28 setembro 2014

O JARDINEIRO E O FUTURO
Luiz Henrique da Silveira - 30/1/2005

Quando uma criança vê um jardineiro cortando pedaços de sua árvore preferida, fica triste, espantada, indignada. É preciso, então, que alguém, mais experiente, lhe explique que é assim mesmo: é com a poda, no tempo certo e da maneira correta, que a árvore vai ficar cada vez mais forte, robusta e florida. Mas só o tempo, ou a próxima florada, vai dar à criança a certeza de que aquela ação da tesoura do jardineiro não era um gesto brutal e destrutivo, mas, sim, uma atitude madura e consciente, uma aposta no
futuro, fruto da experiência e do conhecimento.

Essa metáfora me veio à mente pelo seu poder de jogar um pouco de luz na discussão relativa à Reforma Administrativa que encaminhamos à Assembleia Legislativa.

A palavra “envolver” tem, entre outros significados, o de cobrir, encapsular, no sentido de impedir, obstaculizar. Já a palavra “desenvolver” - significando retirar aquilo que envolve, impede, obstaculiza ou tranca -, significa romper com estruturas arcaicas, eliminar óbices, como os que impedem a sociedade de crescer e distribuir justamente os frutos do trabalho.

Pois não é nada mais do que isso o que pretendemos com a reforma: retirar tudo o que envolve, impede, obstaculiza ou tranca a potencialidade de desenvolver nosso estado como um todo, reequilibrando a nossa economia, redistribuindo as benesses do crescimento.

Tudo à nossa volta é mudança. Em todas as esferas, em todos os campos, em todas as áreas o ritmo da quebra de paradigmas é cada vez mais vertiginoso.

O psicanalista Rollo May é extremamente preciso quando nos revela que aqueles que são acometidos pela Metatesiofobia (medo das mudanças) só veem uma saída: fugir em pânico ante a iminência do desmoronamento das estruturas; acovardar-se com a perda dos referenciais conhecidos; ficar paralisados, inertes e apáticos.

O triste é que, fazendo isso, abrem mão da oportunidade de construir o futuro, se negam a exercer a característica mais distintiva do ser humano, que é a de influenciar a evolução do seu meio ambiente, capitulando frente à força inercial da história, desistindo de moldar uma sociedade futura mais justa e mais humana.

A alternativa sadia é libertar-se da Cainofobia (medo de qualquer coisa que seja nova) e participar conscientemente, mesmo em pequena escala, da formação da nova sociedade.

O cineasta e jornalista Arnaldo Jabor identificou “um Brasil triste e acabrunhado, rancoroso e reacionário, que vive do mal-estar da impossibilidade”. Mas existem antídotos contra esse baixo-astral estéril, como essas gotas de sabedoria de Mário Quintana: “Esses que aqui estão atravancando meu caminho/ eles passarão/ eu passarinho”.

Ou a sabedoria oriental expressa no I Ching: “Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano".

14 setembro 2014

TUBO CORTADO
Olavo de Carvalho
Primeira Leitura, setembro de 2004

Já não é mais possível disfarçar: estamos em plena ditadura. A única "ordem jurídica" subsistente no país é a vontade do partido governante. O pouquinho de liberdade remanescente mostra apenas o hiato temporal inevitável entre as decisões de governo e sua implementação prática. Ainda há um restinho de ar, mas o tubo já foi cortado.

Nada disso é estranho, nada disso era imprevisível, nada disso é o que pretendem os desinformantes de plantão, a súbita ruptura de um partido com o seu passado e suas tradições.

O PT é totalitário na origem, e as concessões eufemísticas que fez ao linguajar democrático nunca foram senão arranjos táticos exigidos pela própria estratégia gramsciana que o orienta e cuja aplicação gradual, persistente e sistemática é a substância da sua história.

Quando o sr. Frei Betto proclamou "Estamos no governo, mas ainda não estamos no poder", só não o entendeu quem não quis. Que mais pode um partido desejar, exceto governar seu país dentro do quadro legal e institucional em que se elegeu? Para além desse limite, só há uma aspiração possível: sobrepor-se às leis e instituições, remoldá-las à sua imagem e semelhança. Este foi sempre o objetivo do PT, amplamente documentado nas suas discussões internas, nas atas do Foro de São Paulo, na vasta bibliografia de estudos gramscianos produzidos pelos seus "intelectuais orgânicos" e, last but not least , em inúmeras investigações empreendidas por observadores não-petistas, desde o meu próprio livro A Nova Era e a Revolução Cultural (1993) até a recente série de artigos de Reinaldo Azevedo publicados neste mesmo site, passando pelos livros de José Giusti Tavares (Totalitarismo Tardio, 2000), Adolpho João de Paula Couto (A Face Oculta da Estrela, 2001), Sérgio Augusto de Avelar Coutinho (A Revolução Gramscista no Ocidente 2002, e Cadernos da Liberdade, 2003), Denis Rosenfield (PT na Encruzilhada, 2002) e muitos outros.





Se, a despeito da abundância de provas, ninguém quis enxergar o rumo dos acontecimentos e muitos até se enfezavam ante a simples sugestão de mostrá-lo, condenando-a como perigoso extremismo de direita, não se pode atribuir essa teimosia à simples burrice natural ou à vaidade suicida. Ela própria é efeito calculado da hegemonia cultural esquerdista. Paralisar a inteligência do adversário, induzindo-o a raciocinar pelas vias opostas àquelas que lhe conviria adotar para compreender a situação, é o mínimo que uma "revolução cultural" gramsciana deve fazer para ser digna do nome. Ao longo das décadas, o vocabulário dos debates públicos foi tão bem trabalhado pelos condutores do processo, que os demais partidos, esvaziados de toda substância ideológica própria, já não podem alegar contra a esquerda senão as belezas sublimes do ideário esquerdista supostamente traído. Assim, cada pequena vantagem eleitoral obtida pela "direita" traz consigo uma vitória ideológica para a esquerda.

As vítimas do processo permanecem amplamente inconscientes porque lhes falta não só o conhecimento da estratégia em questão, mas o mínimo de intuição histórico-sociológica para apreender as constantes num fluxo de acontecimentos que acaba lhes parecendo totalmente fortuito. O controle mental exercido pela elite esquerdista sobre seus adversários potenciais chega ao sadismo de explorar o seu temor do ridículo, conseguindo, com a mera alusão depreciativa a "teorias da conspiração", dissuadir qualquer veleidade de apreender alguma intenção lógica por baixo do caos aparente dos fatos. Esse ardil torna-se ainda mais eficiente quando aplicado num meio cultural como o brasileiro, onde, por falta de referências intelectuais estáveis, as pessoas são mentalmente inseguras, sempre necessitadas de apoiar-se em estereótipos de "normalidade" para sentir que não estão delirando quando fazem algum esforço pessoal de compreensão.

Dois fatores tornam ainda as coisas mais difíceis para o virtual anti-petista: a diversidade dos instrumentos da revolução cultural e a auto-limitação ideológica da resistência.

No que diz respeito ao primeiro, a influência ideológica da esquerda não é homogênea e facilmente reconhecível. Na verdade, nenhuma propaganda revolucionária nunca o foi. Já na preparação da Revolução Francesa os intelectuais ativistas atacavam em dois fronts aparentemente independentes, mas complementares. Na classe dominante, faziam propaganda anti-religiosa, para corromper a aristocracia e desguarnecê-la ideologicamente. Para as classes populares, seu discurso era contra a aristocracia. O efeito conjugado foi letal. Os aristocratas aderiram ao ateísmo elegante sem notar que ele os tornava odiosos e vulneráveis à ira popular. E o povo não precisou abjurar do cristianismo para investir contra a aristocracia.

Similarmente, hoje, a classe dos intelectuais ativistas gradua e seleciona seus pontos de ataque conforme o ambiente e a classe social dos destinatários. O discurso petista só é explícito ante um público de militantes em potencial, sobretudo universitários. Entre antipetistas declarados, ou num público empresarial avesso ao socialismo, limita-se à propaganda ateística ou antiamericana, a que o freguês adere sem suspeitar de um efeito conjugado. Nos meios culturalmente sofisticados, predomina a badalação dos ídolos intelectuais – um Neruda, um Saramago, a Escola de Frankfurt –, vendidos como valores suprapolíticos, mas carregados de veneno anticapitalista. Perante as camadas populares, valem as reivindicações sociais, sem nuances anti-religiosas que soariam repelentes. E assim por diante. Só rastreando esses discursos até a origem é que se percebe a articulação deles numa estratégia cultural global.

Com relação ao segundo fator, as únicas idéias em circulação nos meios liberais e conservadores, há mais de uma década, resumem-se na argumentação convencional em louvor dos méritos da economia de mercado – um horizonte temático demasiado estreito em comparação com a amplitude dos interesses abrangidos pela intelectualidade gramsciana. Esta ocupa-se de psicologia social e linguagem, arte e literatura, sociologia familiar e regional e, enfim, de tudo quanto seja preciso para sustentar uma atuação abrangente em todas as esferas da existência humana.

Em confronto com isso, o discurso liberal parece conversa técnica de especialistas, sem o menor interesse para a população em geral. Liberais e conservadores, enfim, abdicaram de toda atuação mais ampla na esfera social e cultural, aceitando a hegemonia esquerdista como fato natural e inevitável. Nenhum deles, até hoje, pareceu dar-se conta da total impossibilidade de fomentar uma economia capitalista sobre um fundo psicossocial de cultura comunista. Na mais ambiciosa das hipóteses, empenharam-se na luta eleitoral, mas limitando seu discurso às questões prático-administrativas do dia (senão a interesses corporativos cuja defesa atrai sobre eles o ódio da multidão) e abstendo-se asceticamente de toda crítica doutrinal ou ideológica para não passar por direitistas (oh, horror!). Enquanto isso, o PT e suas entidades associadas – desde os demais partidos de esquerda e o MST até a rede inabarcável de ONGs ativistas – tratavam de estender seus tentáculos por todas as áreas, segundo o mandamento gramsciano de dominar a cultura e a mentalidade geral antes de tentar um assalto ao poder. É por isto que agora este assalto se desenrola diante dos nossos olhos sem encontrar senão resistências esparsas e puramente verbais.

Em quatro décadas de aplicação contínua dos preceitos gramscianos, o esquerdismo petista foi marginalizando seus adversários um por um, excluindo-os de praticamente todos os campos de atuação decisivos e tornando-se o detentor de vários monopólios:

1. Monopólio dos movimentos de massa. Há quarenta anos não se vê, nas ruas, uma única passeata, reunião de protesto, panfletagem ou agitação que não seja de esquerda. As demais correntes de opinião, como esposas dóceis, ficam dentro de casa: a rua, a praça pública, é do PT, do MST, do PSTU. E as grandes mobilizações que de tempos em tempos sacodem a vida nacional vêm todas sob evidente comando esquerdista, tal como aconteceu nas Diretas-Já e na cassação de Fernando Collor. Os demais partidos limitam-se a deixar-se levar, com um sorriso amarelo destinado a infundir na platéia a ilusão de que o reboque arrasta o trator.

A força de uma corrente política depende da sua capacidade de mobilizar as massas populares, não somente na hora de votar, mas na de exigir, de lutar, de resistir, seja em defesa da ordem vigente, seja contra ela. No momento, os votantes se distribuem entre várias correntes, mas só uma delas tem capacidade de mobilização popular para outros fins. Conclusão: a decisão de preservar ou destruir as instituições está nas mãos dessa corrente e só dela.

Desde a campanha eleitoral de 2002, pelo menos, todos os partidos brasileiros apostaram mais na benevolência do partido governante do que na sua própria disposição de enfrentá-lo. Resultado: o Brasil tem uma instituição estável, o PT, e um conjunto de instituições instáveis – leis, direitos, liberdades, garantias – cuja sobrevida está à mercê dos caprichos desse partido. Nesse quadro, as demais correntes têm de escolher: renovam a aposta, submetendo-se mais ainda à autoridade do partido governante, ou tratam de reagir e organizar-se para enfrentá-lo não só no Parlamento (que é uma das instituições instáveis garantidas por ele), mas sim também nas ruas. A primeira hipótese resulta em permitir que o que resta das instituições seja deglutido pela força dominante. A segunda é tardia e inexeqüível. A opção é: suicídio ou morte lenta.

Somados, os partidos e organizações pertencentes ao Foro de São Paulo, comprometidos em graus variados com a causa da revolução continental, têm todas as condições de, em 24 horas, colocar nas ruas alguns milhões de ativistas furiosos. Não há uma só grande empresa, repartição pública, sindicato, escola de qualquer nível ou instituição cultural onde um núcleo de militantes de esquerda não constitua a única força politicamente organizada, que, se já não tem o domínio completo da situação local, está pronta para assumi-lo em dez minutos, na base da intimidação ou até pacificamente, por ausência total de resistências. Uma fração considerável desses militantes – já é impossível calcular quantos – constitui-se de indivíduos armados, adestrados para a guerrilha rural e urbana, doutrinados para o ódio de classe e imbuídos da convicção de que, para eliminar o capitalismo, vale tudo.

Ao lado deles perfila-se o temível exército do lumpemproletariado, os narcotraficantes, assaltantes e sequestradores, que estão cada vez mais imbuídos de um discurso de auto-legitimação ideológica idêntico ao do Foro de São Paulo, e que, em função dos interesses comuns que unem os cabecilhas dos bandos às Farc e ao MIR chileno, podem, embora não sem alguma dificuldade operacional, ser mobilizados para espalhar o caos e o terror nas grandes cidades.

Os demais partidos têm apenas seus funcionários pagos, uma militância rala e um eleitorado disperso, alienado, desatento, desarmado, acostumado a não ter uma participação política mais intensa que o comparecimento rotineiro às urnas, levando na memória a vaga recordação de um número de candidato. Num confronto mais sério, a única providência que essa poeira humana poderia tomar seria dispersar-se mais ainda, tratando de apagar o mais rápido possível qualquer sinal de suas antigas preferências partidárias e conquistar pela lisonja a piedade de um adversário invencível.

De organizações apartidárias antiesquerdistas nem falo, porque não existem ou são insignificantes.

Sentados há anos em cima desse barril de pólvora, os empresários e os políticos comprometidos em graus variados com a causa da democracia capitalista buscam tranquilizar-se uns aos outros repetindo a jaculatória auto-hipnótica: "Lula mudou" – e tentando persuadir-se de que um governo pró-comunista jamais os deixaria ganhar tanto dinheiro quanto estão ganhando. Como se um empresariado tanto mais rico quanto mais desguarnecido ideologicamente não fosse a burguesia dos sonhos de todo revolucionário.

2. Monopólio da cultura popular. Há quarenta anos não se vê um filme, uma novela de TV, uma peça de teatro, um espetáculo qualquer brasileiro que, na sua mensagem ideológica, não esteja essencialmente conforme a orientação gramsciana, ora de maneira mais consciente e deliberada, ora pelo mimetismo automático que é também um instrumento normal de ampliação da hegemonia.

3. Monopólio do noticiário mundial. Em todos os órgãos da mídia, sem nenhuma exceção, o noticiário de política internacional segue a orientação das grandes publicações da esquerda elegante americana e européia (New YorkTimes, Washington Post, Le Monde, France-Presse, Reuters, CNN) de modo a criar, no imaginário nacional, uma impressão de unanimidade universal jamais contestada. Nem uma única palavra da mídia conservadora estrangeira é jamais reproduzida aqui. O efeito deformante que isso causa na visão popular do mundo é monstruoso. Hoje há mais antiamericanismo no Brasil do que no Iraque, e nossa população está maciçamente convencida de que os americanos odeiam George W. Bush, cujos índices de popularidade, no seu pior momento, jamais foram abaixo de 42%, dez pontos acima do nosso presidente, que, ao mesmo tempo, continuava a ser reconhecido como um ídolo popular. A exclusão de qualquer notícia que possa prejudicar seriamente a imagem dos regimes socialistas é sistemática, imune a qualquer crítica possível.

Tal como escrevi em O Globo em 14 de agosto, "não é só o governo federal que está promovendo o estrangulamento da classe jornalística. É ela própria que, por meio da sua Federação Nacional, oferece o pescoço ao garrote, tão gentilmente quanto vem ocultando há anos as centenas de páginas das atas do Foro de São Paulo, a matança geral de cristãos em países islâmicos e comunistas, os apelos desesperados de presos políticos torturados em Cuba, a corrida armamentista na China e a ajuda que lhe prestou Bill Clinton, o contínuo genocídio cultural no Tibete, a repressão ao cristianismo nos EUA e na Europa, a disputa feroz entre globalistas e nacionalistas americanos, a colaboração cada vez mais intensa do terrorismo islâmico com as Farc e Hugo Chávez (http://www.frontpagemag.com/Articles/authors.asp?ID=1921) e, enfim, tudo o que o leitor precisaria saber para se dar conta de que a realidade das coisas não corresponde exatamente aos belos discursos do Fórum Social Mundial. O recorte que sai na nossa mídia é tão fictício que chega a induzir o público brasileiro – militar inclusive – a acreditar que o perigo para a soberania nacional na Amazônia vem dos EUA e não da ONU, o QG do antiamericanismo universal. A ditadura, com um censor em cada redação, conseguiu suprimir menos fatos essenciais".

4. Monopólio das fontes de informação na cultura superior. Nosso movimento editorial é 100% orientado pelas preferências da intelectualidade esquerdista, que exclui sistematicamente da esfera visível as idéias liberais e conservadoras. Na Zero Hora de Porto Alegre anotei em 16 de maio: "Outro dia fui procurado por um professor de faculdade que pedia informações sobre o movimento conservador nos EUA para uma tese de relações internacionais. Ele tinha vasculhado as principais bibliotecas universitárias do país, sem encontrar mais que cinco ou seis títulos. Isso dá a medida de quanto o Brasil, mergulhado há décadas num poço de ilusões solipsísticas, foi parar longe da realidade do mundo. Analisar o atual governo americano sem conhecer sua retaguarda doutrinal e ideológica é como seria, na década de 40, pontificar sobre Stálin sem nunca ter ouvido falar de Marx ou de Lênin. Nossos comentaristas de mídia e professores universitários fazem isso com a maior sem-cerimônia, parecendo acreditar-se detentores de uma ciência infusa que prescinde de todo contato com os fatos e os textos. Anos atrás, denunciei a fraude de um Dicionário Crítico do Pensamento da Direita, elaborado com dinheiro público por uma centena de acadêmicos. Prometendo um panorama científico de uma importante corrente política mundial, a obra omitia todos os principais escritores e filósofos conservadores e colocava em lugar deles panfletários de quinta categoria, premeditadamente escolhidos para criar uma impressão de miséria intelectual e fanatismo selvagem. Pela amostragem numericamente significativa dos signatários da empulhação, era obrigatório concluir que o establishment universitário brasileiro havia perdido os últimos escrúpulos de seriedade, consentindo em tornar-se instrumento consciente da exploração da ignorância popular".

5. Monopólio das alianças internacionais. Perante a mídia, o empresariado e a classe política, é inteiramente normal que a esquerda petista tenha conexões com partidos e organizações do mundo todo; que anualmente se reúna com eles no Foro de São Paulo e articule uma estratégia conjunta até mesmo com os narcotraficantes das Farc. Nada disso suscita estranheza ou escândalo, e em geral nem mesmo é mencionado. Imaginem, no entanto, o que os formadores de opinião fariam com uma organização qualquer antipetista que se associasse, mesmo remotamente, com algum órgão ligado ao Partido Republicano dos EUA. Nossa mídia não hesitou, por exemplo, em subscrever a acusação de que os adversários de Hugo Chávez, na Venezuela, teriam o respaldo do governo americano, isto pela simples razão de que receberam subsídios da National Endowment for Democracy, um órgão apartidário que já ajudou a muitos movimentos de esquerda.

A somatória final é simples: todos os caminhos para o apoio internacional estão barrados, exceto para a esquerda petista.

6. Monopólio do aparato investigativo. Isto inclui não só as CPIs, sempre movidas pela mão da esquerda, mas também o próprio "jornalismo investigativo", hoje um dos principais instrumentos de que a esquerda dispõe para a destruição de seus adversários, numa gama que vai desde os remanescentes dos antigos governos militares até virtuais concorrentes eleitorais, mantidos sob vigilância cerrada por um exército de fuçadores de escândalos. O desprezo pela verdade, aí, é total, a duplicidade de critérios, obrigatória e constante. A conversa ouvida por um motorista indiscreto despertou a fúria nacional contra Collor, mas seis testemunhas assassinadas no processo Celso Daniel não abalam em nada a credibilidade do atual presidente. Do mesmo modo, as sucessivas absolvições judiciais de um Paulo Maluf ou de um Fernando Collor, em vez de atenuar a sanha jornalística contra eles, só serve de ocasião para alimentar acusações ao Judiciário. E mesmo eventuais arrependimentos dos excessos cometidos, como no caso Ibsen Pinheiro, só acontecem quando, providencialmente, são úteis para fortalecer ainda mais as pretensões do esquerdismo hegemônico.

Esses exemplos bastam para mostrar até que ponto a desproporção de forças, a desigualdade dos meios de ação, foi aceita como estado normal, mesmo e sobretudo por aqueles a quem ela prejudicava mais diretamente. Depois de ter cedido tanto, que mais pode a atual oposição esperar, senão a oportunidade de subsistir humildemente como instrumento auxiliar do governo?
O PETRÓLEO É DELES
Demétrio Magnoli - sociólogo
OESP - 11/9/2014

Os sindicalistas são realistas: sabem que devem ajustar a chama de seu ‘nacionalismo’ segundo o ritmo dos ciclos eleitorais

‘O Ildo não é do governo, ele é um petroleiro”, teria dito Dilma Rousseff, segundo o próprio Ildo. A frase, real ou imaginária, lança luz tanto sobre a captura da Petrobras pelos interesses de financiamento partidário quanto sobre a narrativa nacionalista que recobre as empresas estatais. Ildo Sauer enxerga nas estatais a salvação do Brasil. O governo enxerga nas estatais uma poderosa ferramenta de um projeto partidário de poder — e, com razão, sorri com desdém da ingenuidade do “petroleiro” que acreditou nas suas proclamações retóricas. O capitalismo de Estado é um negócio, muito mais que uma doutrina.

Sauer é um comunista da vertente nacionalista, o tipo que interpreta a teoria do imperialismo de Lênin sob um viés terceiro-mundista e ainda elogia o suposto sucesso econômico da antiga União Soviética. O professor da USP ajudou a elaborar o programa de Lula para o setor elétrico e ocupou a diretoria de Gás e Energia da Petrobras entre 2003 e 2007, de onde saiu atirando obuses contra a retomada dos leilões de petróleo. Ele qualificou a concessão de campos na franja do pré-sal à OGX como “o ato mais entreguista da história brasileira”, acreditou que a empresa de Eike Batista produziria 1,4 milhão de barris/dia e, junto com a Federação Única dos Petroleiros (FUP), denunciou o leilão de Libra como mais uma traição à pátria. Hoje, seus bens estão bloqueados por um TCU engajado na seleção de bodes expiatórios.

Dias atrás, o PT decidiu acusar Marina Silva de “antinacionalista”, difundindo a mentira de que ela pretende privatizar a Petrobras. A FUP, sob controle petista, entrou na campanha de Dilma, encarregando-se de organizar atos “em defesa do pré-sal” com o objetivo de conferir substância ao discurso anti-Marina. Os sindicalistas são realistas: sabem que devem ajustar a chama de seu “nacionalismo” segundo o ritmo dos ciclos eleitorais. Sauer, um Quixote do estatismo, acredita de fato nas assombrações que invoca. O “petroleiro” nunca entendeu a lógica do lulopetismo nem o significado político da retórica nacionalista.

Os habitantes da antiga União Soviética não estavam de acordo com Sauer sobre o desempenho econômico do “socialismo real”. O fracasso histórico do sistema soviético provocou a implosão do “império vermelho” — e, junto com ela, a falência ideológica do estatismo tout court, ainda hoje pregado por Sauer. No mundo que emergiu depois de 1991, a alternativa realista à economia de mercado é o capitalismo de Estado. Contudo, nesse modelo, como entendeu perfeitamente o lulopetismo, as empresas estatais funcionam como nexos entre o poder político e as grandes empresas transnacionais ou nacionais. Lula e Dilma sujaram as mãos de petróleo celebrando a súbita (e, viu-se, efêmera) conversão de Eike Batista num magnata genuinamente nacional. Os atos “entreguistas” que escandalizam Sauer inscrevem-se na normalidade do capitalismo de Estado. O “petroleiro” é um sonhador — mesmo se seu sonho não passa de uma reprodução do pesadelo soviético do passado.

No universo mental de Sauer, o perigo mora no investimento privado. Sua acusação básica incide sobre os leilões de campos de petróleo. “Fernando Henrique fez quatro, Lula fez cinco. Lula entregou mais áreas e mais campos para a iniciativa privada do petróleo do que Fernando Henrique”, explicou numa longa entrevista à “Revista Adusp”, em 2011. Entretanto, à frente de uma diretoria da Petrobras, o inflexível estatista descobriu que outros interesses privados participavam do grande jogo do petróleo. Numa entrevista concedida há uma semana a “O Estado de S.Paulo”, Sauer oferece testemunho da nomeação de “despachantes de interesses” na estatal: “O governo de coalizão do presidente Lula passou a permitir que grupos de parlamentares e partidos se reunissem para indicar dirigentes.” Obviamente, ele não diz que nisso reside uma das diferenças cruciais entre a Petrobras do governo Fernando Henrique e a do governo Lula.

A FUP não se importa com a captura partidária da estatal, preferindo concentrar-se em promover uma pobre contrafação eleitoral do discurso estatista de Sauer. Mas o “petroleiro”, emparedado num sonho carente de suporte político e abandonado pelo partido que escolheu, já não pode mais virar as costas à realidade. Na entrevista recente, ele aponta na direção certa, rejeitando a lenda de que os “despachantes de interesses” operavam à margem do Planalto. “Lula se queixou a um deputado que eu não ajudava muito e que ele estava muito impressionado com a ajuda de Paulo Roberto, que ajudava muito”, contou Sauer, referindo-se ao episódio de sua demissão. No capitalismo de Estado, as estatais têm dono.

Paulo Roberto Costa começou a “ajudar” em 2004, quando Lula o catapultou à Diretoria de Abastecimento da Petrobras, e continuou “ajudando” até 2012, segundo ano do governo Dilma. Sauer acompanhou, à distância, a montagem da operação que resultaria nos escândalos das refinarias de Pasadena e Abreu e Lima. “Não me envolvia com isso porque achava que não era pertinente”, justifica-se tardiamente o “petroleiro”, que consumiu 20 páginas da “Revista Adusp” para bombardear o “neoliberalismo” sem nunca mencionar a privatização partidária da estatal. Nitidamente, o seu novo foco reflete o impacto pessoal das decisões do TCU, que incriminam os peixes pequenos e os inocentes, resguardando Dilma e Graça Foster, as principais vozes oficiais de comando.

“Um Estado dentro do Estado” — a célebre definição da Petrobras, utilizada pelo próprio Lula, sintetiza o dilema de governança das estatais. A única alternativa à captura política do “Estado paralelo” pelo governo de turno é inscrever a Petrobras no sistema de contrapesos da economia de mercado, intensificando a concorrência no setor da exploração de petróleo e expondo-a à competição internacional. Sauer, o inimigo jurado do mercado, jamais entenderá isso.

09 setembro 2014

DOCUMENTÁRIO "1984"



"1984" - O FILME (1956)


A REVOLUÇÃO DOS BICHOS - 1954)
EXPERIÊNCIA DA PRISÃO DE STANFORD
Philip G. Zimbardo

Numa manhã tranquila de domingo, em agosto, em Palo Alto, Califórnia, um carro da polícia irrompeu pela cidade levando estudantes universitários pela violação do artigo 211 do Código Penal, assalto à mão armada, e do artigo 459, do mesmo código, furto. O suspeito era levado de sua casa, acusado, informado dos seus direitos legais, colocado defronte do carro da polícia com os braços e pernas afastados, revistado e algemado, muitas vezes sob o olhar surpreendido e curioso dos vizinhos. O suspeito era colocado no banco traseiro do carro da polícia e transportado para a delegacia com as sirenes ligadas.



O carro chegou à delegacia da polícia, o suspeito foi conduzido para o seu interior, dando formalmente entrada na mesma. Leram-lhe novamente os seus direitos legais. Foram-lhe tiradas as impressões digitais e realizada uma identificação completa. O suspeito foi então conduzido para uma cela onde foi deixado vendado a pensar sobre o seu destino e sobre o que teria feito para estar envolvido naquela trapalhada.

O que os suspeitos tinham feito foi responder a um anúncio de um jornal local pedindo voluntários para participar num estudo sobre os efeitos psicológicos da vida prisional. Pretendíamos observar quais os efeitos psicológicos derivados de se ver transformado num recluso ou num guarda prisional. Para tal, decidimos montar uma prisão simulada e, em seguida, tomar nota dos efeitos desta instituição no comportamento de todos aqueles que se encontravam no seu interior.


Mais de 70 candidatos responderam ao nosso anúncio, tendo sido submetidos a entrevistas clínicas e a testes de personalidade com o objectivo de eliminar aqueles que apresentassem problemas psicológicos, de saúde ou um histórico de abuso de drogas ou de atividades criminais. Por fim, ficamos com uma amostra de 24 estudantes universitários dos Estados Unidos e do Canadá que se encontravam na área de Stanford e que queriam ganhar 15 dólares por dia por participarem no estudo. Em todas as dimensões que fomos capazes de observar e de testar eles reagiram de forma normal.

O nosso estudo da vida prisional começou, assim, com um grupo normal de indivíduos do sexo masculino, saudáveis, inteligentes e provenientes da classe média. Estes jovens foram divididos de forma aleatória em dois grupos com base no lançamento de uma moeda ao ar. Metade dos indivíduos foi integrada no grupo dos guardas e os restantes no grupo de reclusos. É importante recordar que no início da nossa experiência não existiam diferenças entre os jovens destacados para serem reclusos e os destacados para serem guardas.

Para nos ajudar a simular fielmente um ambiente prisional, solicitamos os serviços de consultores experientes. O mais importante entre eles era um antigo recluso que tinha passado quase dezessete anos atrás das grades. Este consultor fez-nos tomar consciência do que era ser um recluso. Ele também nos apresentou a vários outros ex-reclusos e guardas prisionais no decorrer de um curso anterior da escola de verão de Stanford que lecionamos sobre a “Psicologia da Reclusão”.

A nossa prisão foi construída fechando ambas as extremidades de um corredor no porão do edifício do Departamento de Psicologia de Stanford. Este corredor era o “Pátio”, sendo o único local exterior onde era permitido aos reclusos andar, comer ou fazer exercício, exceto ir ao chuveiro na extremidade do corredor (o que os reclusos faziam com os olhos vendados de forma a não saberem como sair da prisão).

Para criar as celas da prisão, as portas de algumas salas de laboratórios foram retiradas e substituídas com portas especialmente concebidas com barras de aço e números identificativos das celas.



Numa das extremidades do corredor existia uma pequena abertura através da qual podíamos filmar e gravar os acontecimentos que ocorriam. No corredor do lado oposto às celas existia uma pequena divisão que ficou conhecida como “O Buraco”, uma cela solitária. Era pequena e muito confinante, com cerca de 60 centímetros de largura e 60 centímetros de profundidade, mas suficientemente alta para que um “mau recluso” conseguisse estar de pé.

Um sistema de comunicações permitia-nos gravar secretamente o que se passava nas celas para monitorar o que os reclusos discutiam e também para fazer anúncios públicos aos reclusos. Não existiam janelas ou relógios para avaliar a passagem do tempo, o que levou posteriormente a algumas experiências de distorção temporal.

Com estes equipamentos colocados a nossa prisão estava pronta para receber os seus primeiros reclusos que esperavam nas celas de detenção do Departamento de Polícia de Palo Alto.

Vendados e num estado de choque moderado na sequência da sua detenção surpresa concretizada pela polícia da cidade, os nossos reclusos foram colocados num carro e conduzidos à “Prisão do Condado de Stanford” para posteriores procedimentos. Os reclusos eram então trazidos para a nossa prisão, um de cada vez, e acolhidos pelo diretor da prisão que lhes comunicou a gravidade dos seus delitos e o seu novo estatuto de reclusos.

Cada recluso era sistematicamente revistado e despido. Em seguida, era desinfestado com um spray para lhe transmitir a nossa convicção de que ele poderia ter germes ou piolhos, como pode ser visto na série de fotografias ao lado.

Um procedimento degradante foi parcialmente concebido para humilhar os reclusos e, por outro lado, para se assegurar que não traziam germes que pudessem contaminar a nossa prisão.

Cada recluso recebia então um uniforme. A parte principal deste uniforme consistia num vestido, ou bata, que cada prisioneiro usava sempre sem roupas de baixo. No uniforme, na parte da frente e de trás, encontrava-se o seu número de identificação prisional. Atou-se uma corrente pesada no tornozelo direito de cada recluso, que tinham de usar em todas as circunstâncias. O calçado consistia em sandálias de borracha e cada recluso cobria o cabelo com um gorro feito de uma meia de nylon de senhora.

Convém referir que estávamos tentando criar uma simulação funcional de uma prisão - não uma prisão no sentido literal. Os reclusos masculinos na vida real não usam vestidos, mas sentem-se de fato humilhados e despojados do seu sentido de masculinidade. O nosso objetivo consistia em produzir rapidamente efeitos similares ao obrigar os homens a usar vestidos sem qualquer roupa íntima. Na realidade, assim que alguns dos nossos reclusos vestiram estes uniformes, começaram a andar e a sentar-se de forma diferente e a comportarem-se de forma diferente - mais como mulheres do que como homens.

A corrente no pé, algo de incomum na maioria das prisões, era usada para recordar aos reclusos a opressão do seu ambiente. Mesmo quando estavam dormindo, eles não conseguiam escapar à atmosfera de opressão. Quando o recluso se voltava na cama a corrente atingia-lhe o seu outro pé, acordando-o e recordando-lhe que ele ainda estava na prisão, incapaz de escapar mesmo nos seus sonhos.

A utilização de números de identificação foi uma forma de fazer com que cada recluso se sentisse anônimo. Cada recluso tinha que ser chamado apenas pelo seu número de identificação e só podia referir-se a si próprio e aos outros reclusos pelo número.

O gorro feito de meia de nylon enfiado na cabeça funcionava como substituição do cabelo raspado do recluso. O procedimento, que acontece na maioria das prisões e nas forças militares, é concebido, em parte, para diminuir a individualidade, uma vez que algumas pessoas a expressam através do penteado que usam ou do comprimento do seu cabelo. É também uma forma de levar as pessoas a obedecer às ordens coercivas da instituição. A mudança dramática de aparência de uma pessoa com o cabelo raspado pode ser abaixo.

Não foi dada formação específica aos guardas para desempenharem o seu papel. Tinham liberdade, dentro de certos limites, para fazer o que pensassem que fosse necessário para manter a lei e a ordem na prisão e para assegurar o respeito dos reclusos. Os guardas elaboraram as suas próprias regras, que implementaram sob a supervisão do Diretor David Jaffe, um estudante de licenciatura da Universidade de Stanford. Contudo, foram avisados da potencial seriedade da sua missão e dos possíveis riscos da situação que estavam prestes a enfrentar, como sucede, de fato, com os verdadeiros guardas que, de forma voluntária, assumem este trabalho perigoso.

Tal como sucede com reclusos verdadeiros, os nossos reclusos esperavam algum assédio, alguma violação da sua privacidade e de alguns outros direitos civis enquanto se encontravam na prisão, e de ter acesso a uma dieta minimamente adequada, tudo parte do consentimento informado com o qual concordaram quando se voluntariaram.

Este é o aspecto de um dos nossos guardas. Todos os guardas se encontravam vestidos com uniformes idênticos, de cor  caqui, e transportavam um apito ao pescoço e um bastão emprestado pela polícia. Os guardas também usavam uns óculos de sol especiais, uma ideia inspirada no filme “Cool Hand Luke.” Os óculos de sol espelhados impediam que se pudesse ver os seus olhos ou perceber as suas emoções e, assim, contribuíam para a preservação do seu anonimato. Estávamos, naturalmente, estudando não somente os reclusos, mas também os guardas, que se encontravam eles próprios desempenhando um papel de poder que lhes tinha sido conferido.

Começamos com nove guardas e nove reclusos na nossa prisão. Três guardas trabalhavam num dos três turnos de oito horas, enquanto três reclusos ocupavam cada uma das três celas nuas 24 horas por dia. Os restantes guardas e reclusos da nossa amostra de 24 encontravam-se de prevenção para o caso de serem necessários. As celas eram tão pequenas que existia somente espaço para três casacos em cima dos quais os reclusos dormiam ou se sentavam, sem grande espaço para mais.

Às duas e meia da manhã os reclusos foram rudemente acordados por apitos estridentes para a primeira de muitas “contagens”. As contagens serviam o propósito de familiarizar os reclusos com os seus números (as contagens ocorriam várias vezes em cada turno e frequentemente à noite). Mas, mais importante ainda, estes acontecimentos representavam uma oportunidade para os guardas exercerem regularmente controle sobre os reclusos. Numa primeira fase, os reclusos não tinham assumido completamente os seus papéis e não levavam as contagens muito a sério. Estavam ainda a afirmar a sua independência. Os guardas também sentiam que ainda não estavam habituados aos seus novos papéis e não tinham certeza de como deveriam exercer a autoridade sobre os reclusos. Isto foi o princípio de uma série de confrontações diretas entre os guardas e os reclusos.



As flexões constituíam uma forma habitual de castigo físico impostas pelos guardas para punir infrações das regras ou manifestações de atitudes impróprias para com os guardas ou a instituição. Quando vimos que os guardas exigiam flexões dos prisioneiros, pensamos, inicialmente, que era um tipo de punição inapropriada para uma prisão, uma forma bastante imatura e pouco relevante de castigo.

Todavia, soubemos posteriormente que se utilizavam as flexões como uma forma de punição frequente nos campos de concentração nazis, como se pode ver neste desenho de um ex-prisioneiro de um desses campos, Alfred Kantor. Deve salientar-se que um dos nossos guardas também colocava os pés em cima das costas dos reclusos enquanto faziam flexões ou obrigava os outros reclusos a sentarem-se ou a colocarem os pés nas costas dos seus colegas reclusos enquanto cumpriam o castigo.

Pelo fato de o primeiro dia se ter passado sem incidentes, fomos surpreendidos e apanhados completamente desprevenidos pela rebelião que eclodiu na manhã do segundo dia. Os reclusos removeram os seus gorros de meias, arrancaram os seus números e barricaram-se dentro das celas colocando as suas camas contra as portas. E o problema agora era o que fazer com esta rebelião. Os guardas encontravam-se irados e frustrados porque os reclusos começaram igualmente a insultá-los e a amaldiçoá-los. Quando os guardas do turno da manhã entraram de serviço, mostraram-se irritados com os colegas do turno da noite que, sentiam eles, tinham sido certamente demasiado brandos. Os guardas tinham que lidar com a rebelião e o que fizeram foi fascinante de observar.

No início insistiram em chamar reforços. Os três guardas que se encontravam de prevenção em casa vieram e os guardas do turno da noite ficaram voluntariamente de serviço para reforçar o turno da manhã. Os guardas reuniram-se e decidiram lidar com a força pela força.



Arranjaram um extintor e dispararam um jato frio de dióxido de carbono, obrigando os reclusos a manterem-se afastados das portas. (Os extintores encontravam-se disponíveis em cumprimento das exigências do Painel de Investigação de Indivíduos Humanos de Stanford que se mostrou preocupado com potenciais riscos de incêndio).

Os guardas entraram em cada cela, despiram os reclusos, deixando-os nus, retiraram as camas, colocaram os cabeças da rebelião em celas solitárias e começaram a maltratar e a intimidar os reclusos.

A rebelião tinha sido temporariamente esmagada, mas agora os guardas enfrentavam um novo problema. De fato, nove guardas com bastões podiam dominar uma rebelião com nove reclusos, mas não era possível ter nove guardas de serviço o tempo todo. Era óbvio que o nosso orçamento da prisão não podia suportar uma tal proporção de pessoal para detidos. Assim, o que é que eles iam fazer? Um dos guardas sugeriu uma solução. “Vamos usar táticas psicológicas em vez de físicas". As táticas psicológicas consistiram basicamente na criação de uma cela de privilegiados.

Uma das três celas foi designada “cela dos privilegiados”. Foram concedidos privilégios especiais aos três reclusos menos envolvidos na rebelião. Estes receberam de novo os seus uniformes, as suas camas e era-lhes permitido lavarem-se e escovarem os dentes. Aos outros não. Os reclusos privilegiados obtinham também comida especial na presença de outros reclusos que tinham perdido temporariamente a permissão para comer. O objetivo era quebrar a solidariedade entre os reclusos.

Após meio dia deste tratamento, os guardas levaram alguns destes “bons” reclusos e colocaram-nos nas “más” celas e levaram alguns dos “maus” reclusos e colocaram-nos em “boas” celas, confundindo completamente todos os reclusos. Alguns dos que eram os líderes pensavam agora que os reclusos das celas privilegiadas passaram a informadores e subitamente todos os reclusos tornaram-se desconfiados uns dos outros. Os nossos consultores ex-reclusos informaram-nos de que uma tática similar é usada por guardas em prisões verdadeiras para quebrar alianças entre detidos. Por exemplo, o racismo é usado para atiçar negros, hispânicos e brancos uns contra os outros. Na realidade, numa prisão real a maior ameaça para a vida de um recluso tem origem noutros reclusos. Através desta estratégia de dividir para reinar, os guardas promovem a agressão entre os detidos, rechaçando a agressividade dirigida contra eles.

A rebelião dos reclusos também desempenhou um papel importante no desenvolvimento de uma maior solidariedade entre os guardas. Agora, subitamente, já não era apenas uma experiência ou uma simples simulação. Pelo contrário, os guardas viam os reclusos como perturbadores que estavam à espera de os apanhar e que poderiam mesmo fazer-lhes mal. Como resposta a esta ameaça, os guardas começaram a aumentar o seu controle, vigilância e agressividade.

Todos os aspectos do comportamento dos reclusos ficaram sob o controle total e arbitrário dos guardas. Mesmo ir ao banheiro tornou-se um privilégio que um guarda poderia conceder ou negar a seu bel-prazer. De fato, depois de as luzes se apagarem, às 22h00, os reclusos viam-se obrigados a urinar ou a defecar num balde que se encontrava na cela. Por vezes, os guardas não deixavam os reclusos esvaziarem estes baldes e rapidamente a prisão começou a cheirar a urina e a fezes, aumentando ainda mais a degradação da qualidade do ambiente.

Os guardas foram especialmente duros com o líder da rebelião, Recluso #5401. Era um fumador inveterado e eles controlaram-no através das oportunidades que lhe concediam para fumar. Soubemos mais tarde, a partir da censura que fazíamos ao correio dos reclusos, que era um ativista radical. Tinha-se voluntariado com o objetivo de “expor” o nosso estudo que ele, erradamente, considerara um mecanismo da ordem estabelecida para descobrir formas de controlar estudantes radicais. De fato, ele tinha planejado vender a história a um jornal clandestino quando a experiência terminasse! Contudo, mesmo ele assumiu de tal forma o seu papel de recluso que se sentiu orgulhoso por ter sido eleito líder do Comité de Queixas da Prisão de Stanford, conforme revelou numa carta à sua namorada.

Menos de 36 horas após o início da experiência, o recluso #8612 começou a sofrer uma perturbação emocional aguda, evidenciando um pensamento desorganizado e com episódios de raiva e de choro incontroláveis. Apesar disso, já tínhamos começado a pensar de tal forma como autoridades prisionais, que julgamos que ele estava a “dar-nos a volta” - a enganar-nos com o objetivo de o libertar.

Quando o nosso principal consultor prisional entrevistou o recluso #8612, repreendeu-o pelo fato de ser tão fraco e descreveu os tipos de abuso que poderia esperar dos guardas e dos reclusos se estivesse na Prisão de San Quentin. Foi-lhe então oferecida a possibilidade de se tornar informante em troca de não sofrer mais abusos por parte dos guardas. Foi-lhe sugerido que pensasse no assunto.

Durante a contagem seguinte o recluso #8612 disse aos outros reclusos: “Vocês não podem sair. Vocês não podem desistir". Isto veiculou uma mensagem assustadora e aumentou a sensação de estarem realmente prisioneiros. O recluso #8612 começou então a comportar-se como um “louco”, gritando, insultando e demonstrando uma raiva fora de controle. Levou algum tempo até ficarmos convencidos de que ele estava realmente em sofrimento e que tínhamos que o libertar.



No dia seguinte, foi permitida uma hora de visitas para pais e amigos. Estávamos receosos de que, quando os pais vissem o estado da nossa prisão, pudessem insistir em levar os seus filhos para casa. Para contrariar esta possibilidade, manipulamos tanto a situação como os visitantes, fazendo com que o ambiente da prisão parecesse agradável e benigno. Permitimos que os reclusos tomassem banho, fizessem a barba e se arranjassem melhor. Os reclusos tiveram que limpar e arrumar as suas celas, foi-lhes dado um bom jantar, pusemos música a tocar nos intercomunicadores e até colocamos uma antiga e atraente chefe de claque de Stanford, Susie Phillips, a dar as boas-vindas aos visitantes na recepção.

Quando cerca de uma dúzia de visitantes chegaram, cheios de bom humor, para o que parecia ser uma experiência nova e divertida, o seu comportamento foi colocado de forma sistemática sob um controle situacional. Tinham que se registar, esperar meia hora, sendo informados de que apenas dois visitantes poderiam ver um recluso de cada vez, por um período de dez minutos, sob a vigilância de um guarda durante a visita. Antes que quaisquer pais pudessem entrar na área onde decorria a visita, tinham que discutir o caso do seu filho com o Diretor. Naturalmente, os pais queixaram-se destas regras arbitrárias, mas, surpreendentemente, submeteram-se a elas. E, assim, também eles tornaram-se figurantes do nosso drama prisional, sendo adultos da classe média bem educados.

Alguns dos pais ficaram preocupados quando viram quanto os seus filhos pareciam estar cansados e perturbados. Mas a sua reação foi trabalhar com o sistema prisional, apelando em privado ao Superintendente para que este pudesse melhorar as condições para o seu filho. Quando uma mãe me disse que o seu filho nunca lhe pareceu ter um aspecto tão mau, respondi-lhe, imputando a responsabilidade não à situação mas ao seu filho:
“O que é que se passa com o seu rapaz? Será que não dormiu bem?”.
Depois perguntei ao pai:
“Não acha que o seu filho pode aguentar com isto?”.
Ele respondeu agastado:
“Claro que pode, ele é um garoto rijo, um líder".
Voltando-se para a mãe, afirmou:
“Vamos embora, querida, já perdemos muito tempo".
E virando-se para mim afirmou:
“Vemo-nos na próxima visita".

O acontecimento mais significativo com que nos confrontamos em seguida foi um boato de uma fuga em massa. Um dos guardas ouviu os reclusos a falar de uma fuga que teria lugar logo após a hora da visita. O boato foi o seguinte: o recluso #8612, que tinha sido libertado na noite anterior, ia recrutar um grupo de amigos com o objetivo de libertar os reclusos.

Como é que acham que reagimos a este boato? Será que pensam que gravamos o padrão da transmissão de boatos e que nos preparamos para observar a fuga iminente? Isso era o que deveríamos ter feito se estivéssemos a atuar como psicólogos sociais experimentais. Pelo contrário, reagimos com preocupação em relação à segurança da nossa prisão. O que se fez foi organizar uma sessão de estratégia com o Diretor, o Superintendente e um dos chefes dos guardas, Craig Haney, para se elaborar um plano que evitasse a fuga.

Após a reunião, decidimos colocar um informante (um elemento relacionado com a investigação) na cela que o recluso #8612 tinha ocupado. A tarefa do nosso informante seria dar-nos informações sobre o plano de fuga. Depois voltei ao Departamento de Polícia de Palo Alto e perguntei ao sargento se seria possível transferir os nossos reclusos para a sua velha prisão.

O meu pedido foi recusado porque o Departamento de Polícia não teria a cobertura em termos de seguros se os nossos reclusos fossem transferidos para a sua prisão. Saí zangado e contrariado com esta falta de cooperação entre os nossos estabelecimentos prisionais (a esta altura, tinha interiorizado completamente o meu papel).

Assim, formulamos um segundo plano, que consistia em desmantelar a nossa prisão após os visitantes terem partido, chamar mais guardas, acorrentar os reclusos uns aos outros, cobrir com sacos as suas cabeças e transferi-los para um armazém no 5º andar até ter passado o momento em que a suposta fuga ocorreria. Quando chegassem os conspiradores, estaria sentado sozinho. Dir-lhes-ia então que a experiência tinha terminado e que tínhamos mandado todos os seus amigos para casa, não restando ninguém para libertar. Depois de irem embora, traríamos os reclusos de volta e a segurança seria redobrada da nossa prisão. Chegamos inclusive a pensar em aliciar o recluso #8612 a regressar com base nalgum pretexto e depois voltar a aprisioná-lo novamente com o argumento de que teria sido libertado sob falsos pretextos.

Lá me encontrava sentado, sozinho, ansiosamente à espera de que os intrusos invadissem a prisão, quando quem acabou por aparecer foi um antigo colega de pós-graduação de Yale e companheiro de quarto, Gordon Bower. Gordon tinha ouvido falar que estávamos realizando uma experiência e resolveu aparecer para ver o que se estava a passar. Descrevi-lhe brevemente o que pretendíamos e o Gordon perguntou-me uma questão muito simples: "Deixe-me ver, qual é a variável independente do estudo?".

Para minha surpresa, fiquei realmente zangado com ele. Estava lidando com uma fuga prisional. A segurança dos meus homens e a estabilidade da minha prisão estavam em jogo e tinha agora que lidar com este coração mole, acadêmico, esquerdista e presumido que estava preocupado com a variável independente! Apenas muito mais tarde tomei consciência quão longe estava a levar o meu papel naquela prisão – que estava efetivamente a pensar como um superintendente prisional e não como um investigador de psicologia

O boato da fuga da prisão acabou por ser somente um boato. Nunca se concretizou. Imaginem a nossa reação! Tínhamos passado um dia inteiro a planejar como evitar a fuga, pedimos ajuda ao departamento de polícia, os nossos reclusos foram transferidos, a maior parte da prisão tinha sido desmantelada – nem sequer se recolheram quaisquer dados nesse dia. Qual foi a nossa reação a esta trapalhada? Uma frustração considerável e sentimentos de dissonância relativamente ao esforço que tínhamos dispendido para nada. Alguém tinha que pagar por isto.

Os guardas começaram então a reforçar de forma visível o seu nível de maus tratos, aumentando a humilhação que faziam os reclusos sofrer, forçando-os a realizar tarefas servis e repetitivas, como limpar as tampas das privadas com as próprias mãos. Os guardas forçavam os reclusos a fazer flexões, a dar saltos, tudo o que eles podiam pensar, e aumentaram a duração das contagens até que cada uma durasse várias horas.

Nesta altura do estudo, convidei um padre católico que tinha sido capelão numa prisão para avaliar quão realista era a nossa situação prisional e o resultado foi verdadeiramente kafkiano. O sacerdote entrevistou cada recluso individualmente e verifiquei, com espanto, que metade deles se apresentou pelo número em vez do nome. Após alguma conversa de circunstância ele perguntava: "Filho, o que é que estás a fazer para sair daqui?". Quando os reclusos respondiam, algo perplexos, ele explicava que a única maneira de sair da prisão era com a ajuda de um advogado. Propunha-se contatar com os seus pais para conseguir assistência legal, se eles assim o quisessem, e alguns dos reclusos aceitaram a sua oferta.

A visita do padre tornou ainda mais indistinta a linha entre a simulação e a realidade. Na vida quotidiana, este homem era um padre a sério, mas ele tinha aprendido igualmente a desempenhar um papel programado e estereotipado – falando de uma certa forma, unindo as mãos de forma estudada – que parecia mais uma versão cinematográfica de um padre do que um verdadeiro sacerdote, aumentando, desta forma, a incerteza que todos sentíamos sobre onde terminavam os nossos papéis e começavam as nossas identidades pessoais.

O único recluso que não quis falar com o padre foi o recluso #819, que estava a sentir-se doente, tinha-se recusado a comer e queria ver um médico em vez de um padre. Por fim, convenceram-no a sair da sua cela e a falar com o padre e com o superintendente para podermos ver que tipo de médico necessitava. Enquanto falava connosco, foi-se abaixo e começou a chorar histericamente, tal como os outros dois jovens que tínhamos libertado anteriormente. Tirei-lhe a corrente dos seus pés, o gorro de nylon da sua cabeça e disse-lhe que fosse descansar num quarto adjacente ao pátio da prisão. Também lhe disse que lhe levaria comida e que depois faria com que fosse visto por um médico.

Enquanto fiz isto, um dos guardas obrigou os outros reclusos a formar uma linha e a entoar: "O recluso #819 é um mau recluso. Por causa do que o recluso #819 fez a minha cela está numa grande confusão, Senhor Guarda". Entoaram este refrão em uníssono uma dúzia de vezes.

Mal tomei consciência de que o recluso #819 podia ouvir o cântico, corri de volta para a sala onde o tinha deixado e o que vi foi um rapaz a chorar convulsivamente e de forma incontrolada enquanto ouvia os seus colegas reclusos a gritar que ele era um mau recluso. O cântico não era desorganizado e de gozo, como tinha acontecido no primeiro dia. Era agora marcado por uma completa conformidade e submissão, como se uma única voz dissesse: "O recluso #819 é mau".



Sugeri que saíssemos, mas ele recusou. Entre lágrimas, dizia que não poderia sair porque os outros o tinham rotulado de mau recluso. Mesmo sentindo-se doente, ele queria voltar e provar que não era um mau recluso.

Nesse momento, disse-lhe: "Ouça, você não é o #819. Você é [o nome dele] e o meu nome é Dr. Zimbardo. Sou psicólogo, não superintendente de uma prisão, e isto não é uma prisão a sério. Isto é apenas uma experiência e aqueles são estudantes, não reclusos, tal como você. Vamos embora".

Ele parou subitamente de chorar, olhou para mim como uma criança pequena a acordar de um pesadelo e respondeu: "OK, vamos".

No dia seguinte, todos os reclusos que pensavam que tinham condições para saírem em liberdade condicional foram acorrentados uns aos outros e levados individualmente perante o comitê de liberdade condicional. O comitê era constituído essencialmente por pessoas que eram estranhas aos reclusos (secretárias dos departamentos e estudantes de graduação) e era chefiado pelo nosso principal consultor prisional.

Ocorreram algumas coisas notáveis no decurso destas audições. Em primeiro lugar, quando se perguntava aos reclusos se aceitavam abdicar do dinheiro que tinham ganho até aquele momento se lhes fosse concedida a liberdade condicional, a maioria disse que sim. Depois, quando concluímos as audições, mandando os reclusos de volta para as suas celas, enquanto se deliberava sobre os seus pedidos, cada um dos reclusos obedeceu, mesmo quando poderiam ter obtido o mesmo resultado simplesmente desistindo da experiência. Por que é que obedeceram? Porque se sentiam impotentes para resistir. O seu sentido de realidade tinha mudado e já não tinham a percepção que o seu encarceramento era apenas parte de uma experiência. Na prisão psicológica que foi criada, apenas as autoridades prisionais tinham o poder de conceder a liberdade condicional.

No decurso das audições também testemunhamos uma inesperada metamorfose do nosso consultor prisional quando assumiu o papel de responsável do comitê de liberdade condicional. Transformou-se literalmente no mais odiável e autoritário responsável que se possa imaginar, de tal forma que se sentiu doente perante aquilo em que se tinha transformado – o seu próprio atormentador que tinha anteriormente rejeitado os seus pedidos de liberdade condicional durante 16 anos quando ele era recluso.

Ao quinto dia, tinha surgido uma nova relação entre reclusos e guardas. Estes sentiam-se mais à vontade no seu trabalho – um trabalho que por vezes era aborrecido e noutras ocasiões interessante.

Existiam três tipos de guardas. O primeiro tipo era constituído por guardas duros mas justos, que seguiam as regras da prisão. O segundo tipo era formado pelos "sujeitos porreiros", que faziam pequenos favores aos reclusos e nunca os puniam. Por fim, cerca de um terço dos guardas era hostil, arbitrário e criativo na forma como humilhava os reclusos. Estes guardas pareciam desfrutar completamente o poder de que dispunham, embora nenhum dos nossos testes de personalidade que lhes tinham sido previamente aplicados fosse capaz de predizer este comportamento. A única ligação entre a personalidade e o comportamento em situação prisional foi a constatação de que os reclusos com um elevado grau de autoritarismo aguentavam melhor o ambiente autoritário da nossa prisão de que os outros reclusos.

Os reclusos chegaram a dar a alcunha de "John Wayne" ao guarda mais agressivo e brutal do nosso estudo. Mais tarde soubemos que o mais famoso guarda de uma prisão nazi perto de Buchenwald foi alcunhado de "Tom Mix" – o John Wayne de uma geração anterior – por causa da sua imagem de cowboy do "Oeste Selvagem" no abuso de prisioneiros.

Onde é que o nosso "John Wayne" tinha aprendido a ser assim? Como é que ele e outros assumiram tão rapidamente aquele papel? Como é que homens inteligentes, mentalmente sãos e "normais" se transformaram em perpetradores do mal tão depressa? Estas eram as questões que nos víamos obrigados a perguntar.

Os reclusos lidaram com os seus sentimentos de frustração e de impotência de várias maneiras. Numa primeira fase alguns reclusos revoltaram-se ou discutiam com os guardas. Quatro reclusos foram-se abaixo emocionalmente como forma de escapar à situação. Um recluso desenvolveu uma irritação dermatológica de origem psicossomática em todo o seu corpo quando soube que o seu pedido de liberdade condicional tinha sido negado. Outros tentaram lidar com a situação com bom comportamento, fazendo tudo o que os guardas queriam. Um deles foi mesmo alcunhado de "Sargento" pela sua obediência quase militar às ordens recebidas.

No final do nosso estudo os reclusos encontravam-se desintegrados, tanto como grupo como a nível individual. Já não existia mais qualquer sentido de unidade de grupo; apenas um grupo de indivíduos isolados que aguentavam o melhor que podiam, como acontece em muitos casos com prisioneiros de guerra ou doentes mentais hospitalizados. Os guardas tinham conquistado o controle total da prisão e comandavam a obediência cega de cada recluso.

Assistimos, no entanto, a um ato final de revolta. O recluso #416 tinha sido recentemente admitido, sendo um dos nossos reclusos de reserva. Contrariamente a outros reclusos, que assistiram a um agravamento progressivo de abusos, o horror sentido por este recluso foi total quando chegou. Os reclusos "veteranos" disseram-lhe que desistir era impossível, que se tratava de uma prisão real.

O recluso #416 lidou com esta situação iniciando uma greve de fome para forçar a sua libertação. Após várias tentativas goradas de fazer com que o #416 comesse, os guardas atiraram-no para a solitária durante três horas, sabendo que as suas próprias regras estipulavam uma hora como limite. Mesmo assim o #416 recusou.

Nesta altura, o #416 deveria ser um herói para os outros reclusos. Mas, pelo contrário, os outros viam-no como um desordeiro. O chefe dos guardas aproveitou-se destes sentimentos dando aos reclusos uma escolha. Poderiam possibilitar a saída do #416 da solitária se aceitassem abdicar dos seus cobertores ou poderiam deixar o #416 na solitária a noite toda.



O que pensam que terá sido a sua escolha? A maioria optou por ficar com o cobertor e deixar o seu colega recluso a sofrer na solitária a noite inteira. (Interviemos posteriormente e levamos o #416 de regresso à sua cela).

Na quinta noite, alguns pais que se encontravam de visita pediram-me para contatar um advogado com o objetivo de libertar o seu filho da prisão. Disseram-me que um padre católico lhes tinha telefonado aconselhando que arranjassem um advogado ou um defensor oficioso se queriam ver o seu filho libertado! Telefonei para um advogado conforme pedido e ele veio no dia seguinte para entrevistar os reclusos com o habitual conjunto de questões legais, mesmo sabendo que se tratava apenas de uma experiência.

Foi nesta altura que ficou claro que tínhamos que terminar o estudo. Tínhamos criado uma situação espantosamente poderosa, uma situação em que reclusos estavam a retrair-se e a comportarem-se de forma patológica e em que alguns dos guardas estavam a comportar-se de forma sádica. Mesmo os guardas "bons" sentiam-se impotentes para intervir e nenhum dos guardas desistiu no decurso do estudo. De fato, deve-se salientar que nenhum guarda alguma vez chegou tarde para o seu turno, alegou doença, saiu mais cedo ou exigiu um pagamento suplementar por trabalho extra.

Terminei o estudo prematuramente por duas razões. Em primeiro lugar, tínhamos constatado, através de vídeos, um agravamento dos abusos aos reclusos no meio da noite por parte dos guardas quando pensavam que nenhum investigador os estava a observar e que a experiência estava "desligada". O seu aborrecimento levou-os a abusos mais pornográficos e degradantes dos reclusos.

Em segundo lugar, Christina Maslach, uma recém doutorada de Stanford, que tinha sido convidada a realizar entrevistas a guardas e reclusos, opôs-se fortemente quando viu os nossos reclusos serem conduzidos para banheiro, com sacos enfiados nas cabeças, pernas acorrentadas, com as mãos nos ombros uns dos outros. Cheia de indignação, afirmou:"O que vocês estão a fazer a estes rapazes é terrível!". No meio de 50 ou mais indivíduos externos que viram a nossa prisão, ela foi a única que questionou o seu estatuto moral. Contudo, após a sua chamada de atenção para o efeito poderoso da situação, ficou claro que o estudo deveria terminar.

E assim, após apenas seis dias, a nossa simulação de prisão, que deveria durar duas semanas, foi cancelada.

No último dia, realizou-se uma série de encontros, em primeiro lugar com os guardas, depois com todos os reclusos (incluindo aqueles que tinham sido libertados anteriormente), e, finalmente, com os guardas, reclusos e pessoal todos juntos. O objetivo consistiu em discutir os sentimentos de todos de uma forma aberta, para dar conta do que tínhamos observado em cada um e em nós mesmos e para partilhar as nossas experiências que para cada um de nós tinham sido bastante profundas.

Procuramos, igualmente, transformar este momento numa oportunidade de reeducação moral ao discutir os conflitos originados por esta simulação e pelo nosso comportamento. Por exemplo, revimos as alternativas éticas de que dispusemos em diferentes momentos, de forma a estarmos mais bem preparados para lidar de uma forma eticamente mais aceitável em situações futuras na vida real, evitando ou opondo-nos àquelas que podem transformar indivíduos normais em perpetradores predispostos ou vítimas do mal.

Nas sessões de encontro, todos os reclusos estavam contentes pelo fato de a experiência ter chegado ao fim, mas a maioria dos guardas estava contrariada pelo fato de o estudo ter terminado prematuramente. Porque será que os guardas reagiram desta maneira?

Dois meses depois do estudo, eis a reação do recluso #416, o nosso aspirante a herói que foi colocado na cela solitária durante várias horas:

"Comecei a sentir que estava a perder a minha identidade, que a pessoa que eu chamava Clay, a pessoa que me tinha colocado naquele lugar, a pessoa que se tinha voluntariado para ir para a prisão porque era uma prisão para mim; continua a ser uma prisão para mim. Não a vejo como uma experiência ou uma simulação porque era uma prisão gerida por psicólogos em vez de ser gerida pelo Estado. Comecei a sentir que a identidade, a pessoa que eu era, que decidiu ir para a prisão, estava distante de mim, estava longe até finalmente eu não era aquilo, eu era o 416. Eu era de fato o meu número".

Compare a sua reação com a do seguinte recluso que me escreveu de uma penitenciária do Ohio após ter estado em detenção solitária por um período desumano de tempo:

"Fui recentemente libertado de uma detenção solitária após ter permanecido ali por um período de trinta e sete meses. Foi-me imposto um sistema de silêncio e se eu apenas sussurrasse para o homem na cela ao lado isso tinha como consequência ser espancado pelos guardas, levar com spray de pimenta e com um bastão, pontapeado e atirado para uma cela vazia, deixado a dormir sem roupa no chão de cimento, sem cama, cobertor, bacia ou mesmo uma privada… Eu sei que os ladrões devem ser punidos e eu não justifico o roubo mesmo sendo eu ladrão. Mas, agora, não penso que serei um ladrão quando for libertado. Mas também penso que não me encontro reabilitado. Apenas não penso em tornar-me rico ou roubar. Apenas penso em matar, matar aqueles que me espancaram e me trataram como se eu fosse um cão. Espero e rezo pela minha alma e vida futura de liberdade para que seja capaz de ultrapassar a amargura e ódio que consomem diariamente a minha alma. Mas sei que ultrapassar isto não será fácil".



O nosso estudo terminou a 20 de agosto de 1971. No dia seguinte, ocorreu uma alegada fuga de San Quentin. Reclusos no Centro de Adaptação Máxima foram libertados das suas celas pelo "Soledade brother" George Jackson, que conseguiu obter uma arma clandestinamente. Vários guardas e alguns reclusos informantes foram torturados e mortos durante a tentativa, mas a fuga foi evitada depois de o líder ter sido alegadamente abatido quando tentava escalar os muros da prisão com mais de 9 metros de altura.

Menos de um mês depois, as prisões voltaram às notícias quando um motim irrompeu na Prisão de Attica, em Nova York. Após semanas de negociações com os reclusos, que mantinham guardas como reféns enquanto exigiam direitos humanos básicos, o Governador de Nova York, Nelson Rockefeller, ordenou à Guarda Nacional que tomasse a prisão de assalto. Muitos guardas e reclusos foram mortos por causa daquela decisão mal ponderada.

Uma das principais exigências dos reclusos da Prisão de Attica era serem tratados como seres humanos. Depois de ter observado a nossa prisão simulada durante somente seis dias, compreendemos como as prisões podem desumanizar as pessoas, transformando-as em objetos e incutindo-lhes sentimentos de desespero. E relativamente aos guardas, verificamos como pessoas comuns podem ser rapidamente transformadas do bom Dr. Jekill no mau Mr. Hyde.

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