados do texto de Amis com paráfrases minhas pertinentes à nossa realidade local.

AMIS: “Até recentemente, dizia-se que havia uma ´guerra civil´ no interior do Islã. Bem, a guerra civil parece ter acabado. E o islamismo a venceu. O perdedor, o Islã moderado, está sempre ilusoriamente bem representado nas páginas de opinião dos jornais e no debate público; fora disso, ele é ocioso e inaudível. Não estamos ouvindo o Islã moderado, ao passo que o islamismo, como ator e modelador dos acontecimentos mundiais, é praticamente tudo que conta”.
Aqui também parecia estarmos vivendo uma “guerra civil”. Bem, ela acabou. E o lulismo a venceu. Os perdedores, PSDB e aliados, continuam bem representados nas páginas de opinião dos jornais; fora disso, parecem ociosos, inaudíveis e facilmente cooptáveis. Não estamos ouvindo as oposições, ao passo que o lulismo, como ator e modelador dos acontecimentos nacionais, é praticamente tudo que conta.

AMIS: “Respeitamos o Islã – produtor de benefícios incontáveis à humanidade, e possuidor de uma história eletrizante. Mas islamismo? Não, dificilmente poderiam nos pedir que respeitássemos uma onda religiosa que prega nossa própria eliminação. Claro que respeitamos o Islã. Mas não respeitamos o islamismo, assim como respeitamos Maomé e não respeitamos Muhammad Atta”.


Houve um tempo em que até respeitávamos o PT – possuidor de uma história eletrizante. Mas lulismo? Não, dificilmente poderiam nos pedir que respeitássemos uma onda autoritária que prega a eliminação da própria democracia. Respeitávamos Suplicy, Heloisa Helena, Cristovam Buarque, Paulo Delgado, mas já não podemos respeitar Lula, José Dirceu, Genoíno, Berzoini, Mercadante, Okamoto, Palloci, Gushiken.
AMIS: “O assassino em massa e suicida colocou para o Ocidente uma crise filosófica. A ingenuidade racionalista era mais fácil que a assimilação da alternativa: a existência de um culto patológico. E se nos dispusermos a ouvir a retórica de desilusão e auto-hipnose, poderíamos ouvi-la também de um laureado por Estocolmo – o romancista português José Saramago, que enfoca seu olhar sublime no fenômeno do assassínio em massa por agente suicida: ´Ah, sim, os horrendos massacres de civis causados pelos chamados terroristas suicidas... Horrendos, sim, sem dúvida; condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda tem muito a aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a se transformar numa bomba´”.
A busca desenfreada pelo poder colocou para o PT uma crise filosófica. A militância preferiu a ingenuidade racionalista, mais fácil que a assimilação da alternativa: a existência de um culto patológico pelo poder. Se quisermos ouvir a retórica lulista de auto-hipnose, podemos escolher à vontade na elite petista cheia de pedigree – de Marilena Chauí a Paulo Betti, de Emir Sader a Tarso Genro – todos lançando seus olhares sublimes sobre o fenômeno do apodrecimento da política: ´Ah, sim, os horrendos mensalões, dossiês, quebras de sigilo, cartilhas superfaturadas ou inexistentes, produzidos pelos chamados aloprados petistas... Horrendos, sim, sem dúvida; condenáveis, sim, sem dúvida, mas os burgueses ainda têm muito a aprender se não são capazes de compreender as razões que podem levar um militante leal a se transformar num corrupto pela causa´.
AMIS: “É doloroso parar de acreditar na pureza e na sanidade mental, do injustiçado social. É doloroso começar a acreditar num culto da morte, e num inimigo que deseja que esta guerra dure para sempre”.
É doloroso, mas imperioso, parar de acreditar na pureza de quem, por frio cálculo eleitoral, jogou, conscientemente, todas as suas bandeiras e esperanças na lata de lixo da História.
Um horror!

12 novembro 2006

ORTOTANÁSIA: UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL
A OAB paulista opina que deve ser levado em conta o que a opinião pública pensa a respeito da Ortotanásia. Seria o caso, então, de questionar o que a opinião pública pensa a respeito da pena de morte: a OAB deixaria por conta dela a decisão de adotá-la ou não? Talvez seja o caso de argüi-la sobre a prerrogativa de os advogados de Marcola ou Fernandinho Beira-Mar visitarem seus clientes na cadeia. Ou, por que não?, sobre o privilégio de os donos de canudo universitário merecerem tratamento VIP, com direito a celas especiais. Sinceramente, prefiro a opinião abalizada do Conselho Federal de Medicina, que, sem o epidêmico vírus do politicamente correto, com base na vivência prática, baixou resolução que normatiza a questão.

Visando colaborar com a discussão, compartilharei minha experiência pessoal, que inclui uma revelação sobre a os motivos que levam os médicos a, sistematicamente, decretarem o caminho da quimioterapia para pacientes terminais de câncer.

Minha mãe teve diagnosticada a recidiva de um câncer no pulmão, infelizmente em estágio metastático. A orientação médica, como é de praxe, foi a quimioterapia (com tudo o que ela representa em termos de sofrimento e desconforto). Não me conformando em vê-la submetida ao conhecido padecimento físico e espiritual, consultei outros dois oncologistas que, obviamente (e essa obviedade é explicada mais adiante) repetiram o encaminhamento: quimioterapia.


Ainda inconformado, procurei um irmão de meu pai, médico (ortopedista!), que, depois de analisar as imagens tomográficas, confirmou a gravidade e irreversibilidade do caso. Mas, para minha surpresa, afirmou que iria consultar um colega oncologista. Repeti que já havia ido a três e todos tinham sido taxativos na prescrição da quimioterapia. Ele insistiu na consulta a seu colega, sem revelar em quê ela poderia diferir das anteriores.

Dias depois, ele me chamou. Seu colega oncologista havia lhe dito que, se fosse sua mãe, a levaria para casa para que ela pudesse usufruir seus últimos meses de vida em conforto, com o carinho dos seus entes queridos, a comidinha, o travesseiro, o jornal de manhã, a novela à noite, além de todas as quinquilharias caseiras que fazem parte do universo de pequenos prazeres, afetos e afinidades eletivas de cada um de nós.

Intrigado, perguntei a que se devia disparidade tão radical em relação às demais orientações. E aqui vai a dica, que, evidentemente, não se aplica a todos os casos. Segundo meu tio, na relação médico-paciente o profissional não pode deixar de recomendar a quimioterapia, sob o risco de vir a ser processado por incúria, negligência ou seja lá o termo jurídico que se aplique. Como ele havia consultado o colega na condição de amigo, este pôde dizer-lhe o que seria, de fato, mais aconselhável, pois, segundo ele, o CA alcançaria o coração ou o cérebro antes que a medicação contra as dores começasse a não fazer mais efeito.

E foi o que fizemos, eu e meus irmãos, garantindo à nossa amada e saudosa mãe, que, aparentemente, desconhecia a fatalidade da situação, um final de vida digno, amoroso, feliz, pleno de calor humano e muito afeto.

Quando tomamos essa decisão, nem sabíamos tratar-se dessa tal Ortotanásia, que, infelizmente, tem o mesmo radical de Eutanásia, significando, porém, coisa absolutamente diversa, mas sofrendo as conseqüências maléficas desse parentesco lingüístico. A primeira é uma homenagem à vida, a segunda, sua negação.

Em relação à decisão que tomamos, vêm-me à lembrança as palavras de Goethe, em suas Afinidades Eletivas:

"A quietude paira sobre sua morada; anjos serenos, seus afins, olham-nos do espaço".

10 novembro 2006

TODO APOIO À LEI

artigo publicado no Diário Catarinense de 10/11/2006
No texto pelo qual foi condenado pela Justiça, Emir Sader termina assim a sua catilinária contra o senador Bornhausen: “Obrigado por realimentar no povo e na esquerda o ódio à burguesia”. Esta passagem me faz lembrar um sentimento que já me assombrou várias vezes nesses quatro anos: agradecer a Lula “por realimentar no povo e nos democratas o desprezo às esquerdas”.



Os esquerdinhas mais afoitos vão retrucar: “Que povo?, cara pálida, o povo votou no Lula!!!”.
Engano, petralhinhas! Votaram em Lula 46,29% dos eleitores aptos a votar e 53,71% não votaram em Lula. Portanto, nós somos a maioria, 10 milhões a mais do que os que garantiram que Lula fosse “réu-eleito”.
Lula e seu (des)governo estão abrindo os olhos de muita gente que tinha esperança de que “sua raça” fosse capaz de dirigir um país com a complexidade do Brasil. O número de pessoas que anda estudando e reconhecendo as virtudes da liberal-democracia é crescente.
Como sempre acontece quando “essa raça” é questionada, seus aparelhos (CUT, UNE, MST, sindicatos, ONGs) e aparelhados (jornalistas, acadêmicos, intelequituais) estão circulando um abaixo-assinado que condena a decisão da Justiça. Afinal, para “essa raça” todos que comungam do evangelho petista-bolivariano são inimputáveis.
Pois então, nós, a maioria, temos o dever de reagir na mesma moeda. Para isso, basta enviar mensagens de apoio à decisão judicial e, pois, à lei, para o e-mail euapoioalei@pfl.org.br. Não custa lembrar que na frase "A gente vai se ver livre desta raça por, pelo menos, 30 anos" o sentido do vocábulo "raça" é, obviamente, “grupo de pessoas”, como consta de qualquer dicionário.
Não sou catarinense de nascimento nem advogado, mas, caso reunisse essas duas virtudes, entraria com ação contra Sader, pois em seu artiguete há uma ofensa, ou injúria, dirigida a todas as pessoas do Sul, já que ele se refere a Bornhausen como sendo “proveniente de uma região do Brasil em que setores das classes dominantes se consideram de uma raça superior”.

Como diz o jornalista Reinaldo Azevedo, “escolhendo certas lutas, escolhemos em que mundo queremos viver e o que aceitamos para nós mesmos”.