11 janeiro 2007

BOM COMEÇO


Lembro-me, como se fosse hoje, de uma conversa que mantive com meu colega de governo Montoro (1983-86), o secretário de Justiça José Carlos Dias. Perguntei-lhe por que razão não se vendia (por metro quadrado, valorizadíssimo) a imensa área (430 mil m2) da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru. Completei meu raciocínio argumentando que, com o dinheiro apurado, seria possível comprar (por alqueire) dezenas de áreas rurais para a construção de penitenciárias agrícolas. Não me recordo qual foi a resposta, mas estou certo de que não foi satisfatória. Tivesse sido ouvido, teria sido evitada a tragédia dos 111 presos chacinados em um de seus tenebrosos pavilhões.


Também me lembro de haver discutido várias vezes com autoridades de Joinville sobre a equivocada localização do 62° BI, em área nobilíssima da cidade. Minha lógica continuava a mesma: por que não sugerir ao Governo Federal que o imóvel fosse vendido a incorporadores (por metro quadrado, valorizadíssimo) e, com os recursos auferidos, compradas (por alqueire) áreas rurais para onde poderiam ser transferidas as instalações? Mais uma vez, as respostas que obtive foram insatisfatórias. O detalhe grotesco fica por conta do risco envolvido nas corridas diárias realizadas pelos soldados, que são obrigados a fazê-lo em ruas e avenidas supermovimentadas, em meio a transeuntes, carros e ônibus, e, pior, incomodando moradores, em suas casas, e profissionais, em seus escritórios, com seus gritos-de-guerra entoados a plenos pulmões.

Recém-chegado a Florianópolis, voltei a me surpreender, desta feita com a localização das majestosas instalações da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada, em plena Rua Bocaiúva, mais uma vez em área valorizadíssima, se imaginarmos sua utilização para empreendimentos imobiliários, e mais valiosa ainda se transformada em jardim botânico, conforme antiga proposta do vereador André Freysleben, o que garantiria uma maravilhosa área verde e um importante pulmão bem no coração da Capital. Como todas as minhas tentativas, a do vereador também morreu na praia, no caso, literalmente.

Infelizmente, aquilo que, para nós, pobres mortais, ulula ensurdecedoramente de tão óbvio, parece não sensibilizar os donos do poder, nem os move nem os comove.

Daí porque fiquei tão agradavelmente surpreso com as decisões tomadas por dois governadores recém-eleitos, José Serra, de São Paulo, e o nosso Luiz Henrique.

Disposto a ampliar a capacidade de investimento do Estado, Serra lançou um grande "Programa de Desimobilização" que pretende desalienar 329 imóveis e edificações do patrimônio paulista, gerando, com isso, mais de R$ 300 milhões de receita que serão investidos em obras.

A iniciativa do governador Luiz Henrique tem o mesmo sentido, a ampliação da capacidade de investimento do Estado, mas traz um importante componente a mais. A venda de delegacias, presídios e penitenciárias localizadas em áreas centrais e valorizadas, como a Penitenciária Estadual de Florianópolis e delegacias como as de Tubarão, Balneário Camboriú e Itajaí, além de terem o potencial de gerar divisas para novos investimentos no setor, ainda trará, como benefício paralelo, a retirada dessas áreas de risco social dos espaços centrais das cidades.

Começam bem aqueles que se dispõem a despatrimonializar o Estado, transformando em recursos aplicáveis aquilo que permanece “deitado em berço esplêndido” , sem produzir nada de bom para a comunidade.

Um comentário:

Jordi Castan disse...

evidentemente o bom senso anda escasso......muito escasso.